De todas as pessoas importantes para a história deste blog, há duas que se destacam: Daniela Macedo, que escreveu comigo o Balde de Gelo, e deus, do finado falecomdeus. Pois então: o casal está a fim de uma festa. Estavam lá conversando, e lembraram que o JMC completa cinco anos de existência no dia 7 de fevereiro. Então me propuseram fazer uma festa para celebrar a data, como fiz nos dois primeiros aniversários do blog.
Bem, quem sou eu para contrariar o casal? Agora é com vocês: se eu fizer uma festa (começo final de fevereiro, São Paulo) alguém vai? (e não, eu não estou aqui para pagar transporte nem hospedagem pra vagabundo nenhum)
E eis o vídeo mais lindo de todos os tempos:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=qw6VTDL0tCM&w=425&h=350]

Notem como João fica incompleto sem o violão.

Sabe quando você vai contar um diálogo que teve? Uma conversa qualquer? Então, estava reparando: na hora de contar a história, o interlocutor sempre tem voz de retardado. Tipo:
— Então eu falei pra ele, “Esse negócio é pra botar aqui, não lá!”, e ele, [voz de retardado]”Ahhh. Não sabia…”
Por quê, hein?

ocorsamorreu.jpg

Na noite de segunda-feira eu descobri que sei trocar pneu.

