Ah, eu ia escrever um monte de coisas aqui, mas já não sei mais escrever (aliás, acho que deixei para trás as fantasias de ser escritor). Só queria celebrar o ano que se vai, e que me trouxe tantas boas mudanças: com a coragem que me deu minha menina, consegui me livrar de um emprego que estava me matando aos poucos, apostei tudo o que tinha numa mudança. E ganhei: consegui, contra todas as expectativas, mudar de área e de ares, entrar num novo ritmo de trabalho. O salário é uma bosta, mas 2006 trará novidades.
Cheguei aos trinta sem crise, cercado por velhos e novos amigos. A família de minha namorada tornou-se extensão natural da minha. Aprendi a dirigir, finalmente, e fui batizado colidindo de frente com um poste. Saí ileso da batida, e o seguro pagou muito mais do que aquela jabiraca valia.
Enfim, como diria meu amigo pastor, foi um ano para contar as bênçãos.
Espero que o de vocês tenha sido bom também. Se não foi, paciência. Guardemos as boas notícias para 2006. Feliz ano novo, meus queridos.

Já ia me esquecendo: voltei ao consultório quarta-feira passada. Temia pela minha vida, mas sosseguei um pouco ao perceber que seria atendido apenas pelo Dr. Japonês Maluco, e sem nenhum bisturi elétrico à vista. Ele colou um botão novo no dente exposto (o outro ficou encravado numa borda de pizza), um outro no aparelho, e conectou os dois com uma linha de pesca. Diz ele que isso vai puxar o dente para seu lugar. Por enquanto nada aconteceu.

Passando pela Avenida Liberdade hoje à tarde, no sentido da Praça João Mendes, ouvi por acaso uma putinha gorducha comentando com uma colega de ponto:
— Perfume é importante. Homem que não tem perfume para mim não é homem.
Vinte metros à frente, três garotas na entrada de uma perfumaria ofereciam amostras grátis.
Boa sacada.

Os leitores mais antigos, dos bons tempos do Emotionrélio, devem se lembrar dos meus dentes tortos. A arcada superior vinha certinha até o meio; daí pra direita era como se os dentes não gostassem um do outro: tão separados que me dispensaram o uso de fio dental por toda a vida. Isso começou a mudar, porém, em janeiro de 2004, quando o Dr. Japonês Maluco entrou em minha vida e me botou trilhos na dentadura. Desde então, os incisivos se reconciliaram, deixando um vão imenso no lugar onde deveria haver um canino.
Pois, vejam, quando eu era moleque esse canino superior direito foi o último dos meus dentes de leite. Demorou tanto pra cair que o outro, cansado da espera, resolveu que ficaria ali dentro da gengiva para sempre. E por lá ficaria, não fosse o fato de o aparelho tê-lo reposicionado de uma forma tal que levou o Dr. Japonês Maluco a me propor uma pequena cirurgia, coisa muito simples, para puxar o danado para o lugar que lhe estava reservado há tantos anos.
Ah, as pequenas e simples cirurgias! Fui ao consultório ontem, e lá conheci o Dr. Japonês Bobo, cirurgião-dentista cabeludo e sorridente encarregado de expor o dente rebelde, cravar-lhe um botãozinho de ferro e conectá-lo ao aparelho, que então o puxaria para o lugar certo. Coisa besta. Bobagem. Claro.
— Preparado?
— Acho que sim. Olha, sou hipertenso. Isso pode atrapalhar?
— Ah, pode sangrar um pouquinho mais, bobagem. O Dr. Japonês Maluco te explicou o que vamos fazer?
— Mais ou menos.
— Ah… Hum. Cê sabe se tem alguma radiografia desse dente aí?
— Acho que ele tem.
— Hum. Bom, muito bom. Vou ali ver, já volto.
Peraí. O sujeito encarregado de fazer a cirurgia sequer tinha visto as radiografias? Mau sinal. Mas eu já estava lá, não ia saltar da cadeira e sair correndo sem olhar para trás, embora a idéia me passasse pela cabeça. Tentei relaxar e esperar pelo melhor.
O cirurgião voltou depois de alguns minutos, devidamente munido de radiografias e Japonês Maluco.
— Está trans-cisplatino, tá vendo?
— Tô.
— Na direção do suriname, certo?
— Certo.
— Então você abre, encontra o subsaariano, cola um botão na mitocôndria, e pronto.
— Ah, tá. Simples.
— Simples.
— Muito simples.
— Pois é.
— Xacomigo.
Os termos utilizados não foram bem esses, mas outros igualmente obscuros para minha ignorância ortodôntica. O cabeludo abriu uma bolsa e tirou lá de dentro uma caixinha com fios e um negócio que parecia um vibrador. Suei frio. Aparentemente ele pretendia utilizar uma técnica heterodoxa para puxar o dente pelo lugar mais difícil. Mas ele logo me tranqüilizou:
— Isto é um bisturi elétrico. Eu ponho essa ponta nele, conecto naquela caixinha, ligo na tomada, piso no pedal e pronto.
— E não dói?
— Nah, dói nada! Só a anestesia no céu da boca que vai doer um pouco.
— No céu da boca?
— É. Mas depois é tranqüilo, cê só vai sentir um cheiro de churrasco, bobagem.
O sujeito pretendia queimar minha boca, e parecia achar tudo muito divertido. Aplicou-me a anestesia, que afinal nem doeu tanto, e começou a cortar a parte de trás da gengiva com o tal bisturi. Fumaceira danada, cheiro de carne queimada, e ele achando tudo bonito.
— O bom do bisturi elétrico é que não sangra quase nada.
Comentário infeliz: terminou de dizer a frase e arregalou os olhos. Manja japonês de olho arregalado, aquela cara de mangá? Pois é. Ele botou uma gaze na gengiva, apertou. Tirou a gaze, deu uma olhadinha e logo desviou o olhar. Um cirurgião com medo de sangue. Ótimo.
Nisso entrou uma terceira personagem, a Dra. Ruiva.
— Fazendo churrasquinho aí? — todos eles pareciam muito felizes e empolgados com o bisturi elétrico.
— É. Acho que cortei uma arteriazinha, alguma coisa assim.
— Como assim?
— Tá sangrando, ó.
— Vixe. Vou chamar o Japa Maluco.
Ficaram, então, os três à minha volta, se revezando para apertar a gaze. Pelo rabo do olho eu via aquele chumaço rubro dentro da minha boca, e não achava nada engraçado. O Maluco resolveu ter um surto de sanidade:
— Marco, nós vamos dar um ponto aí. Está sangrando muito, melhor não arriscar. Tudo bem?
— HHHHMMMF.
— Ok, então.
O japonês costurou o buraco, limpou tudo e depois veio olhar.
— Ué. Por que você cortou aqui?
— Pra achar o dente.
— Mas não tem dente nenhum aqui. É mais pra cima, ó?
— Não, não. É aí mesmo. Trans-planaltino.
— Não, é trans-cisplatino. Olha aqui a radiografia. O que acha, Dra. Ruiva?
— Essa não é a raiz do lateral?
— Não, não. Ele tá na direção do suriname.
— Ah! Achei que fosse a guiana.
— É, são parecidos.
— Hum.
— Xeu cortar aqui então.
O Japonês Maluco pegou o bisturi e começou a passar na minha gengiva.
— Ué, esse negócio não tá funcionando.
— Ué.
— Ué.
— Pois é.
— Ei, cê tá pisando no pedal?
— Que pedal?
— Esse pedal.
— Ah! Esse pedal?
— Esse.
— Ah, agora sim!
— Achou o dente?
— Que dente?
— O canino.
— Ah. Acho que é ele aqui. Não é?
— Acho que esse é o lateral. O que acha, Dra. Ruiva?
— Acho que é o osso.
— Não, não. O osso é aqui, ó. Põe o dedo.
— Ah, é.
— O dente tá mais pra cá. Lisinho, tá vendo?
— Tô, tô.
— Então. Tá pronto.
— Mas e essa pelinha aí?
— Hum. Cê acha melhor cortar?
— Corta.
— Tá. Xeu ver… Ah, o pedal. Pronto. Cortei.
— Beleza.
E eu lá, deitadão. Depois de hora e meia, os doutores declararam a cirurgia um sucesso. Agora estou com um buraco quase no céu da boca, com um botãozinho de ferro grudado no dente exposto. Dizem que preciso voltar lá na semana que vem, para botar o tal fio nesse botão e começar a puxar o dente para onde deveria estar.
Ainda não sei se vou.

