Eu gosto de H2OH, aquela bebida que nego chama de Sprite sem gás. É sem gás mesmo, e quase sem gosto. Mas eu resolvo isso fácil: espremo um limão no copo, encho de gelo e preencho o pouco espaço que resta com a soda choca. Por conta disso, uns meses atrás eu comprei um espremedor de limão. Um troço besta assim:

Preciso explicar o funcionamento? Você corta o limão no meio, bota uma metade ali dentro, espreme, abre, joga o bagaço fora, bota a outra metade, espreme de novo, pronto. Muito simples, só um retardado se confundiria.
Bom.
Não sei o que aconteceu depois que nos mudamos pra casa nova. Talvez eu tenha ficado mais retardado, talvez o espremedor tenha ficado espremido demais na caixa durante a mudança. Só sei que durante vários dias seguidos eu não conseguia espremer um limão direito. Ou melhor, conseguia: o problema era depois. Eu ia abrir o espremedor, ele emperrava. Eu forçava, ele abria de repente, a parte de cima dava uma volta de 180 graus, batia na borda do copo e lá se ia o suco de limão — e, pelo menos duas vezes, o copo. Eu xingava, rosnava, um inferno.
Quando meu pai voltou do hospital depois do primeiro infarto (está tudo bem, foi só um susto, vamos contar histórias), contei meus dissabores com o espremedor de limão. Ana Carlota estava inconformada com a minha capacidade de complicar algo tão simples. Pois contei, ela riu, meus pais riram.
— Não é engraçado! — protestei.
— Se acontece todo dia — meu pai, a sabedoria de sempre — é engraçado, sim.
Rimos todos. Foi a última vez que vi meu pai com vida. Foi numa segunda-feira. Ainda falei com ele pelo telefone no meio da semana. No sábado, ele morreu.
Isso foi há dois meses. Eu não espremi mais limão. Ainda choro e tenho insônia todo dia. Nem tudo que acontece todo dia é engraçado.
Mês: dezembro 2010
A pequena cética
Ana Júlia…
(Sim, o blog é sobre a minha sobrinha agora. Pau no seu cu.)
Ana Júlia ganhou essa Bíblia aí do lado, presente do Mackenzie. O texto é a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil. De diferente, só a capa e os desenhos. O formato é aquele normal de bíblia: duas colunas, letra miudinha, notas de referência com letrinha menor ainda.
No domingo, Ana Júlia já tinha demonstrado seu novo interesse pela Bíblia. Disse que o vovô morreu por causa de duas coisas: o infarto e a Eva.
— Que Eva?
— A Eva, ué. Não era pra gente morrer, nunca. Mas aí a Eva comeu uma maçã envenenada, e agora a gente morre.
Nisso que dá ilustrar a Bíblia: a criança acaba enfiando elementos de desenho animado. Então ontem ela me trouxe a Bíblia nova. Ia me mostrando as figuras e pedindo para eu contar a história de cada uma.
— Quem são esses bebês?
— Esaú e Jacó, eles eram gêmeos. o Jacó nasceu segurando o calcanhar do Esaú porque queria ser mais importante do que ele.
— E esse?
— Esse é Moisés. A mãe dele não tinha condições de criar ele, então botou ele num cestinho no rio. A filha do rei pegou ele pra criar.
— E esse, com um monte de sapo?
— Esse é o faraó, que era o rei do Egito. Deus mandou um bilhão de sapos pro Egito porque o faraó não queria deixar o pessoal do Moisés ir embora. Eles eram escravos.
Então ela chegou à página que mostra o maná. Na ilustração, um judeu com cara de personagem de desenho da Dreamworks estende a mão como quem vê se tá chovendo. Há pedaços de maná no chão, nas pedras e um pedacinho na palma da mão dele.
— E isso aqui, é o quê?
— É o maná. O povo do Moisés já tinha saído e tava andando no meio do deserto. Aí ficaram com fome, reclamaram um monte, e Deus fez chover pão do céu.
— Pfffffff… HAHAHAHA! Pão do céu! “Tá Chovendo Hambúrguer“? HAHAHAHAHA!
Acho que o pessoal do Mackenzie tá perdendo tempo com essa menina.