Que foi? Que que tem? Vocês acham que todo homem vem de fábrica com os genes de trocar pneus, abrir jarros e matar baratas? Pois eu só vim com o dos jarros. Matar baratas foi uma habilidade que eu adquiri com o tempo, e trocar pneu foi algo que surgiu com a necessidade. Conto.
Depois da saga que foi obter minha carteira de motorista aos 30 anos de idade, e de enfiar um carro no poste, achei que já tivesse passado pelo batismo da direção. O negócio começou a mudar, porém, quando recebi minha primeira notificação de multa, há uma semana. Quatro pontos na carteira por andar a estonteantes QUARENTA E OITO QUILÔMETROS POR HORA (o limite era quarenta). E então, na segunda-feira, o pneu.
Vinha eu feliz pela Marginal Tietê após deixar a namorada em casa. Havíamos saído para comemorar o aniversário de dois anos de namoro (vejam só que mulher paciente). Pensando no quanto o trânsito estava livre, e que ia chegar em casa rápido, peguei a alça que leva à avenida Governador Carvalho Pinto, via pública com baixo índice de acidentes e alto índice de trocadilhos. No meio da curva, a oitenta por hora (o limite é sessenta; vem me pegar, CET!), um estrondo e o carro fica manco de repente. Quase me enfio na lateral do viaduto. Consegui controlar o carro, porém, e percebi que o pneu dianteiro esquerdo havia estourado.
O que fazer? Eu não tinha idéia. Liguei o pisca-alerta e me pus a pensar. Por pouco tempo: as buzinas atrás de mim (todos os carros surgem do nada quando você está parado na faixa da esquerda de um viaduto com o pisca-alerta ligado) me fizeram perceber que, caso ficasse ali, seria abalroado (vixe mãe) em breve. Então fui conduzindo o carro para a direita, fazendo sinais frenéticos e meio abichalados para que me deixassem passar.
Já do lado direito, outro problema: estava no meio da favela do Boi Lambão Malhado (sei lá o nome da favela). Não sei quanto a vocês, mas eu não ando muito com vontade de morrer, então fui dirigindo o Corsa capenga até passar a favela do Macaco Leproso. O que não adiantou muito: enfiei o carro numa travessa logo do lado da favela do Sapo Pilantra. Os moradores da comunidade (eu estava no meio do território dos caras, melhor ter respeito) estavam todos reunidos num bar ali perto, dançando ao som de um rock retardado qualquer. Capital Inicial, essas coisas. Um sujeito de bicicleta passou três vezes olhando para o carro e para minha cara de babaca.
Sim, leitores, eu tinha medo. Mas ali estava meu meio carro (a outra metade ainda é do meu pai; alguém tem 11 mil reais pra me emprestar?) de pneu furado, e eu precisava solucionar aquele problema. E o pior: estava de calça nova. Se pelo menos estivesse de minissaia, era possível que algum rapaz bondoso parasse para me ajudar. Como não estava, botei mãos à obra: abri o porta-malas, retirei o estepe, o macaco e a chave de roda (não tinha triângulo, nem zabumba, quanto menos sanfona), e resolvi tentar trocar o pneu.
Eu lhes digo: a troca de um pneu parece tarefa corriqueira, mas não é. Ah, não é mesmo! Trata-se de uma ciência hermética, uma arte para iniciados. Aposto com vocês que o teste para chegar a Grão-Mestre da Maçonaria é trocar um pneu. Pois vejam: para começar, não conseguia fazer com que o macaco executasse seu trabalho. Enfiei o safado sob o carro, imaginei onde seria um ponto de apoio decente na lataria, e comecei a rodar aquela joça. O diabo da alavanca ficava batendo no asfalto, e o carro subia um pouco e logo caía. Algo errado. Hora de ler o manual do carro. Consultando o importante documento, descobri que estava usando a ferramenta de cabeça para baixo.
Com o macaco devidamente posicionado, erguer o carro foi moleza. Aí veio o outro desafio: tirar o pneu. Afrouxei o primeiro parafuso sem grande dificuldade, mas os outros não cediam nem a pau. Depois de muito tentar, aceitei a derrota e fiz o que qualquer mocinha faria no meu lugar: liguei para o seguro.
O rapaz que me atendeu deve ter achado graça na minha incapacidade, mas garantiu que o socorro chegaria em meia hora. Provavelmente um negão que me olharia com desdém e tiraria os três parafusos usando apenas dois dedos. Que se fodesse: no que me dizia respeito, o problema estava resolvido. Mais tranqüilo, saí para procurar um lugar onde pudesse comprar uma coca-cola. Logo na frente do bar, um trailer de cachorro-quente me surgiu como um oásis. Pedi minha coca-cola, conversei um pouco com os presentes sobre assalto a banco e notas marcadas (eu fico interativo quando estou nervoso, mesmo com o menos recomendável dos públicos), e voltei ao meu posto ao lado do pobre carro manquitola.
Meus amigos, levou menos de cinco minutos. Olhando para o carro ali tão vulnerável, já com os apetrechos jogados de volta no porta-malas, tive uma revelação: se erguido no ar, o pneu girava um pouco a cada golpe; firmemente plantado no chão, ofereceria um ponto de apoio muito melhor à chave de roda. Senti meu QI aumentar uns cinco pontos, abri novamente o porta-malas e dei início à Opareção Troca de Pneu 2.0.
Mais inteligente como estava, deduzi rapidamente que retirar todos os parafusos poderia trazer efeitos indesejados, como receber o peso do carro sobre o pé. Então apenas afrouxei os danados, agora com a maior facilidade, e levantei novamente o carro. Depois disso foi só terminar de desrosquear os parafusos e tirar o pneu furado. Ao tentar botar o estepe, porém, outro problema foi apresentado à minha poderosíssima inteligência: o eixo, ou seja lá como for o nome daquela porra onde se enfia o pneu, estava muito baixo para o encaixe. “Este pneu é muito grande”, pensei eu. Botei o danado ao lado de seu colega ferido, e de fato ele estava uns 10 centímetros maior. E eis que o gênio se manifesta novamente: os dois eram do mesmo tamanho, só que um estava furado e o outro não. Bastaria subir o carro um pouco mais e estaria feito. Pronto: com essa genial dedução final, terminei a troca do pneu, liguei para o seguro cancelando o chamado (atendido por uma moça, dessa vez) e voltei para casa.
A lição que aprendi e agora repasso a vocês: o bom mesmo é nascer mulher. Não que essa lição vá me servir para alguma coisa.

A foto de abertura deste post nada tem a ver com o episódio do pneu. Foi tirada numa estradinha perto de Piracaia, interior paulista, onde eu e Ana Cartola passamos dias agradáveis. Nesse penúltimo dia o radiador furou, o carro faleceu e voltamos de guincho para casa. Abrir o capô foi mera pose de minha parte. Entendo tanto de mecânica quanto de cirurgia abdominal de ruminantes.

