(I Reis 6 e 7)
Depois do acordo com Hirão, rei de Tiro, para o fornecimento de materiais e mão-de-obra, Salomão finalmente começou a construir o templo. Era para ser rápido, mas acabou levando sete anos. Por quê? Já explico.
Pelo projeto inicial, o templo seria bem simples: vinte e sete metros de comprimento por nove de largura e treze de altura. Nada muito grande, se compararmos aos templos de hoje em dia (a Catedral da Fé do bispo Macedo, ou a Basílica de N. Sa. Aparecida), mas uma construção e tanto para o pequeno reino de Israel. O que valia no templo de Salomão eram os detalhes, não o tamanho: durante a construção não se ouviu barulho de qualquer ferramenta, porque as pedras eram preparadas e talhadas na pedreira; uma vez no local da construção bastava encaixá-las.
A construção chamou a atenção de muita gente e, claro, do principal interessado.
— Que beleza, hein, Salomão?
— Oh, grandioso Javé! Que quereis tu de eu?
— Nada, nada. Vim só ver como andavam as coisas. Tudo muito bonito, puxa vida.
— Eis que construo esta casa para vós habitáveis, oh grande Javé, Senhor dos Exércitos e pá.
— Pá?
— Escapou-me.
— Hum. Olha, continua aí a construção. Se você for bonzinho, eu venho morar aqui, e faço tudo o que você quiser.
— És acaso o gênio da lâmpada?
— GÊNIO UMA PORRA!
— Acalmai-vos, oh Javé!
— Grunf.
Salomão, que de bobo só tinha a cara, entendeu o recado: o templo estava muito bom e tal, mas precisava de mais opulência. O projeto minimalista original, de pedra e vigas de cedro, não seria suficiente para o vaidoso Javé. Então, de volta à prancheta: as paredes interiores da edificação seriam forradas de cedro para que as pedras não aparecessem, o assoalho seria de pinho. O lugar Santo dos Santos, salão separado onde ficaria a Arca do Acordo, e que seria efetivamente a casa de Javé, seria um cubo perfeito de arestas de nove metros separado do resto da construção por um biombo de cedro que ia do chão até o teto, enfeitado com entalhes em forma de cabaças e de flores. O lugar Santo, área comum do templo, teria dezoito metros de comprimento.
Salomão preparou o novo projeto e foi apresentá-lo a Javé.
— É. Bonzinho.
Bonzinho? Javé queria ostentação? Então teria: tanto o lugar Santo quanto o Santo dos Santos seriam completamente revestidos de ouro puro. Separando os dois, além do biombo, correntes de ouro. Até mesmo o altar e o assoalho seriam revestidos de ouro. No Santo dos Santos seriam colocados dois querubins de madeira de oliveira. Os querubins ficariam de asas estendidas no Santo dos Santos, sendo que as asas se tocavam exatamente no meio da sala, e a ponta da asa de cada um deles tocava uma das paredes.
As paredes do templo seriam enfeitadas com figuras entalhadas, assim como as portas. Enfim, tudo uma riqueza só. Ao ver o novo projeto, Javé arregalou os olhos:
— Agora sim, estamos conversando!
Com o projeto finalmente aprovado, Salomão tratou de colocá-lo em prática: as paredes de pedra foram forradas com tábuas de cedro revestidas de ouro, os entalhes foram feitos, os querubins construídos.
A construção foi iniciada no quarto ano do reinado de Salomão, e concluída no décimo primeiro. Com a casa de Deus pronta, o rei podia preocupar-se em construir a sua.
