Nesses três anos de profissão, nada me assusta mais do que cobrir eventos. Enquanto estou na redação, estou bem. A redação é um ambiente amigável, com gente que eu conheço e onde eu faço o que gosto de verdade: escrever. Só que ser repórter não é só escrever: é apurar, entrevistar, investigar, sondar, blablablá. Quando saio para cobrir eventos — ainda mais eventos importantes, que duram vários dias e tal — me sinto o último dos manés. Olho para os colegas e todos eles têm suas fontes, informações exclusivas, histórias para contar. Quanto a mim, ando pelo evento, assisto a painéis e palestras, visito a exposição, e não consigo ver nada de interessante. Os mesmos palestrantes repetem os mesmos assuntos para as mesmas pessoas. Nos painéis de debates, cada participante concorda alegremente com o que os outros falam. Nos estandes, duas, três, oito empresas demonstram produtos idênticos, apresentando-os como exclusividades magníficas. Eu não entendo.
E aí está o grande problema: não tenho o desembaraço necessário para abordar pessoas, apresentar-me, puxar assunto. Sou reservado com gente que não conheço, o que não é aconselhável para quem se propõe a ser um repórter. Então observo, escuto conversas, presto a maior atenção e, se achar que vale a pena, me obrigo a chegar perto e dizer, “Oi, sou repórter, queria conversar com você sobre esse negócio aí.” Só que eu raramente acho que vale a pena.
Minha impressão é que não tem nada de novo acontecendo, que “inovação” é só uma palavra que já está saindo de moda, que certo mesmo estava o autor do Eclesiastes. Mas não é possível. Estou numa sala de imprensa cheia de jornalistas, ao lado há outra sala cheia de assessores de imprensa. Essa gente toda não ia convergir para um mesmo lugar se não houvesse nada de novo acontecendo.
Ia?

O povo clama para que eu me manifeste sobre o seqüestro de Santo André. E eu nem sabia que tinham seqüestrado o apóstolo…

Tá, mentira. Ninguém me perguntou nada. Mas digo mesmo assim: consegui passar a semana inteira docemente ignorante sobre o que acontecia num buraco qualquer de uma cidade-dormitório. Outras coisas aconteciam em outros buracos de outras cidades-dormitório, e é claro que não me interessavam. Então por que eu daria atenção a esse caso específico? Só porque a imprensa ficou falando nisso?
Bom, não consegui manter minha total ignorância, infelizmente. Matei aula na sexta-feira porque já sabia qual seria o tema: há anos os professores de jornalismo se desesperam em busca de um assunto diferente dos casos Escola Base e Bar Bodega. Esse novo caso de trapalhada midiática deve ter sido um alívio para eles. Atenção: se você pretende estudar jornalismo algum dia, prepare-se para debater o seqüestro de Santo André à exaustão.
De resto, minhas opiniões permanecem mais ou menos as mesmas desse outro post. E o rato de Green Mile ainda me comove mais.

