Um dos motivos para eu desanimar deste blog foi a repetição de histórias na Bíblia. Eu já me preocupava com isso desde o começo, mas não pensava em chegar tão longe. Já existem repetições nos livros da Lei de Moisés (Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio), mas dava para contornar. Mas nos livros dos Reis, o problema virou um muro: tem muita repetição nos livros das Crônicas, tem profetas que estão lá na frente na ordem dos livros bíblicos mas são contemporâneos dos reis, enfim, uma zona.

Só recentemente fiquei sabendo da existência de uma edição da Bíblia em ordem cronológica. Quando soube, fui procurar e estava fora de catálogo. Semana passada o Neil choramingou lá no Bluesky por eu ter parado de reescrever a Bíblia. Por curiosidade, fui caçar de novo a tal edição em ordem cronológica, e não é que tinha voltado? Comprei e tá aqui. Essa é a boa notícia.

A notícia ruim é que eu já estou no segundo livro dos Reis escrito do jeito de sempre, na ordem dos capítulos, e a coisa não é simples assim. O último trecho que escrevi (em 2017!) é a segunda parte do capítulo 17 de II Reis. Olhando a Bíblia nova, descubro que o que acontece nesse capítulo está distribuído em vários períodos. Entre um trecho e outro, tem várias histórias que se passam nos livros das Crônicas; nas profecias de Isaías, Miquéias, Oséias; uns Salmos… Enfim, uma salada que, em vez de aliviar, aumentou mais ainda minha ansiedade.

Eu achei que a Bíblia em ordem cronológica seria a solução, mas ela acabou me trazendo mais problemas ainda. Vou precisar estudar mais e pensar em como eu abordaria esse negócio.

— Marcurélio, relaxa, só retoma de onde você parou.

SE EU FOSSE CAPAZ DE RELAXAR, NADA DISSO SERIA PROBLEMA, CARALHO.

Então fica aí a explicação para as duas ou três pessoas que teriam algum interesse numa retomada. VAMOS AGUARDAR.

A assinatura do meu pai era simples e elegante como ele: apenas as iniciais L e S, depois um floreio que dava uma volta por cima das letras e um pontinho pra arrematar. Quando criança, eu assistia fascinado o meu pai assinando documentos, cheques, o que fosse. Ele me explicava que a assinatura era uma marca única, que servia para confirmar que a pessoa concordava com o papel assinado, ou para autenticar a autoria. Coisa muito séria, a assinatura.

Ele me ensinou a assinar como ele, mas a minha assinatura não prestava. Eu tentava fazer o M e o A como os do meu pai, mas não tinha a desenvoltura dele com a mão. As letras saíam tortas, o floreio era troncho, o pontinho era um traço. Demorou muito tempo para eu ter uma caligrafia decente, e naquele ponto minha assinatura também já tinha virado outra.

Há muito tempo eu pensava em tatuar a assinatura do meu pai. Quando decidi viajar a Monte Santo, resolvi também aproveitar a oportunidade e fazer a tatuagem. Procurei tatuadores da cidade, gostei do trabalho do Fabrício, marquei com ele, fui, fiz.

Meu pai talvez não aprovasse isso. Ele não gostava de tatuagens, achava que era coisa de bandido. Para ser justo com ele: na periferia de São Paulo dos anos 1970 e 80, só bandido mesmo que tinha tatuagem. Aquelas tatuagens azuladas, feitas na cadeia com tinta de caneta Bic. É, definitivamente ele não ia aprovar. Paciência, ninguém mandou morrer. Tá aqui, Seu Lindauro. Sua obra mais torta, mais estranha, agora devidamente assinada.