Eu já ia começando o balanço de 2009 quando me lembrei de uma promessa feita no último parágrafo do balanço de 2008:

Hoje vamos à casa de Daniela e Daerson para ver o ano novo começar. Foi um ano agitado para eles também, mas nada que se compare a 2007. Outros amigos vão também, outros casais que passaram por grandes mudanças em 2008. Vou fazer o já famoso lombo na cerveja. Em 2009 eu dou a receita. Por enquanto, feliz ano novo a todos vocês, e obrigado pela paciência.

Pois bem: estamos prestes a voltar à casa do casal, vou preparar o lombo de novo e até agora não dei a receita do lombo na cerveja (ou “Lombo da Galega”, porque foi a Galega que me ensinou). Então vamos lá. É muito fácil.

Tempo de preparo: 14 horas (mas durante 12 horas você não faz nada).
Grau de dificuldade: fácil pra caralho.
Teor de gelamento: moderado.
Serve 1 pessoa de 490 Kg ou 7 pessoas de 70 Kg.

Para começar, os ingredientes:

  • Para fazer o Lombo da Galega, primeiro você vai precisar de um lombo de porco. Vá ao supermercado, açougue, sei lá. Não precisa ser nada muito exagerado. Um lombo de dois quilos já dá carne pacaraio. E nada de comprar aqueles lombos pré-temperados. É só a carne mesmo.
  • Depois, cerveja. Duas latas de cerveja: uma pro lombo, uma pro cozinheiro.
  • 1 xícara de suco de laranja. Isso é importante: é a liga do suco de laranja com a cerveja que vai deixar a carne macia.
  • 1 cebola
  • 4 cravos-da-índia
  • 2 dentes de alho picados
  • 2 folhas de louro
  • 4 colheres de manteiga
  • sal
  • pimenta

Muito bem. Você também vai precisar de uma tigela grande, pra deixar o lombo de molho, e de uma assadeira, adivinha pra quê. A primeira coisa a fazer é misturar a cerveja, o suco de laranja, o louro e o alho dentro da tijela tigela. Depois você pega os quatro cravos-da-índia, espeta os danados na cebola e bota a cebola já devidamente encravada dentro da tigela.
Pegue o lombo e faça vários furos nele com a faca, que é pra ele chupar o tempero. Esfregue sal e pimenta no bicho, enfie ele na tigela e cubra. Deixe a tigela na geladeira por pelo menos 12 horas. Tempo mais do que suficiente para um intervalo comercial:

Passadas as 12 horas, tire o lombo da tigela mas não jogue fora o caldinho — ele é importante. A essa altura, já é bom deixar o forno aquecendo. Seque o lombo e espalhe manteiga nele. Manteiga, não margarina. Deixa de ser mão-de-vaca. Bote o lombo na assadeira com a capa de gordura pra cima e jogue o caldinho até atingir 1 centímetro de altura — mas não jogue fora o resto do caldinho, caralho. Cubra a assadeira com papel alumínio e leve ao forno. Deixe lá por uma hora, sempre regando com o caldinho.
Depois de uma hora, tire o papel alumínio e deixe assando até dourar. Meia hora deve bastar. Tire o lombo da assadeira e fatie o bicho. Aí vem a parte do molho, que é polêmica.
Segundo a Galega me ensinou, o negócio é acender as bocas do fogão, botar a assadeira em cima, raspar tudo e botar numa panela junto com a cebola encravada. Depois, ferver a mistura, jogar fora os cravos, picar a cebola e servir tudo como um molho.
Só que isso nunca deu certo pra mim: fica só uma coisa gordurenta por cima do lombo, que não acrescenta nada ao sabor do negócio. Minha próxima tentativa — idéia da marida — vai ser de fritar a cebola no azeite, juntar shoyu, pimentão e tomate. Mais fácil, até. Depois eu conto como ficou. E vocês façam o favor de me contar se resolverem preparar o lombo na cerveja. Mandem fotos.