Naquele 6 de dezembro quando Ana Cartola nasceu, os sapos do mundo todo saltaram de alegria ao mesmo tempo. O pulo coletivo causou uma leve oscilação no movimento da Terra, e a lua minguante tornou-se cheia por alguns segundos.
Enquanto isso, lá na outra ponta da cidade, eu me deliciava com a novidade constante que é ter dois anos de idade. Admirava minha irmãzinha, nascida havia duas semanas, e pensava como seria quando fôssemos grandes.
Agora eu já sei como é ser grande: é bom, é divertido, é doce e alegre, cheio de cores surgidas de repente no meu mundo antes todo cinza e, às vezes, azul. Porque, dentre todos os sapos do mundo, fui eu o escolhido pela menina da lua.
Feliz aniversário, Ana Cartola. Eu te amo.

Eu estava andando por uma praça. Não sei onde era. Pela tranqüilidade das pessoas, pela preguiça das árvores e pelas casas coloridas, deduzo que era uma cidade do interior, e é só. Caminhava com as mãos nos bolsos, Que é onde elas ficam a maior parte do tempo. Um sujeito de bicicleta passou por mim. Pedalava despreocupado, acho até que assoviava.
Quando ia dobrar o canto da praça, porém, quase trombou com outra bicicleta. Era a Morte que vinha em sentido contrário, pedalando furiosamente e brandindo sua foice acima da cabeça. Cruzou com o ciclista e passou-lhe a lâmina no pescoço.
Parei onde estava, sem acreditar no que via. As pessoas ao redor continuavam bestando, e eu lá tentando entender o que acontecia. A Morte veio na minha direção, agora pedalando devagar. Preparei-me para levar com a foice na garganta também, mas ela apenas olhou para mim, sorriu (um sorriso meio cômico, como o dos esqueletos de A Noiva Cadáver) e disse:
— No dia da inauguração do gasômetro eu te pego.
— Que gasômetro — eu perguntei, mas ela já havia sumido.
Olhei em volta, e notei no meio da praça um grupo de operários que trabalhavam em torno de uma espécie de coluna de ferro verde de mais ou menos dois metros de altura, fincada na terra revolvida e com um cilindro na outra extremidade. Deduzi que se tratava de um gasômetro e me aproximei dos trabalhadores.
— Bonito gasômetro.
— Pois é. Pena que demora tanto pra ficar pronto. Estamos trabalhando nisso há anos.
— Há anos, é? Que beleza! Então a inauguração vai demorar?
— Demora nada, moço. Já tá marcada pro mês que vem.
Acordei assustado, convicto de que vou morrer em janeiro.
Preciso parar de dormir de estômago cheio.