(I Reis 21)
Ocupar o lugar de honra num banquete é uma deferência de grande significado. Você tem a atenção de todos, tem a melhor comida, o melhor vinho, e é servido antes de todos. Nisso pensava Nabote, bom israelita, agricultor e comerciante. Era fácil entender o papel de quem ocupa o assento principal numa grande festa. Mas o que dizer do conviva principal de um jejum? Era o primeiro a não ser servido? Recebia as melhores porções de uma comida inexistente. Sim, porque Nabote era agora o centro das atenções de uma grande quantidade de pessoas, todas elas reunidas para o jejum convocado pelo rei Acabe. Todas elas estavam desconfortáveis com esse bizarro jejum público, mas nenhuma delas tanto quanto Nabote. Quanto mais ele pensava, mais acreditava que o convite tinha algo a ver com sua recusa em fechar um negócio com o rei.
Estava certo em sua suposição. Como vimos no final do capítulo anterior, o rei andava cada vez mais birrento, e qualquer contrariedade seria capaz de levá-lo a fazer alguma bobagem. Acontece que Nabote possuía uma plantação de uvas que ficava ao lado de um palácio que o rei possuía em Jezreel. Sem ter mais o que fazer o dia todo — decisões importantes eram tomadas por Jezabel, fosse como fosse — Acabe achou por bem propor um negócio ao proprietário da vinha.
— Essa plantação é sua, rapaz?
— Sim senhor.
— Fica pertinho do palácio, não?
— Pois fica.
— Vamos fazer um negócio?
— Vamo não.
— Mas você nem ouviu ainda!
— Mas essa vinha foi herança de meu pai, e não quero me desfazer dela.
— Rapaz, isso aqui ia ficar lindo como horta real, já imaginou? Imagina!
— Tô imaginando.
— E aí, vamos fazer negócio?
— Vamo não.
— Puta que pariu! Eu te dou um vinha melhor que essa!
— Melhor que essa, é?
— É!
— Quero não.
— Eu te pago em dinheiro! Pago o dobro do que ela vale!
— Carece não!
— Te pago o triplo!
— Precisa não.
— PAGO QUATRO VEZES O QUE ESSA BOSTA VALE, TE DOU OUTRA VINHA DUAS VEZES MELHOR E TE DEIXO COMER MINHA MULHER!
— Dona Jezabel, é?
— Ela!
— Quero não!
— HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMF.
Sufocando sua raiva e frustração, o rei saiu dali batendo os pés, entrou no palácio e se deitou em sua cama de cara para a parede e com o dedo enfiado na boca. Aos que lhe vinham perguntar o que tinha ou oferecer comida, apenas respondia com um “Uh-hum!” — ou qualquer coisa assim, era difícil entender o que ele dizia com o dedão na boca.
A reação do rei, muito madura e centrada, não tardou a virar o comentário do dia no palácio. Temendo que a novidade chegasse às ruas de Jezreel, Jezabel foi ter com seu esposo.
— Acabe, que bosta é essa?
— Uh-hum!
— UH-HUM O DIABO! DEIXA DE VEADAGEM E ME FALA O QUE ACONTECEU.
Obediente como sempre, mas um pouco relutante, o rei narrou à mulher os acontecimentos daquela manhã.
— Que vergonha, tamanho homem! Você é rei desta merda ou não é? Humpf. Levanta daí, levanta! Vai comer alguma coisa.
— Mas… E a plantação, meu bem?
— Deixa isso comigo! Amanhã mesmo a vinha de Nabote será sua.
Enquanto Acabe comia seus sucrilhos, Jezabel preparava seu plano. Escreveu algumas cartas em nome do rei, seladas com seu sinete, e as enviou para as autoridades de Jezreel. As cartas davam instruções para um grande jejum coletivo na cidade, que deveria ter Nabote no lugar de honra. E ali estava Nabote, sentado em sua cadeira cada vez mais desconfortável, sentindo sobre si o peso dos olhos de seus conterrâneos, que nada entendiam. Ficaram assim por longos minutos, até que o homem sentado logo à frente de Nabote resolveu puxar assunto:
— Você é Nabote, não é?
— Sou sim — respondeu ele, sabendo que seu interlocutor era um sujeito de má fama na cidade, bandido e mau caráter.
— Ah, eu te conheço!
