Eu queria falar sobre as duas festas de lançamento do Balde de Gelo, mas não posso. Descobri hoje que dormir no ônibus entre o Rio e São Paulo não equivale a uma noite de sono. No meio do treinamento na nova firma, comecei a ouvir vozes. Achei que fossem instruções do curso em CD-ROM, mas constatei em seguida que estava sem os fones de ouvido. Sou um zumbi, me deixem.
E comprem o livro no site da Editora Gênese, na Saraiva, na Siciliano, no inferno. Preciso comprar o Maleato de Enalapril, vocês sabem.
Mês: dezembro 2004
Mais lançamento
Tudo correu melhor do que o previsto: vendemos mais do que esperávamos, foi até que fácil escrever as dedicatórias, nenhum chato apareceu, conheci pessoas legais, revi velhos amigos. Daniela, que tinha passado o dia inteiro ansiosa, transformou-se assim que tomou seu lugar à frente da fila: parecia que nunca tinha feito outra coisa na vida além de escrever dedicatórias e sorrir para as pessoas. É linda, a minha amiga.
Obrigado a todos que foram; fizeram nosso dia muito feliz. Dos que não foram, só espero que tratem de comprar o livro. Humpf.
E hoje tem mais. Esperamos a cariocada na Livraria da Travessa:

Faltam algumas horas
Novidades
Dona Donata e a arte de contar histórias
Dona Donata, eu já disse aqui, era minha avó materna. Ninguém contava histórias como ela: era abrir a boca e começar a mágica. Eu ficava fascinado por aquela capacidade que ela possuía de formar imagens tão reais em minha mente. Vinha devagarinho, contava o começo da história, e logo ela, o crochê descansando sobre o braço do sofá, a TV passando algum filme antigo (geralmente era de madrugada; aprendi com ela a não dormir cedo) e ela própria sumiam, dando lugar à onça braba, à moça louca, ao Lango-Lalango, à Caveira da Cachorra. Histórias inventadas ou não por por ela, não importa. Lembro-me de ouvi-la falando sobre um jogo da seleção romena na Copa de 1994. Contava os lances principais, criticava a atuação do juiz, traçava com as mãos a trajetória da bola dos pés de Hagi até o gol. Vi depois o videotape da partida. A descrição dela era bem melhor. E assim ela fazia com filmes também: contava-os com tal riqueza de detalhes que eu nem precisava assistir a eles.
Vou tentar contar aqui uma de suas histórias, mas já adianto que não é a mesma coisa. Se vocês tivessem a sorte de ouvi-la contando, veriam a história acontecendo. Comigo é só a narrativa insossa de sempre. Mas vamos lá.
Ela começava essa história dizendo que em Estância, sua cidade em Sergipe, as casas costumavam ser assim: tinha a porta da frente, a sala, um corredor de frente para a porta, e a porta dos fundos, na cozinha. Desse modo, quem entrava pela porta da frente via a dos fundos, e vice-versa. Havia, inclusive, uma rua cujas casas não tinham portas dos fundos, o que lhe valeu a denominação de Rua do Cu Tapado.
Pois muito bem: numa das maiores casas da cidade, morava um homem muito rico. Além do dinheiro e do poder, o sujeito ainda ostentava uma filha lindíssima. A moça, porém, não era para qualquer um: o pai a vigiava o tempo todo, sem deixar que ninguém se aproximasse. Os rapazes da cidade suspiravam e sofriam por ela, sem coragem de chegar perto. Mas um dia (sempre chega um dia), apareceu um moço na cidade. Andou aqui e ali, conversou com as pessoas, acabou vendo a filha do ricaço saindo da missa. Apaixonou-se, obviamente, e foi falar com o pai:
— Seu Fulano, eu queria casar com sua filha.
— Casar com minha filha? E você acha que pode ir chegando assim e pedindo pra casar com a menina? Quem você pensa que é, rapaz?
— Eu quero me casar com ela, estou apaixonado. Sem ela eu morro. O senhor me peça qualquer coisa, eu faço.
— Faz, é? Hum. Pois traga uma onça aqui. É, uma onça. Se você trouxer uma onça bem grande, talvez eu deixe você casar com minha filha. Caso contrário, esqueça.
— Pode deixar, seu Fulano. Trago a onça ainda esta semana.
— Estou esperando.
A moça, vendo aquilo, ficou encantada com o forasteiro. Ela nunca pensara que alguém estaria disposto a correr tal risco por ela. Se dependesse de sua vontade, casavam-se logo no dia seguinte. Mas havia o pai. E a onça.
O rapaz saiu da casa de sua amada sem saber o que fazer. Por que diabo prometera uma onça ao homem, Deus do céu? Nunca nem vira uma onça, de que jeito ia caçar uma para entregar como dote? Era loucura, melhor mesmo seria sumir da cidade para sempre. Ia assim pensando quando teve uma idéia maluca. Seria possível? Não seria? Logo saberia.