No começo de nossa vida adulta, quando nos conhecemos, Daniela e eu tínhamos empregos ridículos. Eu era o moleque de informática de um colégio de padres. Mesmo assim, ela ganhava: ela tinha de usar uniforme no trabalho. Eu achava isso triste. Até um dia em que eu tirei folga (ou talvez estivesse desempregado, sei lá) e fui almoçar com ela. Na porta do prédio, ficava vendo as colegas dela que saíam para o almoço. Murchinhas em seus uniformes, pareciam todas o que eram mesmo: recepcionistas, telefonistas.
Então saiu Daniela lá de dentro, andando toda empinada, autoconfiante, olhando firme para a frente. Ela parecia pairar sobre as colegas, superior a elas. No meio das recepcionistas e telefonistas, ela parecia uma aeromoça.
Corta para algum ponto lá pelo meio de 2007, ano maldito. Daniela estava no hospital pela segunda ou terceira vez depois de começar a quimioterapia. A medula dela não gostava dos remédios, os leucócitos sumiam, ela precisava ser internada. Nesse dia ela ia precisar de uma transfusão de sangue. Liguei para o hospital; ela não queria falar com ninguém. Falei com a mãe dela, já ia desligando quando ela pegou o telefone. Demorei para reconhecer a voz, de tão fraca e sem expressão. Foi tão ruim que, mesmo sabendo que ela não queria ver ninguém, eu precisei ir até o hospital.
Quando cheguei, encontrei minha amiga pálida, deprimida, com olheiras. Semanas antes eu tinha ido ao mesmo hospital para cortar o cabelo dela, que começava a cair. Nessa ocasião ela estava bem humorada: aceitou numa boa a máquina raspando sua cabeça e depois ainda fez uma dancinha na frente do espelho — que eu não vi, só deduzi. Ela ficou bonita careca, e isso não a fez perder a pose de aeromoça.
Nessa outra ocasião era tudo diferente. Quem dera ela parecesse uma recepcionista. Ela parecia pequenininha naquela cama, assustada. Ela estava com medo de morrer; estávamos todo com medo de que ela morresse. Eu passei um tempo olhando para ela, procurando algo positivo para dizer. Reparei na boca inchada e falei algo sobre ela estar parecida com a Angelina Jolie. Fui embora logo, ela não estava para conversa.
Chorei no carro voltando pra casa, foi ridículo.
Bom, tudo já passou, Daniela está bem, com dois peitos e vários cabelos. Ela fez até um blog para contar sua história — se você ainda não leu, você é um mané. E agora ela está apoiando a campanha Outubro Rosa. Eu apóio também:

Ok, não sou bem uma blogueira, mas não se prendam a essa irrelevância. O negócio é que eu quero todas as minhas leitoras saudáveis e felizes, como aeromoças espevitadas. Então, minhas queridas, façam o favor de examinar esses peitos aí. Se minha marida não se opuser, eu posso ajudá-las com isso.

Depois de cinco meses morando no centro de São Paulo, finalmente eu começo a explorar detalhes das redondezas. Eis outro benefício trazido por São CPAP: agora eu acordo mais cedo e com disposição para bundear por aí. Hoje acordei às sete da manhã e fui dar uma volta pelo Largo do Arouche. Antes não o tivesse feito.
A prefeitura tem um projeto chamado Adote uma Obra Artística. A Votorantim adotou várias esculturas do Largo do Arouche e o índio veado da Vieira de Carvalho. Cada obra adotada foi cercada por um tapume com informações sobre a escultura e seu autor. No Largo do Arouche, três obras passam por restauração. Então hoje de manhã, caminhando por ali, notei um busto numa das laterais da praça. Antes imperceptível, ele agora se destaca por ser a única escultura exposta. De longe já vi que o busto estava maltratado, coberto de musgo, com um pardal usando a cabeça do homenageado como banheiro, mesmo destino dado ao pedestal por cães e mendigos. Cheguei perto para ver quem era o pobre coitado excluído de tão louvável iniciativa de restauração.
Pois bem, o nome do sujeito é Luiz Gama. Tirei uma foto:

"Homenagem dos pretos do Brazil"

'Homenagem dos pretos do Brazil'


Luiz Gama, um negão cheio de paixão, nasceu na Bahia em junho de 1830. Era filho de um fidalgo português com uma escrava, e nasceu como homem livre. Aos 10 anos, porém, o pai o vendeu como escravo para pagar dívidas de jogo. Aos dezoito, ele conseguiu fugir do cativeiro e se alistou na Exército. Chegou a cabo, mas acabou expulso por insubordinação. Veio morar em São Paulo, trabalhou em repartições, acabou formando-se advogado. Dedicou-se à defesa dos pretos, e nos tribunais conseguiu libertar mais de 500 escravos. Escreveu versos satíricos de crítica social (achei esse, leiam que vale a pena). Abolicionista de primeira hora (também porque lhe convinha, convenhamos), conviveu com Castro Alves, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, aquela patota toda. Morreu em 1882, seis anos antes da Abolição.
Hoje, o busto que homenageia Luiz Gama está jogado num canto qualquer do Arouche, sem qualquer placa que lhe identifique o autor ou informe a data da obra*. E sem direito a restauração.
Vida de preto é difícil. Até quando vira estauta.

