Nosso plano ontem era visitar o Museu da Guerra e mais alguma coisa. Não deu tempo: mesmo com as exposições das duas Grandes Guerras fechadas, a visita levou 4 horas. Há uma exposição sobre a vida de uma família em Londres durante os bombardeios alemães da II Guerra. E depois disso, a exposição sobre o Holocausto. Lembram que eu falei da capacidade humana de produzir arte depois de ver Billy Elliot (o musical)? Então: a gente tem essa outra capacidade também. Eu resisti bravamente até quase o final da exposição. Só que aí veio o modelo em escala de Auschwitz. Ao lado da maquete, uma pilha imensa de sapatos atrás de uma vitrine. Antes de entrar nas câmaras de gás, os prisioneiros tinham que tirar os sapatos. Eram muitos, muitos pares de sapato. Cada par pertenceu a uma pessoa cujas cinzas foram usadas para fertilizar o solo alemão. Quando a gente chega a um lugar em que tem que tirar os sapatos — um restaurante japonês, a casa de uma pessoa com TOC — a gente sabe que na volta vai se calçar de novo e voltar pra casa. Em Auschwitz, não.

Não sei se vocês sabem, mas eu e Ana Cartola estamos em Londres. Chegamos na quinta-feira, para dormir. Ontem, sexta, tentamos ir ao London Eye mas estava ventando muito e o bichão estava fechado. Então ficamos bundando por ali. Fomos até o Big Ben, passamos em frente à Abadia de Westminster (estava fora do horário de visitas) e descobrimos ali perto um lugar que serve o típico chá da tarde inglês. Pedimos o típico chá da tarde com capuccino e chocolate quente, porque chá é coisa de fresco. Empanturrados de bolinhos, pãezinhos e outros bagulhinhos fomos caminhando até o Palácio de Buckingham. Depois andamos mais ainda até Trafalgar Square, entramos na National Gallery. Faltavam duas horas para fechar e não deu pra ver nem um quarto do que tem lá; vamos voltar um desses dias.

Hoje amanheceu um diazinho tão safado que achamos que íamos dar novamente com a cara na porta do London Eye. Para nossa surpresa, estava funcionando. É bonito lá de cima, o funcionamento e as dimensões da roda gigante são impressionantes mesmo, mas sou mais o Corcovado.

Depois disso, nada saiu como o planejado. A idéia era visitar dois museus (o de História Natural e o de Ciência). Descobrimos que toda a população da cidade tira os finais de semana para visitar museu. Filas enormes, deixamos para outro dia, decidimos ir aos parques (Kensington e Hyde). Começou a chover forte, os parques cheios de poças, atomanocu, vamos pra um caralho qualquer.

Lembrei do Borough Market, dica do meu irmão. Fomos andando para a estação em Kensington até que encontramos a igreja St. Mary Abbot. Lindíssima, meio sombria. Demos a volta, saiu um negão pela porta lateral. Uma negona. Outro negão. Porra, vamo entrar aí.
Entramos na igreja. Lá dentro, aqueles pretos chiques, sabe? Homens de terno muito bem cortado, Mulheres de chapéu. Tinha uma com um vestido branco cheio de brilhos e uma bunda que devia ser deixada para sempre no altar como prova da existência de Deus.
Não contem pra Ana Carlota que eu reparei na bunda da moça dentro da igreja, ok? Tenho certeza que ela nem notou, porque eu sou muito discreto.
Era um casamento. O vigário (é assim que a gente chama padre de igreja anglicana?) desceu até os bancos, conversou com os convidados, entrou e voltou todo paramentado. Som de órgão, mais convidados chegando. O padreco subiu ao púlpito, disse que estava tudo pronto, só estavam esperando a noiva — “que é um item meio que importante para a ocasião”, disse o vigário.
(Todo mundo é witty nessa terra. Mais tarde pegamos o metrô e o condutor desejou a todos uma boa tarde, um feliz ano novo. “E não impeção o fechamento” — fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta — “das portas”. Timing perfeito.)

O casamento estava para começar, então não íamos ficar lá dentro. Saímos pela porta lateral, encontramos a noiva já pronta para entrar pela porta de trás (e o noivo se preparando pra entrar pela porta de trás da noiva, que eu não sou inglês, sou brasileiro, porra!)
Saímos, bebemos e comemos num pub, fomos ao teatro ver o musical Billy Elliot. Eu ainda não estou preparado para escrever sobre Billy Elliot. Só digo que eu não sabia que a humanidade ainda conseguia, nesta nossa época, produzir tanta beleza.
 
E agora vou ali chupar uns soldados, que marinheiro é salgado e preciso controlar a pressão.