Antes de ir embora, ela jogou-lhe na cara o que achava dele: era obstinado e obtuso. Ele disse que não era nada disso, de maneira nenhuma, não era. Ela respondeu que tal atitude só confirmava o que ela dissera. Ele replicou que não confirmava coisa nenhuma, que não era nada daquilo.
Ela, irritada, saiu batendo a porta.
Ele, confuso, correu para o dicionário.

Depois de muito pensar, de muito meditar, jejuar e orar a todos os deuses, foi numa prosaica viagem de ônibus que encontrei a razão para o caos desde nosso mundo velho sem porteira. Estava eu indo para a Penha quando li o seguinte lema na porta de uma Igreja Universal do Reino de Deus:
AQUI SE INVOCA O DEUS VIVO
Uns quinhentos metros a frente, notei uma frase parecida na fachada de outra igreja — esta de uma seita com laivos católicos:
AQUI INVOCAREMOS O DEUS DA CRIAÇÃO
Comecei a pensar: se num trecho tão curto da avenida Amador Bueno da Veiga pude encontrar pelo menos dois templos dedicados à invocação de Deus, quanto outros lugares como estes devem existir mundo afora? Vão invocando, vão invocando, o resultado é inevitável: o Bichão fica invocado, e aí já se viu. É Tsunami mandando um monte de gente pra terra do Bob Esponja, é papa nazista, é Marco Aurélio fodido, sem amigos e sem vintém.
Faço, então, um apelo aos religiosos do mundo: PAREM DE INVOCAR O HOMEM! Por que não adotar lemas que sejam mais agradáveis aos olhos do Senhor? O que há de errado com “Aqui exaltamos o maravilhoso Deus”, “Aqui elogiamos o Senhor até que Ele fique sem graça”, “Aqui dizemos que Jeová é bonitão”, ou mesmo “Aqui babamos o ovo de Javé descaradamente”? Quem lê a Bíblia sabe que é isso mesmo que o Senhor dos Exércitos quer. O negócio é bajular, o resto é acessório.
Viveremos num mundo melhor, vocês vão ver.

Uma vez a Fer me disse que costumava fazer download de programas gratuitos, geralmente inutilidades divertidas, sempre que estava meio para baixo. Eu me espantei, não pela estranheza da mania, mas porque faço o mesmo. Acho que é o equivalente a fazer compras para se sentir alegre, com uma vantagem: é quase grátis.
Ao contrário da Fer, porém, eu não posso ficar mudando o cabelo para melhorar meu humor (pelas razões óbvias). Então mudo as cores do blog.
Gostaram?

Semana passada recebi o e-mail de cobrança da Fapesp referente ao pagamento pela manutenção do domínio jesusmechicoteia.com.br. Trinta reais, mixaria, com vencimento em 25 de abril. Mesmo assim, pensei em não pagar, em deixar que excluíssem o domínio. Porque eu não tenho a mínima vontade de escrever aqui. Já passei por situação semelhante em outras ocasiões, mas sinto que agora é diferente, mais dolorido e difícil.
Estou às vésperas de completar os 30 anos e, enquanto os amigos recebem promoções, ganham dinheiro e se casam, eu continuo na mesma de sempre. Arranjei emprego numa empresa grande, uma das maiores do mundo. Muita gente estaria feliz com uma oportunidade assim, mas o bonitão aqui não se adaptou ao trabalho sem inteligência, sem aprendizado. Então eis minha situação: após doze anos de trabalho na área de tecnologia, continuo um profissional medíocre e sem ambição alguma. Eu só queria mesmo um emprego que me desse o dinheiro suficiente para pagar minhas contas e me deixasse tempo para escrever.
Escrever. Com tanta gente por aí com vocações úteis, eu nasci com esse talento (duvidoso) para algo que não me dá dinheiro e cada vez me dá menos prazer. Se escrevo é porque preciso, porque não sei me expressar de nenhuma outra forma.
Uma vida medíocre. Tentei a música, atingi a mediocridade. Tentei a fotografia, e nem à mediocridade cheguei. Tentei escrever, e a mediocridade mais uma vez me assombra. Agora tento (pela segunda vez) o jornalismo: escrevi matéria para uma revista, mandei idéia de pauta para outra, e estou aqui angustiado para ver no que isso vai dar. Larguei um emprego seguro, com bom salário (para alguém tão medíocre), benefícios, seguro de vida para não apoquentar a família com o peso de minha morte. E por quê? Porque o emprego me corroía a saúde, porque o trabalho não fazia sentido nenhum para mim.
Trinta anos, nenhum juízo e uma pilha de contas para pagar. A isso se resume minha vida. Tenho crises de ansiedade cada vez piores e mais freqüentes. Sinto-me cansado, derrotado, perdido. E, olha, a sensação não é nada boa.

Pois então, lembram-se daquele emprego que eu arrumei em dezembro? Pois podem esquecer: pedi demissão e meu último dia foi ontem. Ainda tenho pouco mais de um mês antes de completar os 30 anos; achei que tinha direito a um último ato inconseqüente antes da inevitável maturidade. Então pedi demissão e agora estou mais perdido do que nunca. Tenham paciência, pois. Eu ainda volto, mas não agora. Antes tenho uma matéria para escrever.
Cuidem-se.

Ok, eu estava enganado: o Papa estava mal mesmo. Tão mal, vejam vocês, que até morreu.
Agora vêm uns e outros questionar a necessidade de toda essa comoção em volta da morte de João Paulo II. Ora! O velho foi, por 26 anos, líder de uma religião que hoje reúne 970 milhões de pessoas, contribuiu decisivamente para o fim da Guerra Fria, foi o primeiro a entrar numa mesquita, numa sinagoga e, o que talvez parecesse mais difícil, o primeiro a dialogar com a Igreja Ortodoxa depois de um cisma de mil anos, teve peito para pedir perdão a Deus e ao mundo pelos erros cometidos pela Igreja — inclusive a Inquisição. Se a morte desse sujeito não é causa de comoção, não sei mais o que possa ser.
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E o Lula disse que vai a Roma para o enterro do Papa (disse também que gostaria que o próximo Papa fosse brasileiro, mas vamos fingir que não ouvimos). Pois vai ao enterro, não? Três dias de velório, deve estar pensando que vão beber o morto.
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E quando crescer eu quero ser camerlengo. Olhem que nome legal. Camerlengo.