Reparem no número de cestos de lixo na praça da matriz.
Mês: junho 2007
O que sobrou
Após 51 dias, os vagabundos desocuparam a reitoria da USP. Tocaram o puteiro lá dentro, como era de se esperar. Vandalismo injustificável; quem vier falar em furor revolucionário leva no cu um cabo de enxada.
Semanas antes, estudantes protestavam na Paulista. A lei exige que pelo menos uma pista da avenida, localizada numa área cheia de hospitais, permaneça livre para a circulação de ambulâncias. Tentando cumprir a lei, policiais pediam educadamente que os vagabundos liberassem uma faixa. Em reação, os estudantes começaram a gritar “Polícia não / abaixo a repressão”. Quando um policial fez menção de prender um safado que o havia agredido, o covarde correu para trás de seus colegas. Repressão nenhuma, e os filhos da puta agindo como se estivessem tomando borrachadas e sendo pisoteados por cavalos. Mereciam? Ah, se mereciam!
Leio em um site que representantes do PT teriam ido à Síria para babar os ovos do ditador do partido Baath. O Baath era o partido de Saddam Hussein. É um partido fascista, adepto à limpeza étnica, deixaria papai Hitler orgulhoso. Releio a nota, procuro algum louvor a Olavo de Carvalho no resto do blog, ou pelo menos um “wunderblogs.com” no endereço. Mas não: trata-se de nosso velho Leite de Pato citando Claudio Humberto. Eita.
O que me leva a What’s Left, do jornalista britânico Nick Cohen, que terminei de ler recentemente. O título é um engenhoso jogo de palavras: pode ser traduzido tanto como “O que é esquerda” quanto como “O que sobrou”. Um tradutor mais espertinho sapecaria um “O que sobrou da esquerda”, sem perder a exatidão do título. A resposta: não muito. Alguma coisa aconteceu com a esquerda depois da queda do Muro de Berlim. Ficamos perdidos, parece. Apoiamos tudo o que for anti-americano, o que gera distorções. Esquerdistas do mundo todo apoiaram Slobodan Milosevic e Saddam Hussein só porque eles odiavam os americanos, deixando de lado o mais importante: eram ditadores fascistas, o pior fruto possível da direita.
A esquerda está perdida. Atira para todos os lados e não acerta nada. Confusos no meio do fogo cruzado, estudantes com meio cérebro tentam reviver as lutas do passado, mas sem nada que os sufoque. Querem protestar, protestam. Querem fazer greve, fazem. Não apanham, não são presos, não são torturados, exilados, “desaparecidos”.
Aposto que alguns deles acham isso frustrante.
Capiaus
No último fim de semana, eu e Ana Cartola fomos à Caipirolândia. Muito legal, a cidade. Guias rebaixadas para cadeiras de rodas em todos os cantos e rampas em todos os estabelecimentos comerciais, cinco cestos de lixo por habitante, comida boa que só o cão. E um festival de música caipira muito bom, precedido de quadrilha.
O mais engraçado mesmo foi ver o pessoal saindo à rua pronto para a festa. O que será que um habitante de São Luís do Paraitinga, centro máximo da cultura capiau, pensa numa hora dessas? “Eita, hoje vou sair por aí feito caipira”. Digo, que outra opção ele tem?
Coisa linda
Minha editora preferida apareceu na contracapa do caderno Link numa foto grandona, linda demais, exibindo suas crias (entre elas, o Balde de Gelo). Leiam aqui.
Guerra contra os moabitas
(II Reis 3)
— Mandem buscar um músico.
— Um músico, Eliseu? Er… Que tipo de músico?
— Músico, músico! Tocador de flauta, harpa, berimbau, pandeiro, violoncelo, qualquer diabo.
— …
— Que foi? Vocês querem que eu resolva essa parada ou não?
— Claro que queremos, Eliseu!
— Pois então. Penso melhor com música.
Os três reis se entreolharam sem entender nada, deram de ombros e ordenaram a seus oficiais que saíssem em busca de um músico, rápido. Os reis Jorão, de Israel, Josafá, de Judá, e Mané Chupeta, de Edom, junto com seus respectivos exércitos, já zanzavam havia sete dias pelo deserto rumo a Moabe. Era o melhor caminho para um ataque surpresa, já que o rei moabita não esperava um ataque pela fronteira edomita, ao sul. Os três reis haviam partido confiantes para a batalha: iam ensinar uma lição àquele pilantra que, ao receber a notícia da morte de Acabe, decidira não cumprir mais suas obrigações. Agora estavam no meio do deserto, sem água, acompanhados de soldados cada vez mais inquietos. A idéia de procurar um profeta viera do piedoso Josafá. Eliseu relutara em vir, e por fim concordou. “Mas só porque foi Josafá que chamou”, fez questão de ressaltar. Se, depois de tudo isso, a solução exigia que um sujeito cantasse para o profeta, que assim fosse.