Fui ver Avatar na quarta-feira. É só uma xaropada ambientalista, e nem toda a tecnologia do mundo basta para compensar tanto clichê. Então nem vou falar do filme. Em vez disso, conto uma cena que aconteceu no cinema.
O Marabá reabriu, então agora eu e a marida temos um cinema — multiplex com sala 3D e tudo mais — a poucos metros de casa. Fomos até lá; tinha fila, coisa rara em cinemas de rua e mais rara ainda no centro de São Paulo. Mas compramos nossos ingressos, entramos na sala, pegamos nossos óculos 3D e eu saí para comprar água. Tinha fila também, e andava devagar. O rapazinho do balcão, coitado, tinha que fazer tudo ao mesmo tempo: atender, servir e cobrar. Na minha frente, várias bichinhas pagando qualquer dôrreal com cartão de débito — o que tornava o atendimento mais lento ainda. Com tudo isso, um sujeito ainda resolveu decidir o que queria só quando chegou sua vez de ser atendido. Meio na dúvida, olhou para a máquina de refrigerantes:
— Qual está mais gelado?
“Tudo igual”, poderia responder o rapazinho do balcão. Mas não. Nããão. Ele é um profissional de atendimento ao público e, como tal, não pode se limitar aos recursos mais básicos da linguagem. Claro que não. Ele pensou por um instante e respondeu:
— Todos têm o mesmo teor de gelamento, senhor.
TEOR DE GELAMENTO!
Eu precisava compartilhar isso com vocês. Feliz Natal.

(II Reis 14)
O capítulo anterior terminou com a morte de Jeoás, rei de Israel. Este capítulo recua catorze anos para mostrar outro rei: Amazias, que subiu ao trono de Judá quando Jeoás já ia no segundo ano de reinado em Israel. Amazias foi um rei mais-ou-menos, como costumavam ser os reis de Judá: não agradou a Javé completamente, mas também não fez nada que levasse o Grandão a sapecar-lhe um meteorito na idéia.
A primeira medida de Amazias assim que se firmou no trono de Judá foi matar os assassinos de seu pai, o rei Joás. Depois disso, entrou em guerra contra Edom, matando 10 mil edomitas e tomando a cidade de Selá. E aí veio uma combinação de tédio e arrogância que levou Amazias a comprar briga com Jeoás.
A briga começou de um jeito inocente. Jeoás ainda pensava na morte de Eliseu, que ele considerava um pai:

Jeoás01

Enquanto isso, Amazias queixava-se:
Amazias01
Amazias02
O tédio de Amazias divertiu Jeoás, e aí começou o furdunço:

Amazias_Jeoas01

(leiam de baixo para cima)


Jeoás já conhecia a fama de valentão de Amazias, então achou melhor contemporizar e mandar uma resposta em forma de parábola:
Jeoás02Jeoás03
Amazias não recebeu bem a parábola:
Amazias_Jeoas02

(de baixo pra cima outra vez)


Jeoás era pacífico, mas não era besta. Reuniu seu exército e partiu na direção de Judá. Amazias fez o mesmo e partiu na direção de Israel. Os dois reis e seus exércitos se encontraram em Bete-Semes, dentro do território de Judá. Israel era um reino muito maior, mais avançado, e Amazias não tinha chance nenhuma. Após uma batalha rápida, o exército de Judá debandou e foi cada um para sua casa. Os israelitas foram atrás. Jeoás destruiu um trecho de 200 metros da muralha de Jerusalém, saqueou o templo e o palácio, e voltou para Samaria levando ouro, prata e reféns.
Amazias ainda viveu quinze anos depois da morte de Jeoás, mas nunca mais quis saber de briga. A morte dele não foi das mais heróicas: soube de uma conspiração e fugiu para Laquis. Não adiantou nada: os conspiradores o mataram lá e mandaram o corpo para ser sepultado em Jerusalém. Uzias, filho de Amazias, foi feito rei em seu lugar. Era um garoto de dezesseis anos de idade.
Em Israel, Jeroboão II sucedeu Jeoás. Javé não ia com a cara dele: era um rei folgado, tinha outros deuses lá dele, estava nem aí para a religião oficial. Mas também era um grande estrategista e expandiu o território de Israel até as fronteiras originais. Quando Jeroboão morreu, seu filho Zacarias subiu ao trono.
E não, eu não vou fazer piada de Trapalhões.

