(para Rafinha Bastos)
Na primeira noite eles passam a mão na nossa bunda num beco escuro e não dizemos nada.
Na segunda noite, eles já não se escondem: esfregam o pau na nossa orelha, metem-nos cinco dedos no cu, estupram a nossa chinchilla e não dizemos nada.
Até que um dia o mais cuzão de todos entra sozinho na nossa casa já de rola na mão, come o nosso rabo, arrebenta as nossas pregas, goza na nossa cara e, conhecendo nosso medo, limpa o caralho naquele pano de prato que tem o Salmo 23 bordado.
Mas a essa altura a gente já tava gostando e só consegue dizer: “Ô… Me liga?”
Categoria: Amigos
A bandinha do safado
Pobres músicos, tão felizes com suas barbinhas e seus xalalalá. Mais cedo ou mais tarde, ele vai sapecar o punhal nas costas de todos eles.
(Dia 22 tem Bazar Pamplona e Numismata na Livraria da Esquina. Eu vou. Mas só pra ver o Numismata.)
Decepção

Ele tinha um punhal na mão direita
Vejam essa foto. Não reparem na qualidade: foi tirada lá em 2002, essa era a tecnologia que tínhamos naquele tempo. Esse aí ao meu lado (para quem não sabe, eu sou o gordo careca) é Rafael Capanema. Conheci Rafael em 2002, ano em que criei este blog. Ele, aos 16 anos, já tinha dois blogs de sucesso: o sutil como um paquiderme, que contava as agruras da vida de adolescente, e o Diário do Pão Com Manteiga na Chapa, o blog com a proposta — muito ousada para a época — de contar dia a dia se o autor tinha ou não comido pão com manteiga na chapa. Eu, aos 27 anos, tinha muito a aprender com o rapaz. Comecei a comentar no blog dele, estabelecemos contato, nos tornamos bons amigos. Nos encontrávamos com freqüência, conversávamos, eu contava histórias. Sou um tiozão, gosto de contar histórias. Se eu soubesse com quem eu estava lidando, teria tomado mais cuidado. Já chego lá.
Era a época de ouro da blogosfera nacional, quando os blogueiros se encontravam e bolavam seus planos de dominação mundial, meio que na brincadeira. No fim das contas, os blogs dominaram mesmo o mundo, num movimento que culminou com o Interbarney, um misto de portal e teoria da conspiração. Dizem que, após anos de ostracismo blogueiro, Rafael Capanema agora é um dos integrantes do Interbarney. Não sei. Eu ia colocar o link aqui, mas aquilo é uma bagunça. Não sei como os jovens conseguem navegar nessa internet de hoje em dia.
Bom.
Dias atrás, convidei Daniel Lima para uma cerveja aqui em casa. Daniel é daquela safra também. Bom rapaz, bom amigo. Ele disse que vinha, que tentaria trazer o Capanema. Fiquei feliz, há muito tempo não via nenhum dos dois. Marcamos, desmarcamos, remarcamos. Hoje, enfim, vieram os dois aqui e fomos almoçar. Relembramos histórias daquele louco começo de século, quando todos desfrutávamos as doçuras da fama. Lá pelas tantas, Rafael fica sério e diz:
— Marco, eu preciso te confessar uma coisa.
Achei que receberia uma declaração de amor. Seria muito lisonjeiro, embora não totalmente inesperado. Mas não era nada disso.
E agora eu tenho que contar rapidinho como meus pais se conheceram.
Caetano Veloso gravou Felicidade, de Lupicínio Rodrigues. Minha mãe adorava a música. Meu pai ficou sabendo, procurou um amigo dele que estava vendendo um violão e ofereceu uma grana a mais para que o cara ensinasse ele a tocar a música. Aprendeu, tocou e cantou pra minha mãe, ela caiu nessa. Os dois começaram a namorar, ficaram noivos, se casaram. Eu nasci, meus irmãos nasceram. O violão só voltou a ser tocado em 1991, quando eu tinha 16 anos e resolvi aprender. É o mesmo violão que está ao meu lado agora.
