Todo ser humano tem uma missão nesta vida, uma busca que é sua obsessão e sua motivação para continuar. Levado pelos caminhos de minha própria busca, fui a um terreiro de Candomblé no último sábado para ver a festa de Ogum. Não, não fui em busca de conforto espiritual nem de respostas para minhas dúvidas. Minha busca, minha missão, podia ser resumida numa só palavra, proferida com volúpia por meu cunhado: feijoada. Haveria lá uma cerimônia qualquer para o orixá, e depois feijoada à vontade pra todo mundo.
Indo, portanto, contra todos os meus preconceitos de educação protestante, fui até o alto de uma favela no Embu para ver que diabo era o tal Candomblé. Comigo iam Ana Cartola (claro), sua irmã, seu convincente irmão e sua (dele) esposa. Depois de ver as casas simples no caminho (ruas escuras, cada qual com seu respectivo cu na mão) foi um susto ver todos aqueles carros, alguns deles caros, estacionados. Passamos por um portão, descemos uma ladeira e lá embaixo, transpondo a porta que ficava entre esculturas que representavam um búfalo e um veado, entramos no templo.
Decepção total: com suas luminárias bonitinhas, janelas com vitrais e platéia vestida normalmente, o terreiro parecia uma igreja. A diferença era dada principalmente pela disposição das coisas: em vez de filas de bancos de frente para o altar, um retângulo vazio no meio, enquanto nós, curiosos e não iniciados, nos acomodávamos como podíamos ao redor. Lá na frente, grandes cadeiras trabalhadas pareciam prontas a receber a elite do culto. No canto esquerdo, os instrumentos, mesmo lugar reservado aos músicos na igreja que freqüentei até os 20 anos de idade. Em vez de guitarra, baixo, bateria e um órgão velho, porém, dois atabaques, uma cabaça, um agogô, três biliques, um cambão-de-foles e sete traquebuquis (tá, esses três últimos eu inventei) ocupavam o espaço.
A cerimônia logo começou. Outra decepção: em vez de negros retintos com roupas brancas de algodão cru rodopiando em extático frenesi e sangrando animais, o que vi foram pessoas de todas as raças (inclusive uma mãe-de-santo japonesa, empolgadíssima) numa coreografia organizada e, depois de um certo ponto, previsível. Ao que parece, é uma dancinha diferente para cada orixá, cada uma acompanhada por seu canto correspondente, puxado pelo babalorixá, um sujeito que ficava lá na frente, de pijama, apenas acompanhando o ritmo com o corpo. Os participantes saudavam o babalorixá com reverências complexas, depois faziam o mesmo virados para a porta de entrada.
Chamou-me a atenção a grande quantidade de bichas entre os participantes do ritual. Não é para menos: enquanto a maioria das religiões disponíveis por aqui condena e rechaça os homossexuais, o Candomblé não só os aceita como estimula a veadagem. É uma religião de muito luxo, roupas coloridas, dança, música, reverências, com os celebrantes sendo ao mesmo tempo centro das atenções. Não há veado que resista.
O duro ofício de flanelinha
Depois de um tempo, porém, o bicho começou a pegar. O babalorixá anunciou que uma das celebrantes receberia um cargo naquela noite. Depois de fazer um comentário infeliz sobre gente de cabeça pequena e gente de cabeça grande (o que me fez virar alvo de chacota), recomeçou a batucada.
Uma das moças que dançava deu um grito, fez um beiço do tamanho de um filé do Outback e começou a andar de forma estranha. Logo outros começaram a incorporar seus orixás. Cada um se comportava de uma forma: uma bichinha que parecia o Marquinhos Moura incorporou a ararinha azul (o que é bom, com a espécie ameaçada e tal), um negão recebeu o Mussum, outro pegou um jogador de basquete. Comum a todos eles, o beiço. Orixá deve ser um bicho muito beiçudo: quando baixa, trata logo de fazer bico.
Bom, com uma galera considerável servindo de busão de orixá, um sujeito separou os incorporados. “É o flanelinha de orixá”, explicou meu cunhado. E era mesmo. O cara pegava cada um dos incorporados, fazia com ele a dança de seu santo e depois estacionava o sujeito.