Horas depois, apareceu o músico.
— Toca aí, rapaz.
— O que os senhores querem ouvir?
— Sei lá. Improvise aí qualquer coisa. Que diabo de instrumento é esse?
— Um cambão de foles, majestade.
— Ah… Bom, vai tocando aí.
— O senhor manda.
Depois de afinar seu estranho instrumento, o músico ensaiou alguns acordes e começou a tocar e cantar:
Quando Javé te desenhou
ele tava namoraaaaaaaaaaaando
Quando Javé te desenhou
ele tava namoranduuuuuuuuu
na beira do maaaaaaaaaaaaar
na beira do mar mortô
na beira do maaaaaaaaaaaaar
na beira do m…
— OK! CHEGA!
— Não gostou, seu profeta?
— Que porra de música é essa?
— É de minha autoria, e exijo respeito. Essa canção ainda vai fazer muito sucesso.
— Sucesso onde, rapaz? Só gente muito estúpida agüentaria ouvir isso. Chega, basta! A inspiração já veio. Javé ordena que vocês cavem muitas covas em todo o leito seco desse riacho. O bicho vai se encher de água rapidinho.
— Tá. Conta outra.
— Conto, seu bastardo sem fé: assim como é fácil para Javé fazer surgir água do nada, também é fácil para ele dar a vocês a vitória sobre Moabe. Vocês vão arrasar as terras deles, destruir suas cidades, cortar todas as árvores frutíferas, aterrar todas as fontes de água e cobrir de pedras todas as plantações.
— Pô, nem precisa tanto. O cara só deixou de pagar uns impostos. Basta ganhar a guerra e pronto.
— Isso é que você diz, Jorão. Javé ordena que Moabe seja arrasado, e é isso que vocês vão fazer.
— Petulante…
— OLHA QUE EU CHAMO AS URSAS!
— Tá, tá!
Os reis ordenaram que os soldados cavassem covas no leito do rio seco, conforme as ordens de Eliseu. No dia seguinte, logo de madrugada, uma massa de água veio da direção de Edom, cobrindo o chão. Era uma cena linda de se ver, ainda mais com o reflexo vermelho do sol irradiado pela água cristalina.
— Percebeu o truque?
— Que truque?
— Sempre que esse cara não sente firmeza num capítulo, trata logo de inverter a seqüência narrativa.
— Como é?
— Olha lá, começou com Eliseu pedindo o músico, só depois foi contando o que aconteceu antes.
— Uia! É mesmo! Que truque manjado, rapaz…
— Pois é.
— E agora?
— Agora ele deve ir quase lá pro fim da história e vir voltando até a narrativa encontrar o ponto onde parou.
— Será?
— Vai vendo.
Encurralado em Quir-Heres, capital do reino, o rei Mesa bate a cabeça na parede e se amaldiçoa por sua temeridade. Tudo o que precisava fazer era mandar cem mil cordeiros e cem mil carneiros anualmente ao rei de Israel. Considerou a morte de Acabe uma boa oportunidade para revoltar-se deixar de enviar o pesado tributo. A reação israelita veio célere: aliado a Judá e Edom, o rei Jorão, filho de Acabe, decidiu atacar pelo sul. Quando Mesa soube, os exércitos das três nações inimigas já estavam bem próximas à fronteira. Mandou convocar às pressas todos os homens do reino e começou a se preparar para a batalha.
Mesmo em menor número, Moabe teria chances de vencer. Um erro de cálculo, porém, desencadeou o massacre: ao verem aquela mancha vermelha no meio do deserto, perto do acampamento inimigo, deduziram que se tratava de sangue, e que os três exércitos haviam se desentendido e massacrado uns aos outros. Aproveitando essa suposta divisão do outro lado, os soldados moabitas partiram para o ataque em campo aberto. Só quando já estavam muito perto, e já era tarde demais, notaram que a mancha vermelha era o reflexo do sol nas águas de um rio que só deveria estar cheio na época da chuva, muitos meses depois.
— Viu? Viu?
