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Leva eu, sodade!


Eu deveria estar dormindo, ou pelo menos escrevendo um capítulo novo (em breve, juro!). Em vez disso, estou aqui ouvindo belas canções de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, grupo vocal brasileiro dos anos 60 inspirado no gospel (o de verdade, não aquela xaropada neopentecostal). Alguns de vocês devem conhecer mais do que eu, outros podem lembrar-se do maior sucesso do grupo, Leva Eu, Sodade. A voz de baixo profundo nessa música é de Noriel Vilela, que mais tarde veio a gravar Dezesseis Toneladas, canção que se tornou hit durante o recente revival do samba-rock. Agora alguém vai dizer que a música é do Funk Como Le Gusta. Não acreditem: trata-se de uma regravação de segunda categoria. Vão atrás do artigo original, e entenderão o que estou dizendo. O timbre grave da voz do negão é inimitável.
Dezesseis Toneladas foi a razão de minha busca no Soulseek por mais canções de Noriel Vilela. Encontrei o disco Eis o Ôme, que traz várias músicas de macumba, entre elas a impagável Só o Ôme, receita de despacho apresentada a mim pelo Polzonoff há alguns anos.
Empolgado, saí em busca de gravações dos Cantores de Ébano. Encontrei dois discos maravilhosos, com canções de temáticas diversas — duas delas em inglês canhestro — mas todas com arranjos vocais de cair o queixo. Destaco Vai Lá Moisés, versão em português de um velho spiritual americano. É de arrepiar qualquer um que não seja indiferente aos mistérios da religião. Além disso, a abrasileirada da letra (Quando os judeus eram escravos / Sofreram mais que condenados / Então Deus disse: / Vai lá / Moisés / Lá dentro do Egito / Vá dizer ao faraó / Deixe meu povo ir) me fez lembrar com carinho dos tempos áureos deste blog.
Procurem os CDs por aí, ou baixem as músicas. Vale o esforço da garimpagem.

E leiam mais aqui, onde eu roubei a capa do disco.

O Jubilado comentou que o Carioca traz um Chico Buarque “… mais maduro, mais musical”. Como se ele tivesse gravado Construção em 1971, aos 27 anos de idade, e só reaparecesse agora, aos 63. Esquece-se o leitor que Chico Buarque gravou o bom Cambaio em 2001 e o excelente As Cidades em 1998. Era ele menos maduro então? Era nada!
Nego agora vai dizer que estou seguindo a modinha de falar mal de Chico Buarque. Num outro blog em que escrevo um sujeito falou em hype e sei lá o quê. Típico pensamento de gente besta: se tantos falam mal de Carioca, isso é uma modinha. Não pensam que pode haver uma outra razão, mais clara e simples: tantos falam mal porque o disco é ruinzinho mesmo.
Eu tenho todos os discos de Chico Buarque (não me canso de dizer isso), e esse último é, sem dúvida, o pior. Chico era um tecelão da canção popular. Em suas composições, a letra era a trama, a música era a urdidura. O resultado era — quase sempre — maior do que a soma das partes. Letra e música de Pedro Pedreiro, Construção ou Moto-Contínuo tomadas em separado não têm o mesmo valor que as canções completas. Em algumas ocasiões essas composições atingem a perfeição ao encontrarem o intérprete ideal — foi o que aconteceu com A Bela e a Fera gravada por Tim Maia (todo o disco O Grande Circo Místico é feliz nesse quesito, exceçaõ feita à sempre dispensável Simone).
Acabou-se o tecelão. Letra e música podem ser separadas, embaralhadas, jogadas no lixo. Parcerias com gente sem talento, como Carlinhos Vergueiro e Ivan Lins, apenas reforçam a impressão. Repetições fazem lembrar O Rappa. A letra de Ela Faz Cinema parece originada de um pagode dos mais safados.
Talvez fosse o caso de Chico Buarque tomar a decisão que adia há anos, de dedicar-se exclusivamente à literatura. A excelência de Budapeste lhe dá créditos para tanto. Um livro mais, ou dois. Depois, quem sabe, longe da obrigação de compor, ele possa reencontrar o velho tear.

Fui ao Tom Brasil Nações Unidas ver o show de Chico Buarque, e me lembrei da inauguração na casa. Na ocasião, os proprietários buscavam a certificação máxima de qualidade de som: a bênção de João Gilberto. Conseguiram. João fez o show todo sem reclamar um só instante, mantendo o bom humor por mais de duas horas. Além do som, a casa de espetáculos tinha boa distribuição de lugares, e era bem mais espaçosa que o Tom Brasil original, na Vila Olímpia.
Quem te viu, quem te vê… Por 115 reais, fiquei sentado num lugar apertado, em comunhão desconfortável com as pessoas das mesas vizinhas, todo mundo espremido num canto da platéia. Lá na frente, gente que desembolsara 200 reais passava pelo mesmo tormento. O Tom Brasil conseguiu democratizar o desconforto.
O som continua bom, no entanto. Ainda bem: um som de qualidade permite desfrutar o talento do finado Chico Buarque. Já explico.
Nas canções antigas, notamos Chico Buarque criativo, brincando com as palavras, entrelaçando-as na melodia, criando harmonias surpreendentes, juntando letra e música como ninguém.
Quem te viu, quem te vê… Esse sujeito morreu. As músicas do disco novo são todas parecidas uma com as outras. Divido a culpa entre o próprio Chico, que talvez pudesse ter esperado mais para lançar o disco, e Luis Cláudio Ramos, o arranjador, que parece estar no meio de uma crise de falta de criatividade. Ode aos Ratos, única que se sobressai em Carioca, é na verdade uma composição em parceria com Edu Lobo — cujo talento parece inesgotável — para o balé Cambaio.
Querem ver só? Que necessidade Chico Buarque tinha de compor algo assim:

Outros Sonhos
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se emperiquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a policía já não batia

De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardía
Y por soñar lo imposible, ay, ay
Soñé que tú me querías

Se já havia dito o mesmo, de forma muito mais bela e eficaz oito anos atrás, no disco As Cidades

Sonhos Sonhos São
Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
Aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
Exaltado coração
Então despes a luva para eu ler-te a mão
E não tem linhas tua palma

Sei que é sonho
Incomodado estou, num corpo estranho
Com governantes da América Latina
Notando meu olhar ardente
Em longínqua direção
Julgam todos que avisto alguma salvação
Mas não, é a ti que vejo na colina

Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa

Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh’alma

Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá
Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho

Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engalfinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha

Nem sei como encerrar este post, então termino com uma foto tirada por Ana Cartola:

Nhó!


Ela continua a ser minha namorada, mesmo depois da foto. Isso, meus caros, é amor!