E se o templo podia ser tão ostensivo, então o palácio real também poderia. Salomão não se fez de rogado: só um recinto, o Salão da Floresta do Líbano (que tinha esse nome por ser todo revestido de cedro), já era maior que o templo: media quarenta e quatro metros de comprimento por vinte e dois de largura e treze e meio de altura. Esse salão tinha três fileiras de quinze colunas de cedro que sustentavam vigas de cedro, que por sua vez escoravam o teto de cedro.
O Salão das Colunas era um pouco menor: tinha vinte e dois metros de comprimento por treze e meio de largura, e recebeu esse nome por ter um pórtico sustentado por colunas. A Sala do Trono, onde Salomão trabalharia, era toda forrada de cedro. Num pátio atrás dessa sala ficava a casa de Salomão, no mesmo estilo das outras: um exagero de cedro. Do mesmo estilo também eram os aposentos da esposa do rei, filha do Faraó.
Enfim, o palácio era tão grande que algumas das pedras do alicerce chegavam a quatro metros de comprimento.
Para arrematar as obras, Salomão mandou chamar um certo Hurã, da cidade de Tiro, que era especialista em trabalhos de bronze. Hurã, cuja mãe era israelita de Naftali, fundiu duas colunas de bronze para colocar na entrada do templo. Cada uma delas tinha dezoito metros de altura e um metro e setenta de diâmetro. Depois disso, fez os detalhes das colunas: entalhes em forma de correntes, lírios, romãs. A coluna do lado sul foi chamada de Jaquim (que significa Deus estabelece) e Boaz (pela força de Deus).
O mais famoso dos trabalhos de Hurã, porém, e que é comentado até hoje por muitos, foi o tanque redondo de bronze. Não pelo talento requerido para construí-lo: no fim das contas, era só uma bacia grande e redonda. A grande sacada eram mesmo os doze touros de bronze sobre os quais repousava o tanque, mas ele mesmo não tinha nada de mais. A não ser por um detalhe: segundo o autor da narrativa, o tanque de bronze tinha dez côvados (quatro metros e quarenta) de diâmetro e trinta côvados (treze metros e vinte) de circunferência. Essas medidas têm alimentado por séculos as discussões em torno da veracidade da Bíblia. Sim, porque segundo o autor o número PI equivaleria a 3, e não a aproximadamente 3,1416. Àqueles que ainda discutem isso eu digo: NA BÍBLIA UM SUJEITO É ENGOLIDO POR UM PEIXE GIGANTE E CUSPIDO SÃO E SALVO NA PRAIA TRÊS DIAS DEPOIS! UMA JUMENTA FALA! HÁ GIGANTES DE QUATRO METROS DE ALTURA! E VOCÊS VÊM DISCUTIR MATEMÁTICA, CÁSPITA?
Pronto, acalmei.
Hurã fez ainda dez carretas decorativas de bronze, sobre as quais botou dez bacias. As carretas foram dispostas dos dois lados do templo. O artesão cuidou ainda da manufatura dos utensílios do templo. Os de bronze, claro. Quanto aos de ouro (que não eram poucos: o altar, a mesa para os pães, lamparinas, tesouras, bacias, pratos, dobradiças) foram feitos por outro sujeito, cujo nome não é citado.
Com o templo e o palácio prontos, Salomão quase podia descansar. Ainda faltava um detalhe dos mais complicados: trazer a Arca do Acordo para que ocupasse seu lugar no Santo dos Santos. Essa grande operação de logística, porém, fica para o próximo capítulo.

