Mês: abril 2008
Inauguração oficial
Primeira matéria na casa nova.
Argumento de autoridade
Tá, tá. Não adianta tentar mudar conceitos martelados desde a infância. Então achei um site que calcula a melhor opção (financiamento ou compra à vista — sendo que a última opção é para imóveis prontos para morar) de acordo com diversas variáveis. O sistema dá a melhor alternativa e manda um relatório completo por e-mail.
Quanto às simulações do post que causou a celeuma, usei o simulador de financiamento do Banco Real e o de investimento do Itaú.
Divirtam-se.
Outra invenção
Ter um template novo no blog tem várias vantagens. A principal e mais notável é que eu ando escrevendo com uma freqüência que há tempos não se via. Parece até que estou com um blog novo. Outra vantagem é que me sinto compelido a experimentar novidades interessantes (no blog, seus podres), principalmente ali na barra lateral. A mais nova invenção é a seção “Profecias”, logo abaixo dos “Profetas”, que traz os dez posts mais recentes dos amigos da casa. Vejam, vejam!
(Aliás, semana especial de aniversário no Garotas que Dizem Ni: uma série de posts sob a égide “O pior blog do mundo“. Quando li, achei que fossem textos sobre o JMC, mas não é nada disso. Leiam. E parabéns às meninas, que mandam bem que só a pemba.)
Quem é o burro?

Um bom destino para seu dinheiro
Eu e Ana Cartola, assim como outros amigos que planejam alugar um imóvel, já estamos acostumados à situação: começamos a falar da casa, da localização, das vantagens de cada região da cidade, do transporte, dos móveis, dos eletrodomésticos. Até que o assunto aluguel é mencionado e alguém arregala os olhos para perguntar por que não compramos um apartamento em vez de alugar. Se falamos do valor do aluguel, então, aí é que vem o desespero:
— Mas é o mesmo valor da parcela do financiamento! É besteira alugar!
Não culpo essas pessoas. Por muito tempo eu também pensei assim. Sou filho de baianos, e o sonho do baiano quando chega a São Paulo é comprar um terreno para construir sua casa. Desconfio que o sonho mesmo é encher uma laje, mas isso já é outro assunto. O fato é que minha cultura familiar é impregnada dessa necessidade de possuir um imóvel. Com o tempo, porém, fui percebendo que algumas das pessoas mais inteligentes que eu conhecia optavam por pagar aluguel. Outras pessoas, inteligentes e precavidas, guardavam dinheiro por bastante tempo e então compravam um apartamento à vista. Eu, como não sou lá muito poupador, comecei a desconfiar do milagre do crédito fácil e do financiamento camarada. Ao que parece, porém, muita gente ainda se escandaliza à mera menção da palavra “aluguel”.
Dia desses causei essa reação em duas pessoas (amigas muito queridas, aliás) simultaneamente. Eu, já cansado de argumentar contra tamanha sabedoria, quis cortar:
— Tá, eu não discuto esse assunto.
Uma delas fez cara de “então tá, né…”. A outra ainda resmungou:
— Ah, tudo bem. Quer dar dinheiro para os outros, problema seu.
Bom, para começar, é problema meu mesmo. As mesmas pessoas que se escandalizam com a resposta “sim” à pergunta “estou gorda?” não hesitam em meter o bedelho quando se trata de algo muito mais importante, como a escolha da moradia alheia. Façamos de conta que não é uma indelicadeza; vamos fingir por um momento que eu pedi a opinião dessas pessoas: quem foi que disse que dar dinheiro ao banco é melhor do que pagar ao proprietário de um imóvel pelo usufruto de sua propriedade?
Ah, mas aí é uma discussão sem fim. “Você gasta, mas gasta com o que é seu”, dizem. “Pelo menos não é dinheiro que vai pelo ralo”, argumentam. Não adianta brandir o bom senso contra essa gente, nem a matemática. Mas aqui no blog eu posso, mesmo porque meus leitores são gentis e, se têm alguma opinião contrária àquilo que eu e Ana Cartola estamos prestes à fazer, tiveram a delicadeza de guardá-la para si mesmos. Vamos lá.
Quando decidimos nos casar e alugar um apartamento, definimos um limite de mil reais entre aluguel e condomínio. Como o condomínio é pago por qualquer morador, seja ele proprietário ou inquilino, podemos ignorar esse valor em nossas contas. Vamos trabalhar, então, com 650 reais de aluguel, que é o valor cobrado pelo proprietário de um apartamento muito simpático no centro da cidade, do qual voltarei a falar em tempo propício. Dados: apartamento no centro, a uma quadra do metrô, 125 metros quadrados, dois dormitórios, aluguel de 650 reais. Valor de venda de apartamentos semelhantes na mesma rua: entre 170 e 200 mil reais. Digamos que o apartamento valha 150 mil, vá.