Outra constatação: o candomblé é a religião mais contraproducente que existe, é um verdadeiro desperdício de energia. Primeiro todo mundo canta, dança e bate tambor pros orixás descerem. Quando, aporrinhados por tanto barulho, os santos resolvem atender ao chamado, os felasdaputa começam a cantar, dançar e bater tambor de novo para mandá-los de volta. Eu, se fosse orixá, mandava esse povo tomar no cu e nunca mais baixava em terreiro nenhum.
Intermezzo
Estacionados os orixás, o pessoal começou a sair. Oba, feijoada. Já era tempo. Lá fora, a não ser pelos muitos cigarros acesos com sofreguidão, o ambiente lembrava uma saída de igreja: grupinhos conversando, crianças correndo, misteriosos nigerianos falando ao celular. Tá, na minha igreja não tinha os nigerianos também, mas o resto era igualzinho. Aquele clima de “ok, tivemos uma experiência sobrenatural, testemunhamos a ação de forças que não compreendemos, agora vamos falar da novela”.
Eu e Ana Cartola só pensávamos na feijoada quando veio o balde de água fria: era só um intervalo, ainda teríamos mais batuque pela frente. De fato, após um tempo, o pessoal começou a voltar para dentro e se acomodar. Minutos depois, ouvimos o som do cambão-de-foles. Uma senhora muito simpática saiu lá de dentro sobraçando vários pacotinhos feitos de folhas. Dentro deles, pedaços de inhame cozido. Parte do ritual exigia que os participantes comessem um pedaço do inhame e devolvesse a metade para um balaio. Não era a feijoada ainda, mas era comida, então aceitamos.
Continuamos do lado de fora, e sem querer presenciamos um dos pontos altos da festa: um negão saiu lá de dentro, todo vestido de branco, levando o balaio cheio de restos de inhame e empunhando um facão. Atrás dele não um, mas dois flanelinhas de orixá. “É a noiva do Exu!”, constatou minha doce namorada. Não era. Tratava-se de Ogum, o dono da festa, carregando sua oferenda para dentro do mato.
O dono da festa
Voltamos para dentro, e depois de um tempo o rapaz com Ogum incorporado retornou. Vinha agora todo paramentado de azul, ainda com o facão na mão. Esse deu trabalho para os flanelinhas: dançou, pulou num pé só, rodopiou. De vez em quando triscava o facão no chão, arrancando de alguns celebrantes a saudação do orixá, “Oguniê!”. Um rapaz que estava bem de frente para mim parecia particularmente assustado com o facão. Sempre que Ogum chegava perto, ele levantava as duas mãos e sussurava a saudação. Vi em seus olhos a semente do ceticismo.
Num determinado momento, chegou a hora da sacolinha. As pessoas pegavam cédulas dobradas, davam uma volta ao redor da própria cabeça, outra ao redor da cabeça de Ogum (sempre de olho no facão), e a depositavam lá na frente.
Durou muito tempo a dança de Ogum. Uma eternidade, na verdade. Pessoas da platéia receberam lá seus orixás, e os atabaques não paravam nunca mais. Quando eu já pensava num pretexto qualquer para ir lá fora, a festa acabou. Que viesse a feijoada.
Enfim, a feijoada
Do lado de fora do templo, numa área com mesas e cadeiras de ferro, o pessoal começava a se reunir. Sentamo-nos, os infiéis, numa mesa um tanto afastada e ficamos observando o movimento. Pessoas chegavam perto do babalorixá e se deitavam de bruços para saudá-lo. Alguns fumavam. Colocaram um samba para tocar, e lá vieram os panelões fumegantes. Atrás do balcão, as mães-de-santo. Entre elas a japonesa, que dançava e cantava acompanhando Zeca Pagodinho.
O babalorixá se aproximou para nos cumprimentar. Foi simpático:
— Gente, mas o que vocês vieram fazer na macumba? Não sabem que isso é baixo espiritismo?!
E depois, mais sério:
— A nossa religião é muito mal compreendida. É muito preconceito, muitas idéias errôneas.
Concordamos. Eu, de minha parte, concordaria com tudo, desde que tivesse logo acesso ao meu prato de feijoada.