(As fotos deste post foram retiradas do The Semitic Museum at Harvard University)

E lá fui eu — de novo, meu Jesus — fazer o exame prático do Detran. Foi a quarta vez (contem comigo: uno, dos, tres). Como das outras vezes, essa foi cheia de situações inusitadas.
Para começar, o aviso da marcação da prova. Como vocês sabem, passei quatro dias na empolgante cidade de Águas de Lindóia cobrindo o excitante CSO Meeting. Voltei no domingo à noite e fui ouvir as mensagens da secretária eletrônica. Entre elas, uma da autoescola. A pessoa confirmava a data da prova, lembrava que eu devia levar o RG original. No final, um toque singelo:
— Se tiver qualquer dúvida, ligue para a autoescola. Boa noite, boa sorte, e que Deus o ilumine.
A pessoa certamente sabia do que estava falando: um sujeito que consegue levar bomba três vezes no teste do Detran precisa de toda ajuda sobrenatural que conseguir. Devidamente iluminado pela lanterna de Javé, tratei de me preparar para o exame.
A preparação não envolvia muita coisa. Como não fiz aulas adicionais, treinei um bocadinho em todos os carros da família (do pai, do irmão, do cunhado marido da irmã, do cunhado irmão da namorada, do sogrão) e tomei uma decisão estratégica: não contar a ninguém sobre a prova (muito menos a vocês; a torcida de vocês não vale nada). Contei à namorada, e só.
Acordei às seis e meia da manhã hoje, fui para a autoescola sem dizer a ninguém aonde ia e dirigimo-nos todos ao estacionamento do shopping Aricanduva.
O terror foi o mesmo de sempre: dezenas de alunos nervosos, fila para assinar a papelada, examinadores carrascos. Esperei pacientemente a minha vez, entrei no carro.
— Bom dia — disse eu ao examinador.
— Grunfdia.
Atomanocu feladaputa — pensei eu. As frases em itálico são pensamentos. Se eu falasse tudo o que penso, seria processado o tempo todo.
Ajustei banco, botei o cinto, dei a partida, baixei o freio de mão (isso eu não esqueço nunca mais), engatei a primeira, dei seta e fui.
— Faço a primeira baliza?
— Não. Gagagarro — resmungou o examinador.
— Faço qual?
— Passa o carro — tinha um carro no meio do caminho.
— Ah, é pra passar esse carro?
— Não foi o que eu disse, pra você passar o carro?
Sua mãe é uma coruja.
Sujeito mal educado dos infernos!
Bom, passei o tal carro e me preparei para fazer a baliza. Parei o carro, engatei a ré, e adivinhem? Pois é, o desgraçado do Corsa foi pra frente. Freio, embreagem, engata ré de novo. O bicho foi para trás e passou do ponto. Engatei a primeira para ajustar.
— Errou uma, tem mais duas chances.
Sua mãe passa atum na xana e dá pro gato lamber.
Engatei a ré novamente e comecei aquela giração de volante pra encaixar o carro na vaga.
TÁ ERRADO! TÁ TUDO ERRADO! ESTA MERDA VAI SUBIR NA CALÇADA, DERRUBAR O CONE, O MOTOR VAI EXPLODIR E VAI MORRER TUDO MUNDO. Ó LÁ, O FELADAPUTA TÁ ABRINDO A PORTA PRA DIZER QUE EU SUBI NA CALÇADA E DEVIA MAIS ERA DAR UM TIRO NA CABEÇA.
— Tá bom. Pode sair.
Eita porra.
Saí, virei à direita para sair do estacionamento, parei na parada obrigatória (outra coisa que eu não esqueço mais).
— Não pode dirigir com o pé na embreagem.
Olhei para o meu pé esquerdo (não o filme, o meu pé esquerdo mesmo) e o danado estava lá, apoiadão no pedal da embreagem.
Corno manso dos infernos, se você marcar ponto por essa bobagem, eu te enfio esse pedal cu adentro.
O sujeito deve ter visto pelo meu olhar o que eu estava pensando, porque não marcou nada. Quando comecei a subir, ele se limitou a avisar:
— Estaciona ali para fazer a ladeira.
Ó LÁ. TÔ PARANDO, ESTA MERDA VAI MORRER, VOU PARAR LONGE DA GUIA E O CORNO VAI FALAR PRA EU SAIR CORRENDO E NÃO OLHAR PRA TRÁS.
— Pode ir.
Fiz a presepada toda de embreagem-acelerador-freio de mão, e o bicho milagrosamente saiu do lugar.
Logo depois da ladeira havia a maldita via preferencial responsável pela minha última reprovação. Dessa vez entrei com todo o cuidado, não veio carro nenhum. Contornei a rotatória e voltei para dentro do estacionamento.
Mais à frente, o lugar onde eu não dei seta da outra vez. Dessa vez, sinalizei uns cem metros antes. Parei onde tinha que parar, entrei à esquerda, outra rotatória, outra conversão à esquerda.
— Paro o carro ali?
— Isso, atrás daquele.
Fui parando, parando, parando, parei. Puxei o freio de mão, ponto morto. O examinador vindo do nono círculo do inferno abriu a porta e apontou para a guia.
— Olha aí, parou longe.
— É verdade. Foda-se, seu feladaputa, já passei.
— Pode desligar o carro. Seu boleto, seu RG.
— Muito obrigado. Bom dia, bom trabalho.
— Sgrumble.
Então lamba minhas bolas, veado.
Saí do carro e fui mostrar o papelucho ao Cláudio, instrutor mais paciente do universo.
— Parou longe, Marcão.
— Mas não errei mais nada.
— Deixa eu ver. Hum. Vixe, já era. Parabéns.
Agora imaginem a cena: este que vos fala, do alto de seus noventa e cinco quilos, pulando e rodando como uma gazela emaconhada.
Foi isso. As trapalhadas continuam acontecendo, mas dessa vez eu passei.
Louvem-me.