* Mas para isso serve o Google. Yolando Mallozzi esculpiu o busto, que foi inaugurado oficialmente em novembro de 1931. O busto está em processo de tombamento desde 1992. Parece também que o local original da escultura era nas proximidades da Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. Depois o negão foi para o Arouche; não sei quando nem como. Insubordinação, provavelmente.

Acordei hoje às sete e meia da manhã, na mesmíssima posição em que tinha ferrado no sono, pouco depois da meia-noite. Para muitos de vocês isso deve não ter nada de mais. Eu os invejo. Minha rotina ultimamente era dormir pouco, levantar de duas em duas horas e acordar com o despertador berrando na minha orelha. Obrigava-me a levantar da cama, agia como um zumbi por algumas horas, e o resto do dia era uma briga danada para não dormir — no ônibus, no trabalho, na faculdade.
Agora são oito da manhã e eu me sinto como se tivesse dormido dezesseis horas seguidas. Tudo graças à melhor invenção do mundo, esse simpático apetrecho:

Tira o olho da minha tromba!

Tira o olho da minha tromba!


Só foi um pouco assustador pra Ana Cartola, tadinha…

Web 2.0, Era da Participação, Cauda Longa. Só eu tenho vontade de vomitar quando alguém começa com essas conversinhas? Parece que sim. Parece que tem gente por aí que acredita tanto no poder das mídias sociais (?) que está vendo se tira uma casquinha dessa onda. Vejam: se eu compro um produto com defeito, ligo para quem me vendeu, explico a situação, vejo se tem conserto. Se me enrolarem, exijo que troquem o produto. Se não trocarem, devolvo e pego meu dinheiro de volta. Simples. Né?
Né não. Segundo Ian Black, né não. Ele teve lá um problema com um notebook. Imagino a irritação, a frustração por não poder usar um brinquedo novo. Eu mesmo comprei um brinquedo esta semana e estou que não me agüento, esperando a entrega. Então entendo, é claro. O que eu não entendo é o Ian querer que a Dell:

  1. mande um técnico até a casa dele para consertar o notebook
  2. devolva o dinheiro que ele pagou

Ele diz que dar o notebook de presente seria um bom negócio para a Dell. Que ele vai falar bem da Dell pra todo mundo se isso acontecer. E ainda vai doar o bicho para uma ONG. Eita!
Precisa acreditar muito nesse papo de Web 2.0 para fazer uma proposta dessas em público. Ora, imaginem se a Dell resolve dar notebooks para todo mundo que tiver problemas com seus produtos. Vai ser o cão de saias!