Enquanto os outros enfrentavam uma fila para pegar seus pratos, nós fomos agraciados com serviço diferenciado. Uma senhora muito prestativa nos ofereceu cerveja, refrigerante, e depois mandou servir nossa feijoada. Meu povo, eu digo sinceramente: valeu cada segundo de batuque.
Depois de alimentados, fomos conhecer o museu da casa. Muito bonito e bem organizado, o museu tem representações de todos os orixás, suas cantigas em iorubá e português e as características dos filhos de cada um deles. Após a visita (conduzida por um guia acometido de um tique nervoso quase imperceptível), fiquei me perguntando por que ali não havia qualquer informação sobre Xogum. Antes que eu proferisse a pergunta em voz alta e fosse para sempre condenado ao ostracismo pela família da namorada, meu próprio id bronqueou: não tinha xogum porque os xoguns não eram orixás e eram todos japoneses.
O sacerdote
De volta à mesa, fomos agraciados pela companhia do babalorixá. Novamente ele falou sobre a pouca compreensão a respeito da religião e nos explicou: o Candomblé não é uma religião africana, mas sim egípcia, trazida pelos atlantes (!!!). Condenou o sincretismo religioso (“É uma praga”), o cristianismo (“Um homem morrer e ressuscitar é um absurdo. Basta raciocinar, gente!” — como se não fossem absurdas as incorporações de santos, isso sem falar no continente submerso de Atlântida), o islamismo, a Umbanda (“É uma mistura danada, um horror, uma deturpação”). Explicou que lia de tudo (“Só não leio Machado de Assis nem aquele outro, Salamargo” — com um “e quem lê?” nas entrelinhas). Contou que chegara a cursar o seminário (“Larguei depois do Concílio Vaticano II, aquilo foi uma distorção” — com o tom de quem critica as novas regras do vôlei). Falou que a religião foi distorcida porque foi entregue nas mãos de mulheres, mães-de-santo que não sabem nada. Foi a surpresa maior da noite: o babalorixá não passava de mais um sacerdote fundamentalista e misógino.
Epílogo
Foi engraçado, em alguns momentos estranho, em outros muito bonito. Mas da próxima vez chega de macumba pra turista, quero ver os negões bebendo sangue de galinha. Porque no fim das contas eu estranhei mais as semelhanças do que as diferenças.
Mês: maio 2007
Dinheirim
A Fabi vai me dar um real para cada visita originada deste blog no Fabi em Contos. Vão lá!
Erasmo
Acabo de ver Erasmo Carlos na TV. “Como está velho!”, dizem as pessoas. Não é que ele esteja velho. Gasto parece ser o termo mais exato, e não falo isso com intenção pejorativa. Vendo suas olheiras, seus ralos cabelos de algodão, suas rugas, a impressão que tenho é que Erasmo viveu demais. Todo mundo fala em viver intensamente, mas ninguém quer ficar com aquela cara. O arauto das palavras simples e certeiras é um ancião precoce.
Olhem para Roberto Carlos. O Rei está velho, sim. Mas é uma velhice serena, apolínea. Roberto é triste, mas tranqüilo. Erasmo parece possuído pela tristeza, parece um escravo da tristeza. Roberto pode cantar louvores a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, ou celebrar a eternidade do amor. Só Erasmo pode dizer “Minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente”. É como se ambos fossem uma só pessoa. Cabe à metade que é Erasmo Carlos carregar o fardo, sofrer, ter insônia, para purgar a gigantesca fama de seu Outro. Erasmo é a tristeza dos olhos do Rei.
Roberto Carlos é Dorian Gray; Erasmo é o retrato que envelhece na solidão.
1º de Maio
A TV mostra o Dia do Trabalho no mundo todo. Em Istambul, na Cisjordânia, em Havana e Moscou, pessoas marchando nas ruas defendem esse ou aquele conjunto de idéias e direitos.
Enquanto isso, em São Paulo, as centrais sindicais brigam por audiência em seus shows de música popular. É maravilhoso viver num país sem problemas e ser parte de um povo de índole pacífica como o nosso. VAI, BRASIL!