Agora eu tenho uma namorada, comecei minha carreira profissional e tenho carteira de habilitação. Esse final da adolescência é cheio de novidades…

Olá, vocês ainda estão aí?
Sim, eu sei. Precisamos de novos posts. Acreditem, também sinto falta de escrever por aqui. Mas minha vida tem sido uma correria constante. Amanhã, por exemplo, parto para uma estadia de quatro dias em Águas de Lindóia. Aposentadoria precoce? Quem dera! Vou cobrir o CSO Meeting. Empolgante, não? Pois é.
Então esperem, esperem. Eu volto. Por enquanto, se virem a próxima B2B Magazine nas bancas, comprem. A matéria de capa foi escrita por mim. Exportação de software e serviços.
Empolgante, não?
Pois é.

Explico o porquê de minha contrariedade ao me ver definido como um ateu sem argumentos.
Já faz uns dias que eu e Ana fomos assistir ao excelente Millions, de Danny Boyle (Boyle é responsável por coisas díspares e muito boas como Cova Rasa, Trainspotting, A Life Less Ordinary, e por aquela porcaria com Leonardo DiCaprio, The Beach. Millions recebeu por aqui um título até que feliz, Caiu do Céu; e chega de parêntese). O filme se passa em tempos recentes, mais exatamente quando da adoção do Euro. Dois irmãos se deparam com um problema e tanto: uma mala cheia de libras esterlinas, dinheiro que deve ser trocado ou gasto rapidamente, antes que se oficialize a troca da moeda na Grã-Bretanha. Até aí, nada de mais: Danny Boyle parece gostar muito mesmo de malas de dinheiro. O que faz desse um filme belíssimo, porém, é o personagem Damian, um garoto que sabe tudo da vida dos santos, e chega mesmo a falar com eles: fala com Santa Clara, com São Francisco de Assis, com o velho pescador Pedro e com São José, pai de Jesus. O menino é daqueles personagens feitos especialmente para conquistar o público logo de cara, como na cena em que o irmão o censura por ter levado uma enorme quantia de dinheiro à escola:

— What did you bring a thousand pounds to school for? Can’t you see that’s suspicious?

— It’s not suspicious, it’s unusual.

Pois muito bem: numa cena muito tensa do filme, eu achei que o menino fosse encontrar Jesus Cristo. Senti que ia começar a chorar, que é minha reação de sempre, ateu ou não, quando se fala de Jesus, ou quando o personagem aparece num filme, num livro, num quadro. No fim das contas o encontro nem acontece no filme (para meu alívio), mas comecei a pensar no quanto eu admiro Jesus, apesar de não ir com a cara do Pai dele.