Linda história. Aí, acho que uns três anos atrás, a Fnac fez uma promoção. Conte uma história de amor nunseiquelá e ganhe um iPod. Um bom amigo que soubesse da promoção falaria comigo: “Marco, tão fazendo essa promoção aí, manda a história dos seus pais.” Mas não Rafael Capanema. Rafael Capanema, esse rapaz de ar inocente, identificou ali uma oportunidade para mostrar quem ele realmente era. Escreveu a história dos meus pais exatamente como eu havia contado, mas com uma diferença: em vez de meus pais, os protagonistas eram ele e uma garota fictícia qualquer. Ele teve até o capricho de dizer que nunca mais tocou violão depois disso. Mesmo tendo lá sua bandinha. Uma bandinha que já tocou, entre outros lugares obscuros, na Fnac.
Ele ganhou o iPod, é claro. A história é muito boa. E só hoje, três anos depois, ele me contou. Fico pensando em todas as histórias que eu já contei a esse rapaz. Histórias de minha família, de meus amigos, coisas bizarras que aconteceram comigo. Imagino como ele se faz popular mundo afora se colocando como personagem dessas histórias, histórias que são minhas.
Fica aqui o meu alerta. Não se deixem enganar pelo jeito dócil, pelo aspecto de Rogério Flausino desse rapaz. Ele vai te apunhalar assim que puder. E você não vai ganhar nem a porra de um iPod.
Um ano agitado
Não posso reclamar de 2008. Tive três empregos, dois endereços, dois estados civis. Foi um ano agitado. Eu e Cartola nos casamos — decidimos de repente, muita gente pensou que ela estivesse grávida. Não estava. Eu ganhava X num emprego que não suportava mais. Pedi demissão, arrumei um emprego para ganhar 1,25X. Esse 0,25X dava para o aluguel, então pedi minha namorada em casamento. “E aí? Vamos casar?” Foi na casa do irmão dela. Ele e a esposa devem ter pensado que eu estava brincando. Não estava. Fomos à casa dos pais dela dar a notícia. Os dois ficaram de boca aberta. “Não estou grávida”, disse minha então namorada. Eles se tranqüilizaram e ficaram muito felizes.
Então veio a parte de procurar apartamento. Ouvíamos falar em gente que ficava um ou dois meses procurando casa. Nós levamos quatro horas. Chegamos aqui sem esperar nada, acabamos nos apaixonando pelo apartamento, pelo prédio, pela rua. Íamos morar na rua das bichas. Tanto melhor: ninguém ia mexer com minha mulher.
Ela quase morreu de ansiedade quando esperava a papelada do aluguel (aluguel é um bom negócio, acreditem). Mas deu tudo certo, e eu me mudei em maio — ela é moça de família, e só viria para cá depois de casada. Na minha primeira noite, dormi em um colchão inflável, emprestado pelo irmão dela. Depois, ele me emprestou uma cama inflável muito chique, que até hoje não devolvi. Aprendi a fazer arroz e macarrão, comecei a lavar roupa e comprar pão. Uma receita de lombo na cerveja, ensinada por uma amiga e nunca usada, virou minha especialidade para ocasiões especiais.
No meio disso tudo, ainda surgiu uma viagem a Orlando — a trabalho, é claro. Dei vexame no aeroporto e vi pela primeira vez os americanos em seu habitat.
Compramos nossa pia lindíssima no Mercado Livre. Compramos por uma merreca uma mesa, quatro cadeiras e um baú de uma peruana que estava voltando para o Peru. Minha mãe nos deu o balcão que usava na floricultura — com uma pequena adaptação, ele virou armário de cozinha com uma prateleira e ganchos para pendurar nossas canequinhas de ágata. A mãe de Daniela nos deu esta mesa que estou usando agora, e vendeu por um preço simbólico o canto alemão. Nossos irmãos e pais nos deram o fogão, a geladeira, o forno de microondas (que será “micro-ondas” a partir de amanhã, vejam que ridículo), o box do banheiro, a máquina de lavar, prateleiras, pratos, copos, talheres, um monte de coisa. Um mês depois da minha mudança, nos casamos.
O casamento não teve nada de mais, e foi muito legal por isso mesmo. Nos casamos num cartório aqui perto, depois a família e os amigos mais próximos vieram almoçar crepes no salão de festas. O salão fica na cobertura do prédio, e a vista vai ficando mais bonita conforme anoitece. Minha marida comprou noivinhos bem adequados para o bolo: o noivo puxa a noiva de dentro da tela do computador. Foi assim que eu a conheci. Bom, mais ou menos.