— Shhhhhhhhhh…
O engano fora fatal. Os israelitas perseguiram o exército de Moabe, matando quase todos os soldados. Agora o território moabita estava devastado pela ferocidade inimiga: fontes soterradas, plantações cobertas de pedras, árvores derrubadas, animais de médio porte estuprados.
Desesperado, ouvindo os gritos de guerra dos israelitas e seus aliados do outro lado dos muros da cidade, Mesa olhava em volta e procurava uma maneira de escapar daquela situação. Tentou enviar setecentos homens que haviam sobrevivido ao ataque para romper as linhas inimigas, de modo que pudesse fugir para a Síria. Não deu certo. Só lhe restava mesmo o auxílio sobrenatural.
— Filho, venha cá.
Após proferir uma breve prece, Mesa imolou seu filho e herdeiro do trono nas muralhas da cidade, como um sacrifício a Quemos, seu deus. Aterrorizados com a cena, os israelitas fugiram.
— Acabou?
— Que nada! Agora ele vai dar uma de sabidão. Olha só.
Ao ler a Bíblia, temos a impressão de que os israelitas consideravam Javé como único Deus do universo, e os deuses de outras nações como meros ídolos. Esse final da guerra contra Moabe parece sugerir algo diferente: assim como acontecia em todas as regiões, os israelitas também parecem acreditar numa espécie de democracia sobrenatural, com cada deus exercendo influência sobre um determinado território. No Asimov’s Guide to the Bible, Isaac Asimov diz que esse modelo de crença, chamado henoteísmo, era mesmo muito comum na época. Dessa forma, a retirada repentina do exército de Israel não teria sido motivada pelo terror diante da barbárie do rei moabita, mas sim de um medo autêntico da ira do deus Quemos, já que estavam em seu território.
Ombudsman anti-fax
Conversei há pouco com o jornalista Mário Vitor Santos, que começa hoje suas atividades como ombudsman do IG. Conversa vai, conversa vem, contei a ele a história do fax. Ele riu. “Parece um anacronismo inexplicável, sem sentido”, comentou em seguida. Segundo ele, uma de suas funções no cargo é fazer revisão de certos processos. Ele concorda que é ridículo uma empresa de internet solicitar de seus clientes informações por fax, e diz que vai cuidar disso.
Vamos ver. Daqui a um ou dois meses eu invento um pretexto para fazer uma reclamação na tal central de relacionamento do IG. Se me pedirem fax, o ombudsman vai se ver comigo. Por enquanto, meus votos de boa sorte. Como vocês podem perceber nessa nota, o sujeito é bem intencionado.
Ah, o endereço: ombudsman.blig.ig.com.br
Amor e ódio
No escritório:
— Não, não tenho tempo. Manda o motoboy buscar.
— Hein? Não, eu preciso disso aqui em vinte minutos. Não quero saber. Manda pelo motoboy.
— Dona Armínia, vamos almoçar durante a reunião. Peça aquela pizza de sempre.
— Cadê o cara da moto? Ô, rapaz! O banco já está fechando. Corre lá que essas contas são urgentes.
— Puta que pariu, o moleque esqueceu os óculos justo no dia da prova? Tá, mando um motoboy aí, ele leva os óculos até o colégio. Que saco…
No trânsito:
— ESSES FILHOS DA PUTA DESSES MOTOBOYS SÃO UMA PRAGA! QUEM É QUE DÁ EMPREGO PRA ESSA GENTE?
Nós, paulistanos, somos uns hipócritas de merda.
Acessório importante
Nos dias frios ela se encolhe toda, coloca um gorro que a faz parecer uma menina russa, e põe os dedos em concha sobre o nariz.
— Precisava uma touca de nariz — ela comenta, e essa imagem me vem à mente nos mais diversos momentos: a mulher que eu amo, toda friorenta e pensando num acessório absurdo para proteger o nariz do frio.
Este ano combinamos não trocar presentes. No ano que vem, arranjo a tal touca de nariz.
Barbearia virtual
Prepare os fones de ouvido e experimente isso. É a coisa mais foda que eu já vi em toda a minha vida hoje.
Dolorosa verdade
Vejam que e-mail triste acabo de receber:
Olá Marco Aurélio,
“A campanha do Gol não é uma campanha. É só uma cópia descarada do Chuck Norris Facts (www.chucknorrisfacts.com)”
Não foi dessa vez que a sua verdade entrou no site do Gol.
Mas não desista. Se você for uma pessoa guerreira de verdade, como o Gol, ainda vai conseguir emplacar uma outra verdade no site.
Clique aqui para visitar o site.
Por que será, né?