Pensando nisso, cheguei a um trecho do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco. O livro é narrado em primeira pessoa por um homem de sessenta anos que perde totalmente a memória, retendo apenas o que leu durante sua vida, o que não foi pouco. Ele viaja à propriedade rural da família para tentar recuperar suas lembranças, mas só consegue mesmo reproduzir sua formação literária, musical e política, sem conseguir lembrar lhufas. Bom, não vou contar o que acontece então, mas nesse trecho que citei um personagem chamado Gragnola, um anarquista na Itália de Mussolini (pense num cabra azarado…), expressa ao jovem Yambo (o protagonista) essa minha idéia sobre Jesus:

Jesus é a única prova de que pelo menos nós, homens, sabemos ser bons. Para dizer tudo, não estou seguro de que Jesus fosse filho de Deus, como uma matéria boa assim pode nascer de um pai cuja maldade é tanta coisa que não sei explicar. Também não estou seguro de que Jesus realmente existiu. Talvez nós o tenhamos inventado, mas é justamente esse o milagre, que tenhamos tido uma idéia tão bonita. Ou talvez tenha existido, era o melhor de todos e dizia ser filho de Deus por bom coração, para nos convencer que Deus era bom. Mas se você lê bem o Evangelho, percebe que ele também se deu conta no final de que Deus era mau: assustou-se no monte das Oliveiras e pediu que afastasse dele aquele cálice, e necas, Deus não lhe dá ouvidos; grita na cruz, pai, por que me abandonaste, e necas, Deus estava virado para o outro lado. Mas Jesus nos ensinou o que um homem pode fazer para reparar a maldade divina.

E há também a ressureição, é claro. Porque, vejam, hoje em dia você dizer que Jesus ressuscitou ou não dá no mesmo, ao menos em lugares razoavelmente civilizados. Porém, quando o cristianismo começou, professar essa certeza significava ser crucificado, ou comido pelos leões, ou exilado numa ilha remota até ficar maluco ou, na melhor das hipóteses, condenado a uma prisão domiciliar perpétua, que foi o que aconteceu a São Paulo. E, apesar disso, dezenas e dezenas de homens e mulheres continuaram afirmando que o tal judeu que morrera poucos anos antes era filho do único Deus existente, e que ressuscitara ao terceiro dia. Ei, há algo de errado aí. Pensem em Pedro, por exemplo. Pedro andou com Jesus o tempo todo. Devia ser seu discípulo mais chegado, se repararmos no quanto Jesus tirava sarro do coitado. Então: quando chegou a hora do vamos ver, Pedro não titubeou em fazer todas essas afirmações perigosas. Ora, se a ressureição fora um embuste, que razão o pescador teria para manter essa posição? Será que ele estava doidinho para morrer crucificado de cabeça para baixo?

E Tiago, então? Tiago era irmão de Jesus. E quem tem irmãos sabe bem que eles não vão dar muita trela para o que você fizer. Não sei se Einstein tinha irmãos, mas vamos supor que tivesse: aposto que o irmão de Einstein achou todo aquele negócio de Relatividade, revolução da ciência, nova visão do universo e o escambau apenas “outra bobagem dessas do Albert”. Tiago era irmão de Jesus, portanto devia ser o último a se deixar convencer pela religião fundada pelo primogênito da família. E no entanto, sabem como ele saúda os cristãos em sua epístola universal? “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saudações”. Opa, aí está uma coisa que eu queria ver só uma vez: meu irmão se referindo a mim como “senhor”. Mas sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Mesmo que um dia eu ganhe o Nobel de Literatura, ou descubra a cura definitiva para as frieiras, ou invente o moto-contínuo, meu irmão só vai olhar e dizer, “Ih, lá vem o Marco com as coisas dele”. Porque irmãos são assim, ora. Então por que Tiago não só se referia a seu finado irmão com o respeito devido a um deus, como ainda afirmou sua ressurreição, sendo levado à morte pela espada por isso? Não é normal, não é normal.

A fé que eu sustentei pela maior parte da minha vida era herdada de meus pais. Esse tipo de crença não se sustenta, e estou feliz por tê-la abandonado. Agora, porém, reconheço a possibilidade de voltar à fé por um caminho mais difícil e totalmente inesperado. E talvez não, talvez seja só minha cabeça me pregando peças. Eu sei lá. Nada no universo me leva a crer nem por um instante que exista algum tipo de deus, mas essa questão toda de Jesus Cristo me apoquenta diariamente.
Poucas páginas adiante, Yambo fala sobre Gragnola:

Seu problema era só com Deus, e devia ser um trabalhão, porque era como atirar pedras num rinoceronte, ele nem percebe e continua fazendo suas coisinhas de rinoceronte, enquanto você fica vermelho de raiva e acaba tendo um ataque.

