Receita de Tio Elias para sua longevidade:
— Nunca achei cachaça boa nem nêga feia.
Mês: abril 2007
Estância
— Depois vamos à casa de Elias. Ele é safadinho, viu?
Quem fala é Marta, prima de minha mãe. Elias é meu tio-avô, irmão de minha avó materna. Ela, nascida em 1917, morreu em 1995. Ele, de 1911, mora sozinho e se mantém lúcido e rijo. Mora numa casa simples, prepara suas refeições, e conta com apoio dos filhos e netos, que sempre vão verificar se o velho precisa de alguma coisa. É um ancião que vive o presente, o que tira boa parte da graça de se conversar com alguém dessa idade. O assunto constante são seus 96 anos de vida e o fato de se virar tão bem sozinho.
— Quem tem filhos e netos tem amigos. No resto, não confio.
Ele conta que já teve dinheiro furtado diversas vezes, daí a desconfiança.
A visita é breve. Mais tarde, já na casa das outras tias, comentamos a visita vespertina. Uma prima conta que ele é inocente, mostra a quem quiser seus esconderijos de dinheiro. Minha mãe pergunta quem anda roubando o dinheiro do velhinho.
— As meninas!
— Netas dele?
— Que nada! Elias é safado — é a segunda vez que aplicam o adjetivo a meu venerável tio-avô. — Paga dez reais pras meninas sentarem no colo dele!
As tias são Antônia e Valdete. Antônia tem 84 anos e nunca se casou. Vaidosa, tinge os cabelos desde os tempos em que trabalhava na indústria têxtil, pinta as unhas de vermelho e usa óculos escuros. Valdete, mais nova e discreta, é casada com Virgílio. Os dois têm um filho e sete filhas. Virgílio teve trombose há algum tempo, quase morreu. Ficou paralítico por um tempo, agora anda com dificuldade do sofá para a cama, e não mais do que isso. Tem um sorriso bonito e olhar inteligente. Tia Valdete conta:
— Está aí sem nem poder andar direito, mas muito lúcido. Está melhor de memória do que eu.
— Melhor isso do que ter um homem doido e correndo pela casa, né?
Ela ri de minha observação. Depois fala dos filhos. Fala de Sócrates, conhecido na família como Kid, único filho homem. Sócrates era também o nome do pai de Virgílio. O Sócrates atual tem três filhos: Sócrates, Virgílio e Mateus. Uma de suas irmãs chama-se Virgília. Muitas outras se chamam Maria. Por um momento, sinto-me como um Buendía de volta a Macondo.
Virgílio foi professor durante muitos anos, e diretor de diversos colégios da região. É apaixonado por História. Ele pergunta meu nome. Fica encantado ao constatar que é nome de imperador romano. Mais tarde, me apresenta um primo de 19 anos de idade.
— Marco Aurélio, esse é Augusto César. Seu colega!
Fico sabendo que um neto de uma das primas da minha mãe teve problemas na escola. Batia nos colegas. A professora o colocou para sentar na cadeira dos bobos, porque só meninos bobos batem nos outros. O moleque, parece, tomou jeito. Outro primo, esse de 17 anos, lembra que em seus tempos de pré-escola a professora o colocava para sentar de frente para uma imagem de Cristo sempre que ele aprontava alguma. Ele conta que se revoltava, chorava e gritava:
— Eu ódeio Jésuis!
Na casa de outra prima, tomamos sorvete sentados a uma mesa no quintal. Tia Antônia está pensativa. Depois de um tempo, diz:
— Parece um sonho… Não é verdade, Ana Maria? — Ana Maria é minha mãe — Nós todos reunidos aqui depois de tanto tempo, não parece um sonho?
— Parece sim, titia, eu estava mesmo pensando nisso.
— Parece um sonho, mas não é. É uma bênção de Deus, através desse careca aí.
Este careca aqui agradece, e nem se importa de ser chamado de instrumento divino.
Marta nos leva para um passeio pela cidade. Conhecemos o bairro em que minha avó morou. Ao que parece, ela e meu avô não sossegavam, e moravam em várias casas.
— Donata era meio rústica — diz tia Antônia.
Visitamos as fábricas de tecidos da cidade. Minha avó trabalhou em duas delas. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a costurar fardas para a FEB. Hoje, diante da concorrência chinesa, a indústria têxtil de Estância busca alternativas. Uma das fábricas investe em cosméticos. Ainda não deu certo.
Estância é uma cidade cheia de igrejas. A catedral é dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe. As casas mais antigas têm fachadas lindas, todas cobertas de azulejos portugueses. As mais novas são pintadas de cores que Marta define como “exuberantes”.