Tenho aqui comigo um panfleto de divulgação de um novo empreendimento. “Obras aceleradas”. “Visite apartamento decorado”. Essas coisas. Dados: apartamento na Zona Leste, 65 m², a 22 quilômetros do centro e pelo menos três quilômetros da estação de metrô mais próxima. Calcular o valor é difícil, porque são muitos pagamentos diferentes com periodicidades distintas: três parcelas de R$ 1.609 (no ato, 30 e 60 dias), 26 mensais de R$ 460, começando em julho deste ano até a entrega das chaves, R$ 2.512 em agosto de 2009 (mais os 460 que o feliz proprietário ainda estará pagando), R$ 7.719 em agosto de 2010 (sem esquecer os 460, só mais um pouquinho) e financiamento dos R$ 87.932 restantes, direto com o banco, em 240 meses, começando em agosto de 2010. Fui simular a brincadeira no site do banco: fica uma parcela de 989 reais. Multiplique 240 por 989 e você terá 237.362 reais, ou 2,7 vezes o valor que o banco emprestou. Como é bonzinho, o banco.
Fui ao site de outro banco ver o que aconteceria se, em vez de fazer esse financiamento tão mais inteligente do que o aluguel para ter um lar para chamar de meu, eu resolvesse ir pagando aluguel e guardando algum dinheiro. Quanto eu teria que guardar por mês em um investimento que renda 1% a.m. (meu irmão me falou que existe) para ter 88 mil reais em vinte anos? O mesmo valor do aluguel, pensei. Surpresa: guardando R$ 107,17 por mês, em vinte anos eu terei esse valor corrigido pela expectativa de inflação no período, ou seja, uns 106 mil reais. Eita! Pouco mais de cem reais por mês! Tem gente que gasta isso com cigarro!
Agora suponhamos que, na hora que minhas amigas se espantaram, o crônon alternativo (leia aqui minha teoria dos crônons) correspondesse a um Marco Aurélio decidido a se submeter a essa coisa toda e financiar seu apartamento. Esse careca alternativo perguntaria:
— Mas e a entrada?
E elas:
— Vende o carro!
Então o Marcurélio alternativo venderia seu Corsa alternativo para arcar com as várias despesas prévias e, em agosto de 2010, estaria feliz da vida, a pé, mas de apartamento novo. Além de precisar comprar um carro (o apartamento fica na rua Crubixá, em Cangaíba, não tem como ser perto), ele e a Ana Cartola alternativa precisariam se preocupar em reformar, mobiliar e equipar o apartamento. No fim da tarde, fariam as contas na sacada exígua, sorrindo um para o outro seus sorrisos amarelos, alternativos e desesperados. Mas estariam firmes no propósito de, com tudo isso, ainda pagar quase mil reais até que se tornassem um feliz casal de cinqüentões donos de seu próprio imóvel. Maravilha!
Vamos agora comparar a vida desse casal feliz e vitorioso com o casal real, pobres e miseráveis inquilinos. Suponhamos que nós dois resolvêssemos investir essa diferença entre a parcela (989 reais) e o aluguel (650 reais) pelos próximos vinte anos (a começar em agosto de 2010, porque antes vamos comprar coisas para o apartamento, sem pressa): qual seria nossa situação em 2030?
Voltei lá ao simulador para verificar o que acontece com 339 reais aplicados mensalmente por vinte anos. Um problema: o sistema só deixa simular com uma aplicação inicial mínima de mil reais. Tudo bem, acho que conseguimos juntar mil reais até agosto de 2010. A partir daí, guardando aqueles 339 mensalmente, em vinte anos teríamos R$ 346.250. O suficiente para comprar dois apartamentos nesse prédio do Centro. Ou três na rua Crubixá.
Durante esse tempo todo, em vez de dar dinheiro ao banco, eu pagaria a seres humanos para morar em seus domínios. Nada mais justo.
Mas vou fazer o quê? Tem gente que prefere jogar dinheiro pelo ralo, comprando um apartamento e dando dois ao banco. Paciência.
Adesivos
De todos os santarrões hipócritas que empesteiam o mundo, os piores ainda são aqueles que ostentam no vidro do carro aquele adesivo “Em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”. Questão de lógica: se o cara acredita mesmo que Jesus Cristo vai abduzir seus seguidores de uma hora para outra, sem que seja possível determinar o momento com antecedência, então por que sai por aí dirigindo? Que cristão é esse, que mantém a vida dos outros em constante perigo? Não importa se os que vão ficar são os infiéis: o amor cristão é para todos, então ameaçar a vida dos incréus é um pecado muito sério.