É assim que eu me sinto. Não, não exatamente: sinto como se houvesse um muro, e que algumas pessoas dissessem que existe um rinoceronte do outro lado. Então eu apanho pedras no chão e jogo por cima do muro, para acertar o rinoceronte, o que é duplamente imbecil: se houver rinoceronte, ele nem se dá conta das pedradas; se não houver, estou jogando pedras em quê?

(I Reis 5)
Vimos no último capítulo a organização do reino de Israel sob o comando de Salomão. Tal organização era tão eficiente que chamou a atenção até de estrangeiros, entre eles Hirão, rei de Tiro. O rei fenício fora muito amigo de Davi, e assistira de longe à subida de seu filho ao trono. Agora, porém, tendo tomado conhecimento da enorme sabedoria do novo rei, enviou a Israel uma missão diplomática. E Salomão, mostrando mais uma vez sua sabedoria, aproveitou a visita dos emissários de Hirão para dar início a um projeto grandioso. Para começar, mandou uma carta ao monarca fenício:

Caro Hirão,
Pela órdi?
Saúdo-vos em nome de Deus.
Estais vós ligado que meu véio pai Davi não pôde construir um templo para Javé, uma vez que o bicho tava pegando vivia em guerra contra seus inimigos. Eis, pois, todavia no entanto, que eu, seu filho, sentei o dedo mandei subir me vi livre dos meus inimigos internos por graça de Deus, e consegui diplomaticamente viver em paz com os países vizinhos, de modos que estou de boa em paz.
Sendo assim, ó Hirão, pretendo eu agora levantar a goma construir uma casa para Javé, o Deus de Israel, pois foi assim que Ele prometeu a meu pai. Eu queria, então, pedir a você que mandai-me a mim cortar cedros do Líbano. Enviar-te-lo-ei meus empregados, que vão dá um trampo trabalharão juntamente com os seus, e eu pagarei o salário de todo mundo.
mano Salomão, rei de Israel

Hirão ficou muito feliz ao receber essa mensagem, pois estava mesmo ansioso para colaborar com Israel, uma nação que começava a prosperar. Então enviou sua resposta a Salomão:

Cara Salomón,
Bendita seja a Deus de Israel, que deu a Davi uma filho tón sábia.
Gostei muito de seu mensagem, e já estou tomando os providências. Minhas servos vão começar a cortar os cedras para levá-los da Líbano até onde a senhor quiser, de jangadas pelo mar.
Negócia fechada, entón? Certinha, certinha.
Só um coisinha: o ticket-refeiçón das minhas trabalhadores fica por seu conta. Tudo bem?
Abraço,
Hirão, rei de Tiro.

Negócio fechado, os dois reis começaram os preparativos para a construção do templo. Hirão enviava a Israel todo o cedro e pinho que Salomão solicitava. Em troca, o rei de Israel fornecia anualmente duas mil toneladas de trigo e quatrocentos mil litros de azeite para os trabalhadores fenícios. Além desses, o rei convocou trinta mil israelitas para os trabalhos forçados, com Adonirão por chefe. O contingente foi dividido em três grupos de dez mil homens, e cada grupo passava um mês no Líbano e dois em casa. Além desses, Salomão mandou oitenta mil homens para cortarem pedras nas montanhas, e outros setenta mil para carregá-las. Esse grupo de pedreiros e carregadores, responsáveis pelas pedras para os alicerces do templo, tinha três mil e trezentos chefes.
Quatrocentos e oitenta anos depois de chegar a Canaã, o povo de Israel finalmente começava a construir um Templo para Javé. Tendo uma casa de verdade para morar em vez de uma barraca, talvez ele deixasse de ser tão estressado.