Não tivemos lua-de-mel: eu estava de volta ao trabalho na terça-feira seguinte. O emprego novo pagava mais, mas era um porre. Eu não conseguia disfarçar meu descontentamento; nunca consigo. Fiz entrevistas em algumas empresas. Em uma delas, disse que aceitaria ganhar menos. O chefe de redação não me contratou porque me achou qualificado demais. Fiquei mais contrariado ainda. O clima da redação, com todo mundo reclamando de tudo o tempo todo, só piorava meu estado. Eu discutia com a chefe em todas as reuniões. Discordava dela em tudo. Menos de um mês depois do casamento, perdi o emprego.
O mês de julho foi o mais difícil. Passei o mês todo fazendo uns bicos. Graças a um colega jornalista de bom coração, consegui um trabalho para ganhar mil reais em três dias. Depois consegui outros dois, cada um pagando 350 reais. Em dez dias, eu tinha 1.700 reais. Achei que daria para viver assim, até descobrir que: a) os prazos para pagamento são muito elásticos e b) não é todo dia que aparecem trabalhos assim.
Então, logo no começo de agosto, recebi duas propostas de emprego. Primeiro, me chamaram para cobrir férias em uma assessoria de imprensa. Um dia antes de começar, me ligaram de uma editora onde eu havia feito uma entrevista quase um mês antes. Eu nem pensava mais naquela vaga. Quando me chamaram para a entrevista, fiquei empolgado. Era uma editora muito diferente das duas anteriores. A redação era independente. O chefe valorizava o texto acima de tudo, e tinha lá suas técnicas de redação. Eu não acreditava muito em técnicas, mas estava curioso. Depois de um mês, no entanto, eu nem lembrava mais. Mas me ligaram, marcaram uma entrevista com o dono da editora. Acertei os detalhes com ele, comecei uns dias depois.
O começo foi bem difícil. A empresa anterior me deixara desconfiado, então eu não conseguia me empolgar com o emprego novo. Além disso, havia as tais técnicas de redação. Eu não acreditava que aquilo fosse funcionar. Eu escrevia, escrevia, e achava um texto pior do que o outro. Entrei em crise. Minhas primeiras matérias grandes ficaram ruins, o chefe queria me bater. E tinha outro problema: eu voltara a ganhar X; não contava mais com o 0,25X extra que me garantiam o aluguel. Um mês de desemprego desequilibrou minhas contas. Fiquei dois meses sem pagar a faculdade nem o cartão de crédito, e sempre estourando o limite do cheque especial. Achava que resolveria isso no fim do ano: terminaria de pagar o carro em novembro, venderia o carro, usaria o dinheiro para pagar as dívidas e comprar um carro velho. Veio novembro, veio a crise, ninguém queria comprar meu carro. Quem queria, oferecia preços ofensivos.
Hoje, último dia do ano, eu penso em tudo isso e acho que tudo acabou dando certo. Eu sempre penso no que faria se ganhasse na Mega Sena; acho que todo mundo pensa nisso. Antes, eu pensava em comprar uma casa, uma chácara, carros, comprar casas e carros para a família, aplicar o dinheiro, viajar, largar o emprego. Continuo com as mesmas fantasias, mas com uma exceção: se eu ganhasse na Mega Sena hoje, acho que continuaria no emprego. Trabalho com pessoas legais, aprendo muito e, pela primeira vez na vida, vejo sentido no meu trabalho. Continuo ganhando X, mas é só questão de tempo. Mesmo em crise, conseguimos comprar o sofá mais legal do mundo. Não consegui vender o carro (ainda, OPORTUNIDADE ÚNICA), mas consegui um empréstimo a juros baixos — cunhados estão aí para isso.
2008 foi o ano em que aprendi a ajudar quando posso e, o mais difícil, a aceitar ajuda quando preciso. Foi o ano em que aprendi a aprender.
E foi o ano em que me tornei devoto de São CPAP.
Hoje vamos à casa de Daniela e Daerson para ver o ano novo começar. Foi um ano agitado para eles também, mas nada que se compare a 2007. Outros amigos vão também, outros casais que passaram por grandes mudanças em 2008. Vou fazer o já famoso lombo na cerveja. Em 2009 eu dou a receita. Por enquanto, feliz ano novo a todos vocês, e obrigado pela paciência.