Então chegamos a um paradoxo: se o sujeito for mesmo arrebatado, pode muito bem causar a morte de várias pessoas. Matar é um pecado e, como ele não teve tempo de se arrepender, vai para o inferno. Como é que fica a logística do Barbudão lá em cima? Será que tem que emitir nota fiscal de remessa para o capeta?
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Deus pode até não ser onipresente, mas o adesivo “Deus é fiel” é. E repare na distribuição socioeconômica: esse úbiquo adereço está sempre grudado ou em carros novos em folha (porque o proprietário acredita que o veículo foi uma dádiva dos céus) ou em latas velhas (porque o pobre dono acha que vai conseguir um carro novo se começar pelo adesivo). Pode procurar, você não vai encontrar essa frase em um Corsa 2003. Nós, que dirigimos carros “seminovos” (latas velhas que ainda pagam IPVA), somos a nata do ceticismo nacional.
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Dia desses, andando ali pelo Pacaembu, um carro emparelhou comigo. O motorista, coitado, estava entrando em desespero com aquelas ruas tortuosas que parecem terminar todas no mesmo lugar.
— Amigo, como é que eu chego na Angélica?
— Não é difícil, mas vai arrumar encrenca com o Luciano Huck.
— …
— Er… Vai direto aqui, vira à direita na Estrela de Davi, vai subindo que você sai lá.
— Obrigado.
— De nada. Desculpe a… Ah, porra.
Enquanto ele se afastava, vi no vidro traseiro o adesivo “Dirigido por mim, guiado por Jesus”. Bom, o guia não parece ser de muita ajuda em São Paulo, mas se um dia ele for para Jerusalém nem vai precisar pedir informações.
Velharias
Reparem ali na segunda barra da direita. Enfiei uma seção nova, chamada Velhas profecias (mudei: agora é uma barra com o dia e o mês). Nela vocês podem ver o que rolava no blog neste mesmo dia nos anos anteriores.
The Inside
Lembra da história do zumbi? Então: o autor, Isaac Marion, acaba de publicar seu primeiro romance, The Inside. Aliás, ele publicou mesmo: pagou pela impressão de 50 exemplares, e todos foram vendidos rapidamente (dois deles para mim, que eu não sou besta)
Agora o Isaac está com uma dúvida cruel: não sabe se manda fazer outros 50 exemplares ou não. Se você sabe (ou quer aprender) inglês, gostou da história do zumbi, e quer ajudar um americano quase falido, leia esse post do cara, um pouco sobre o romance, e mande um e-mail para ele pedindo seu exemplar. Aposto que ele vai ficar muito feliz
Ensaio
— Marco!
Ao ouvir meu nome, pensei…
Nah, mentira. Eu tenho o ego maior do que a barriga, mas começar o terceiro post quase seguido com alguém chamando meu nome já seria demais. Né nada disso. Estou aqui ensaiando para escrever sobre o show de Roberto Carlos, o Compasso Humano. Talvez hoje, talvez não.
Mas, vejam: amanhã de manhã eu e Ana Cartola vamos sair por aí procurando apartamento para alugar. Torçam por nós. Com esse negócio de caçar moradia, já começo a me sentir como aquelas solteironas que vivem a se queixar que os homens que não são casados são veados: os apartamentos que não estãoão alugados estão… Er… Na Vieira de Carvalho.
Dia de Caras
— Marco Aurélio!
Saindo do estacionamento próximo ao emprego novo (e longe dos lugares por onde costumo circular), fiquei surpreso ao ouvir meu nome. Era uma moça ruiva, bonita, quem me saudava de forma tão efusiva. Estava visivelmente apressada, e não reduziu o ritmo do passo. Apenas tirou o fone de uma das orelhas.
— Oi… — eu disse, buscando desesperadamente no banco de dados da memória capenga o nome da ruiva.
— Jesus, me chicoteia!, Emotionrélio… Sou fã — e fez um gesto de “a luta continua, companheiro”, ainda caminhando em passo acelerado.
— Puxa… Obrigado… Er…
Ela já ia longe, mas ainda se virou para trás para um último comentário:
— Sou esposa do… — e aí não entendi mais nada.
Digo-lhes uma coisa: pensem o que quiserem de minha vaidade, mas começar o dia sendo reconhecido na rua é bom como o diabo.