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Sim, sim: sou eu na Revista da Folha, dizendo que os imbecis são sempre maioria. Bom, eu disse outras coisas, mas essa valeu até título. Débora Yuri, autora da matéria, entendeu bem quem eu sou: “Aparelho nos dentes, careca, gordinho, falante e usuário compulsivo de palavrões”, ela define. Excelente. Só não gostei daquele negócio de “ateu sem argumentos”. A expressão fez parte de uma declaração mais elaborada, em que eu deixava bem claro que estava me afastando do ateísmo por achá-lo mais estúpido do que qualquer religião.
Quando a Débora veio aqui me entrevistar, uma das coisas que me perguntou foi sobre o que me irritava.
— Ah, sei lá. Falsidade.
— Hum…
— Não, porra! Não anota não. Estou sendo irônico. Tem muita coisa que me irrita, cazzo. O que você quer saber?
— Ah, por exemplo: quando eu estou andando na rua e o vento bate de frente, joga o cabelo todo na cara, eu não gosto.
— Bom, eu não sei o que é isso…
— AI! DESCULPA!
Ficou sem graça de verdade. Como é bom deixar as pessoas sem graça, não? No fim das contas, disse que o que me irritava era o Código Da Vinci.
Bom, comprem o jornal. Ou leiam a matéria na internet, se forem assinantes do UOL.

E lá fui eu fazer a prova do Detran pela terceira vez (primeira, segunda). Dessa vez foi diferente: a autoescola antiga se dedicava à venda de habilitações. Os instrutores se encarregavam de deixar os alunos nervosos no dia da prova, e depois ofereciam a carteira de motorista por 400 reais. A nova autoescola, lá perto de casa, tem bons instrutores, responsáveis, didáticos, a porra toda. Além de tudo, falam bobagem o tempo todo. Ou seja: ambiente ideal para mim.
Com tudo a meu favor, fui lá fazer o teste. Chegamos ao estacionamento do Shopping Aricanduva e o instrutor foi nos apresentar o percurso. Mostrou de onde deveríamos sair, onde fazer a baliza e a ladeira. O lugar da ladeira era uma curva.
Epa.
Você, caro leitor mais velho, talvez não saiba, mas nós, os jovens, temos uma dificuldade a mais no teste de ladeira: o carro deve parar a exatamente um palmo da guia (o que os estrangeiros chamam de meio-fio). Como é que eu ia ter essa precisão toda numa curva? Comecei a tremer nessa hora.
O instrutor terminou de dar a volta e chegou nossa vez. Antes de mim foram quatro alunos: três passaram, uma menina foi reprovada. Na minha vez eu fiquei semi-inconsciente. Se o sujeito do Detran perguntasse meu nome eu não saberia responder. Mas fui, saí direitinho com o carro.
— Faz a primeira baliza, lá da frente.
Fui, parei o carro um pouco à frente do cone e engatei a ré. Soltei a embreagem e o bicho foi para a frente. Pisei de novo, ré outra vez, e o danado indo pra frente. Na terceira oportunidade, consegui engatar a marcha direito e fiz a baliza perfeitamente. Saí da baliza e fui fazer a tal da ladeira na curva. Para minha total e absoluta estupefação, consegui parar o carro do jeito certo e sair sem deixar que ele descesse.
Aí vem a desgraça: logo depois da ladeira havia um cruzamento. Num estacionamento de shopping center às nove da manhã, achei que não haveria ninguém passando por ali e entrei sem olhar. Mas um desgranhento dum corno feladaputa resolveu passar justamente naquela hora.
— A preferencial era dele.
— É, eu sei.
Se fosse só esse erro, eu ainda teria chances. Só que estava nervoso, e mais adiante esqueci de dar uma seta. Quatro pontos, até a próxima.
E na próxima eu não peço torcida de ninguém. Cambada de ingratos.

Recado para os que dizem que eu deveria comprar a CNH: vocês são um bando de canalhas, uma gente sem conceito de honra. O que eu penso de comprar a carteira está aqui; o que eu penso de vocês está aqui. E não discuto. Canalhas. Não me venham falar mal do Congresso Nacional: vocês são piores do que eles.