Mão no peito
No começo de nossa vida adulta, quando nos conhecemos, Daniela e eu tínhamos empregos ridículos. Eu era o moleque de informática de um colégio de padres. Mesmo assim, ela ganhava: ela tinha de usar uniforme no trabalho. Eu achava isso triste. Até um dia em que eu tirei folga (ou talvez estivesse desempregado, sei lá) e fui almoçar com ela. Na porta do prédio, ficava vendo as colegas dela que saíam para o almoço. Murchinhas em seus uniformes, pareciam todas o que eram mesmo: recepcionistas, telefonistas.
Então saiu Daniela lá de dentro, andando toda empinada, autoconfiante, olhando firme para a frente. Ela parecia pairar sobre as colegas, superior a elas. No meio das recepcionistas e telefonistas, ela parecia uma aeromoça.
Corta para algum ponto lá pelo meio de 2007, ano maldito. Daniela estava no hospital pela segunda ou terceira vez depois de começar a quimioterapia. A medula dela não gostava dos remédios, os leucócitos sumiam, ela precisava ser internada. Nesse dia ela ia precisar de uma transfusão de sangue. Liguei para o hospital; ela não queria falar com ninguém. Falei com a mãe dela, já ia desligando quando ela pegou o telefone. Demorei para reconhecer a voz, de tão fraca e sem expressão. Foi tão ruim que, mesmo sabendo que ela não queria ver ninguém, eu precisei ir até o hospital.
Quando cheguei, encontrei minha amiga pálida, deprimida, com olheiras. Semanas antes eu tinha ido ao mesmo hospital para cortar o cabelo dela, que começava a cair. Nessa ocasião ela estava bem humorada: aceitou numa boa a máquina raspando sua cabeça e depois ainda fez uma dancinha na frente do espelho — que eu não vi, só deduzi. Ela ficou bonita careca, e isso não a fez perder a pose de aeromoça.
Nessa outra ocasião era tudo diferente. Quem dera ela parecesse uma recepcionista. Ela parecia pequenininha naquela cama, assustada. Ela estava com medo de morrer; estávamos todo com medo de que ela morresse. Eu passei um tempo olhando para ela, procurando algo positivo para dizer. Reparei na boca inchada e falei algo sobre ela estar parecida com a Angelina Jolie. Fui embora logo, ela não estava para conversa.
Chorei no carro voltando pra casa, foi ridículo.
Bom, tudo já passou, Daniela está bem, com dois peitos e vários cabelos. Ela fez até um blog para contar sua história — se você ainda não leu, você é um mané. E agora ela está apoiando a campanha Outubro Rosa. Eu apóio também:

Ok, não sou bem uma blogueira, mas não se prendam a essa irrelevância. O negócio é que eu quero todas as minhas leitoras saudáveis e felizes, como aeromoças espevitadas. Então, minhas queridas, façam o favor de examinar esses peitos aí. Se minha marida não se opuser, eu posso ajudá-las com isso.
Boa notícia
Daniela voltou!
(eu prefiro pagar IPVA, obrigado)
Eita
Parece que o feed deste blog estava capenga. Obrigado ao Daniel pelo aviso. Está funcionando direito agora?
Videopost educativo
Há algum tempo, escrevi três posts falando de minha descoberta do safety razor, aquele aparelho de barbear que seu avô usava. Agora, a pedido de meu querido amigo Rafael Cavalcanti, produzi um vídeo explicando detalhadamente como extrair o maior prazer do ato de barbear. Se você tem estômago para visões dantescas de pêlos, sangue e banhas, assista:
É isso! É isso!
Quando você está agoniado para falar um negócio e fica brigando para escolher as palavras certas para expressar direitinho o que pretende, é um alívio sem tamanho descobrir que alguém já o fez com mais graça e competência do que você jamais seria capaz. Gratidão eterna.
Funcionou
Olhai e vede, incréus! A simpatia funcionou perfeitamente para o Daerson. Podem guardar o fio dental dentro de um livro agora. Mas só o dele, hein? Os outros vocês vão deixando aí. E podem mandar mais fotos.