Visitamos o cemitério. Vejo os túmulos dos meus bisavós, pais da avó Donata, e de Sócrates, pai de Virgílio. A família de minha avó tem suas origens em Lagarto, cidade que fica no meio do caminho entre Aracaju e Estância, só que mais para dentro. De volta a São Paulo, descubro que o jornalista Joel Silveira nasceu em Lagarto; parece que Silvio Romero também. Serão parentes meus?
Volto de Estância sabendo mais sobre minhas origens. Digo a Virgílio que pretendo voltar em breve.
— Quando voltar, já vai me encontrar caminhando — ele garante.
Decido reincluir o Gois na minha assinatura, e foda-se se o nome fica muito grande.
Olá
Passei o feriado em Estância, sul de Sergipe. Depois eu volto para falar de origens e laços familiares. Por enquanto, trabalho.
Passatempo
Tomé
Tomé é um dos personagens mais fascinantes da Bíblia. Discípulo de Jesus Cristo, acompanhou o mestre desde o início de seu ministério, mas nunca deixou de lado seu espírito crítico, sua leve desconfiança. Lendo as poucas falas do apóstolo nos evangelhos, parece que estamos diante de um mineiro.
Quando Jesus foi ressuscitar Lázaro, por exemplo. Recém saído da Judéia, onde fora ameaçado de apedrejamento, o Filho do Ôme decidiu voltar ao saber da morte de seu bom amigo. Os discípulos tentavam dissuadí-lo, mas o mestre estava irredutível. Então Tomé comentou com os outros, a meia voz:
— Vamos lá então. Pelo menos morremos todos juntos.
O sujeito tinha testemunhado as maiores maravilhas operadas por Jesus, mas mesmo assim tinha certeza de que seria morto assim que botasse o pé na Judéia. Ele, seus onze colegas e o temerário mestre. Aconteceu, no fim das contas, que entre mortos e feridos salvaram-se todos e, como um bônus, Jesus ainda ressuscitou Lázaro.
Ver um morto levantar-se de sua sepultura após quatro dias era o milagre definitivo, a cura para o maior ceticismo do mundo. Bem, não para Tomé. Pouco tempo depois, Jesus falava sobre a sua partida iminente:
— Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho.
Essa exortação podia ser suficiente para os outros discípulos. Não para Tomé.
— Peraí, peraí. Cê vai pra onde agora? Se a gente não sabe, como é que vai saber o caminho?
A reação de Jesus Cristo à dúvida era oposta à de muitos de seus seguidores de hoje em dia. Em vez de desprezar o cético, ou acusá-lo disso e daquilo, ele contemporizava. Diante da questão de Tomé, ele formulou uma de suas grandes frases:
— Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.
Tomé continuou a conviver com Jesus até o fim, e ainda testemunhou muitos milagres. Mesmo assim, quando se deparou com Cristo ressuscitado, não se satisfez com as aparências nem com o que seus colegas lhe diziam. Em vez disso, exigiu provas concretas: queria tocar as feridas nas mãos do mestre para comprovar que aquele era o mesmo que fora crucificado. Em vez de execrá-lo como herege, Jesus o convidou a aproximar-se e tocar as feridas o quanto quisesse. Só depois disso o discípulo cabeça-dura se deu por vencido. Caindo de joelhos, exclamou:
— Senhor meu e Deus meu!
E Jesus, ligeiro como sempre, mandou um de seus petardos:
— Por que me viste, creste? Bem aventurados os que não viram e creram!
Agora vejam minha situação: eu nunca vi milagre nenhum, nunca vi Jesus de perto, nunca andei com ele para cima e para baixo. Tomé, que teve essa oportunidade toda, tinha o direito à dúvida. E eu não? É justo?
Orkut
Se tudo der certo, hoje eu entrevisto o Orkut Buyukkokten. Torçam aí.
Angústia
Eu queria ter em mim o poder de escolher a combinação exatas de palavras que, feito mandinga, tirariam de minha amiga a tristeza e a dor. Não tenho. Pediria a Deus, se tivesse qualquer resquício de fé. Não tenho. Então fico aqui sofrendo um sofrimento besta, até que esse tempo passe. No fim das contas, é mesmo uma gincana: você faz essa tarefa, depois aquela, depois aquela outra. Uma dá certo, outra dá errado, a gente nunca sabe. Algumas são pesadelos recorrentes, outras trazem alívio súbito. A certeza de que tudo vai acabar bem é a única possível.
(não é para vocês entenderem)
FeedBurner
Lembram daquele negócio de notificação por e-mail e RSS? Então. Centralizei tudo no FeedBurner. O novo RSS é http://feeds.feedburner.com/jesusmechicoteia, e para receber a notificação por e-mail vocês precisam se cadastrar ali na coluna da esquerda, lá embaixo. Só a notificação dos capítulos bíblicos continua do mesmo jeito.
Tchau.