Igor Augusto está prestes a se tornar o melhor aluno da escola. Ele tem doze anos e é meu primo (sim, nomes compostos são a especialidade da família). O Igor vai bem em tudo, especialmente em matemática; minha tia está orgulhosa. E aí começam as comparações, porque eu era assim também na idade dele. Não estudava, não fazia lição de casa, mas sempre tirava notas boas. Minha mãe voltava orgulhosa das reuniões, o que me constrangia um pouco — só um pouco. Sei como o Igor se sente. Em todo o primeiro grau (não sei o nome disso hoje, acho que é ensino básico) eu nunca fui parar na diretoria e só tirei uma nota vermelha. Eu não era bem um nerd: só gostava de ficar na minha, tinha lá meus amigos, raramente me metia em brigas. Me dava bem com todo mundo, não puxava saco de professor e não dedurava ninguém. Minha passagem pela escola foi tranqüila: nunca peguei uma recuperação e nunca fui odiado por isso.
Até hoje sou um cara pacato. E até hoje eu me espanto com as pessoas intensas, selvagens. Esse espanto quase sempre tem um sentido negativo, aquela sensação de ver um bêbado feliz mijando nas calças. Eu penso: “uau, como pode?”, mas não invejo o cara. Faz um tempo uma mulher me disse que conviveu muito tempo com o Jorge Mautner e que ele era muito “visceral”. Peguei nojo do Jorge Mautner. Admirar maluco é coisa muito rara pra mim.
Um maluco que eu admirava muito aos 10 anos era o Marquinhos. Gente boa, amigo de todo mundo, sentava cada dia num lugar diferente da sala de aula. Um dia a professora chamou ele de palhaço. Ele agradeceu. “Palhaço é uma profissão muito digna, professora.” O tipo da coisa que eu gostaria de ter coragem de dizer. Um dia ele se encheu. A professora disse que ele não ia ser ninguém da vida. Ele disse “ah, é?”, jogou a mochila pela janela e pulou atrás. Nós todos corremos para a janela. Ele pegou a mochila, olhou para cima, acenou para nós e nunca mais voltou à escola.
livro_danilo_pioralunoLendo o manual Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, do Danilo Gentili, lembrei do Marquinhos. O Danilo também pulou da janela da sala de aula. Só que a sala dele não devia ser no primeiro andar como a nossa, porque o jacu quebrou as duas pernas na queda. O livro é um manual que ensina a ser tudo o que eu não fui na escola. O grande mérito dele é falar com a molecada de igual para igual. Quando Danilo ensina o leitor a fazer uma arma de três canos a partir de um tubo de PVC não é um adulto contando suas peraltices: é um moleque terrorista compartilhando informações com outros moleques terroristas. Conheci o Danilo depois de adulto; é um sujeito legal. Deve ter sido um moleque legal também.
No dia do lançamento, pensei bem e comprei dois exemplares: um para mim, outro para o Igor. Ele não precisa ser tão bonzinho assim.

A marida e eu íamos ver Paranormal Activity ontem à noite, mas ficamos com medo. Muita gente disse que o filme era assustador, que o Spielberg se cagou todo com o filme. Então assistimos episódios do Dexter e deixamos o filme para hoje de manhã. Não deu. Cheguei em casa depois das nove da noite, decidimos assistir. Eu sou muito cagão; Ana Cartola é mais ainda. E…
Olha…
MEU
DEUS
DO
CÉU!

..
.

Bu!

Bu!


Qualquer episódio do Scooby-Doo é mais assustador do que essa merda.