— Eu também! — disse o que estava ao lado do homem, outro elemento suspeito. — Não é você o grande ateu de Jezreel?
— Ateu? Eu? Hã?
— Isso, ele mesmo! Vive dizendo que esse negócio de Javé não está com nada, que ninguém nunca viu Javé, que é tudo uma jogada política para acabar com as outras culturas da região e tal.
— COMO?
— Não se faça de besta! Eu mesmo ouvi você falando essas coisas no bar ontem à noite. Dizia também que Acabe é um bebê chorão, e que Israel merecia um rei macho de verdade.
— HEIN?
— Disse que quem manda no negócio todo é Jezabel, e que o rei vive debaixo da saia dela.
— Mas isso é um absurdo! Vocês não acreditam nesses dois, não é verdade? Ora, vocês conhecem a fama desses sujeitos, e conhecem a minha. O que acham?
Era tarde demais para Nabote, porém. Enfurecido pelo rumor levantado pelas duas testemunhas — segundo a lei mosaica, quantidade suficiente para se condenar alguém —, o povo levou o pobre coitado para fora dos muros da cidade, e ali o matou a pedradas.
No palácio, Acabe recebeu a notícia da boca de sua esposa, que o convenceu a ir imediatamente tomar posse da plantação. O rei se levantou e foi caminhando até a vinha. Quando se aproximava, notou de longe um homem que vestia roupas esfarrapadas, e lançava em sua direção um olhar que parecia hostil. Chegando mais perto, não teve mais dúvidas de quem se tratava.
— Então você já me achou, meu inimigo?
— Não foi difícil — respondeu Elias —. Primeiro, porque sei que você vem passar o verão aqui em Jezreel. Depois, porque a notícia de tudo o que você tem feito de mau e criminoso deixa Javé cada dia mais irritado.
— Mas o que foi que eu fiz?
— Não se faça de idiota! Mandar matar ou deixar de impedir uma morte é o mesmo que assassinato, você sabe muito bem disso. Tenho um recado de Javé para você, rei Acabe.
— Lá vem…
— Ele diz que varrerá da terra todos os homens de sua família, de modo que não deixe descendentes. O mesmo que ele fez às famílias dos reis Jeroboão e Baasa, fará à sua. O cadáver de Jezabel, a prostituta que você chama de esposa, será devorado pelos cães junto ao muro da cidade. Todos os parentes dela que morrerem na cidade terão o mesmo fim, e os que morrerem no campo serão devorados pelos abutres.
Ao ouvir a maldição proferida por Elias, o rei tremeu de medo. Tentando reconciliar-se com Deus, rasgou suas roupas em sinal de arrependimento, vestindo um camisolão de pano de saco. Ficou sem comer durante dias, dormindo no chão duro e exibindo um semblante abatido. Ao ver a reação de Acabe, Javé resolveu rever suas ameaças:
— Elias, diga a ele que lhe dou uma segunda chance. Já que ele se mostra tão arrependido, não vou mandar toda essa desgraça para a vida dele.
— O senhor é muito misericordioso, Javé. Estou surpreso.
— Em vez disso, a desgraça toda recairá sobre o filho dele.
— Que não teve nada a ver com a história?
— Isso.
— Retiro o que eu disse.
— Deixa eu me divertir um pouco, porra!

Opa! Como estão vocês? Ainda vivos? Que bom! Feliz 2007 para todos.
Eu e Ana Carlota estivemos ausentes por esses dias. Fomos às cidades históricas mineiras. Inventei que queria ver as obras do Portadorzinho de Necessidades Especiais. O cara era bom mesmo, tanto que Deus não permitiu que ele morresse. Em vez disso, providenciou para que ele fosse perdendo pedacinhos, até não sobrar nada. Como dizem os americanos, Heroes don’t die; they fade away. E viva a misericórdia divina.
Enfim, a verdade é que não foi uma viagem com intenções históricas, artísticas, religiosas ou qualquer bobagem dessas. Viajei até Minas Gerais para verificar o andamento dos negócios:

Organizações JMC, a seu dispor


Sim, sou um mercantilista. Afora isso, constatei que mineiro não sabe dirigir.