(II Reis 11)
— Eu sou rei ou não sou?
— Claro que é, majestade.
— ENTÃO EU QUERO UM LEÃO, CARALHO!
— Majestade, essa linguagem não é adequada…
— CA-RA-LHO! CA-RA-LHO! CA-RA-LHO!
— Tudo bem, majestade, vou arrumar seu caral… digo, leão. Só vamos precisar construir um muro bem alto no pátio, senão ele come a girafa que o senhor também pediu. Fora isso, há mais alguma coisa que eu pos… majestade?
O rei tinha adormecido enquanto o sacerdote Joiada falava. Vendo seu senhor jogado daquele jeito no trono, a coroa tombada de lado, um fio de baba no queixo, Joiada questionou seus atos mais uma vez. Talvez a conspiração para levar Joás tivesse sido um erro. Bom, ele consolava-se, pelo menos tinha livrado o coitado da velha maluca.
A velha maluca era Atalia, mãe do rei Acazias e filha de Acabe e Jezabel. Com seus cabelos desgrenhados e olhos constantemente arregalados, ela era o terror e a diversão das crianças de Jerusalém. Quando saía à rua ou ao pátio do palácio, um bando de moleques — seus netos, inclusive — a acompanhava de longe, gritando ofensas e atirando pedras.
Então Acazias morreu e Atalia matou seus netos um por um, proclamando-se rainha de Judá.
Ela reinou por seis anos, malucando no palácio e ignorando a conspiração. Sua filha, Jeoseba, desconfiara ao ver a mãe se aproximando demais dos netos. Então pegou Joás e o levou para casa. Seu marido, o sacerdote Joiada, trancou o menino no templo enquanto pensava no que fazer com ele.
Joiada pensou, pensou, pensou.
Joiada ponderou, pesou prós e contras, consultou sua consciência.
Joiada falou com especialistas e pedagogos, e contratou uma consultoria de análise de risco.
E então Joiada finalmente decidiu: não podia se precipitar.
Então pensou mais um pouco, pesou os prós etc.
Depois de seis anos, resolveu que Joás era herdeiro legítimo do trono de Judá.
Bom, reconhecer que Joás merecia o trono era uma coisa; outra coisa era levá-lo até lá. Atalia era maluca mas não era besta. Sua fraqueza: ela trouxera para Judá a religião de seus pais. O culto a Baal era uma ofensa para os habitantes de Judá, muito menos adeptos da diversidade do que seus irmãos de Israel. Além disso, Atalia não era descendente de Davi. Para Joiada, dava samba.
No dia seguinte à sua decisão, Joiada convocou ao templo os generais do exército de Judá. Primeiro os fez jurar segredo do que veriam em seguida e lealdade a ele, ao Templo e a Javé. Os generais não eram bestas de bulir com Javé, então juraram, e Joiada mandou lhes apresentou Joás.
— Esse é Joás, descendente de Davi e legítimo herdeiro do trono de Judá.
O efeito foi melhor do que ele esperava. Os generais estavam cansados das maluquices de Atalia. Gastavam um tempo precioso todos os dias escrevendo relatórios sobre o andamento dos projetos de expansão da rainha. Na segunda-feira marchavam sobre o Mediterrâneo, na quinta atiravam flechas incandescentes sobre a Etiópia. Num dia informavam que tinham derrubado a lua, noutro reportavam um cerco ao sol. A rainha dava risinhos, dançava e batia palmas. Uma palhaçada. E agora vinha o sacerdote com o rei verdadeiro, da casa de Davi. Não precisava nem tê-los feito jurar: eles fariam qualquer coisa para que a vida voltasse ao normal.
Para aumentar o efeito, Joiada mandou trazer os escudos e lanças que haviam pertencido a Davi, e entregou as armas aos generais e seus soldados. As ordens eram claras: cercar o Templo, proteger o rei a qualquer custo e matar quem se aproximasse. Assim, de guarda, eles passaram a noite.
Na manhã seguinte, Joiada levou Joás para fora do Templo, colocou a coroa sobre sua cabeça e o proclamou rei. O movimento atraiu o povo. Ao atinar no sentido do que acontecia, os habitantes de Jerusalém começaram a cantar e gritar “viva o rei!” A rainha, de camisola mesmo como estava, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver a cena, seus olhos se esbugalharam mais ainda e sua boca começou a espumar, enquanto ela gritava:
— TRAIÇÃO! TRAIÇÃO! PUDIM! TESOURA DE PODA! FEDORA COM PENA VERDE!
Joiada ordenou aos soldados que levassem Atalia para fora e a matassem. Eles, é claro, obedeceram. O povo, em êxtase, derrubou o templo de Baal e matou seu sacerdote, Matã. Joiada postou guardas no Templo e, junto com os oficiais, levou Joás ao palácio. Joás sentou-se no trono e deu sua primeira ordem:
— Eu quero uma GIRAFA!
Joás tinha sete anos quando se tornou rei de Judá.