No dia seguinte, a moça e seu pai estavam na sala da casa quando ouviram alguém gritando longe. Correram para a janela e viram que era o forasteiro que vinha correndo rápido, tão rápido como se estivesse fugindo do próprio Satanás. Vinha na direção da casa, e gritava alguma coisa. A princípio eles não conseguiam discernir as palavras, mas quando ele estava bem perto ouviram claramente:
— ABRA A PORTA! POR NOSSO SENHOR, ABRA A PORTA!
A moça correu para a porta da frente, abriu e ficou esperando. Seu pretendente entrou, veloz como um corisco, pegou-a pelo braço e saiu arrastando-a pelo corredor. O pai, indignado, protestou:
— Mas e a onça?
— Tá vindo aí atrás! — e saiu da casa batendo a porta dos fundos.
* * *
Ana Beatriz, minha prima, nasceu dias antes da morte de minha avó. Fomos visitar a recém nascida, e nessa ocasião Dona Donata me contou sua última história.
Diz que havia esse casal. Amavam-se, namoravam, ficaram noivos, marcaram o casamento. Faltou dinheiro, adiaram o casamento para o ano seguinte. No ano seguinte morreu a mãe da moça, então empurraram a cerimônia para o outro ano. No outro ano o noivo sofreu um acidente, ficou de cama, remarcou-se novamente a festa. E assim foi: incidente após outro, iam adiando seu enlace, para desespero das famílias e, claro, deles próprios. Casal direito, queriam fazer tudo dentro dos conformes. Passaram-se dez anos, e um acontecimento acabou adiando o casamento indefinidamente: morreu a noiva.
O moço quase enlouqueceu, quebrou a casa toda, ficou desvairado. Um pouco mais calmo, tomou para si a obrigação de cuidar do velório e do funeral. Deu suas instruções: o caixão seria branco, as flores seriam brancas, brancas também seriam as cortinas, assim como a mortalha da defunta. Tudo branco, tudo branco. O pai da falecida quis confirmar:
— Tudo branco?
— TUDO! TUDO BRANCO! Caixão branco, flor branca, cortina branca, tudo branco!
— Mas vocês ficaram noivos por dez anos… Tudo branco mesmo?
— Olha… Bote um raminho roxo ali no canto…
* * *
Faz nove anos que minha avó morreu, e não passa um dia sem que eu pense nela, fale nela, sonhe com ela. Ela é minha maior influência. Se eu resolvi que contaria histórias, foi para tentar imitá-la. É uma pobre imitação, sei disso. Mas tento me aperfeiçoar a cada dia, para fazer jus aos genes que carrego comigo (ou que me carregam com eles, sei lá). Por enquanto, fica uma homenagenzinha: o Balde de Gelo, meu primeiro livro, é dedicado a Dona Donata. Se vierem outros, serão também.
Apelação desavergonhada
Sabem quanto custa uma caixa de Maleato de Enalapril 10mg? Sabem? DEZESSETE REAIS! Assim não dá! Comprem meu livro e me ajudem a pagar pelo meu anti-hipertensivo. Ou sintam-se culpados pelo meu inevitável infarto.
Oh!
Filho da puta…
Dúvidas, dúvidas
A cinco dias do lançamento, uma dúvida me rói a alma. Escrevi lá no site do livro. Leiam, leiam. E me ajudem.
A derrota de Absalão
(II Samuel 18)
Sentado numa cadeira entre os portões da cidade Maanaim, Davi pensa na situação em que se encontra e sente-se desgostoso. O reino que ele tanto lutou para unificar está novamente dividido. Pior: tudo por causa de seu filho, aquele moleque irresponsável com quem ele foi tão bondoso. Agora está aqui, do outro lado do Jordão, longe de Jerusalém. Jerusalém, que antes dele era apenas uma cidade grande e sem graça, bem ao gosto dos jebuseus, graças a ele tornou-se uma capital digna dos maiores reinos. E agora a Cidade de Davi é o valhacouto de Absalão e seus cupinchas. É triste, é injusto. Longe, lá na floresta de Efraim, mais uma vez há uma guerra entre irmãos: seus soldados enfrentam os homens fiéis a Absalão. Enquanto isso, ele, o rei que tornou Israel forte, fica sentado, só esperando. Que aporrinhação…
— Majestade! Vejo um homem correndo nesta direção!
É o sentinela que interrompe seus pensamentos. Tanto melhor, ao menos alguma coisa está acontecendo.
— Um homem sozinho?
— É.
— Então traz boas notícias. Que bom.
— Epa! Lá vem outro, um negão.
— Cheio de paixão?
— Como?
— Nada, nada. Se o crioulo também vem sozinho, traz mais boas notícias.
— O outro já está perto. Olha como corre! Ah, deve ser Aimaás, filho de Zadoque.
— Ah, Aimaás é um bom garoto. São notícias boas, tenho certeza.
O primeiro homem já entrou no campo de visão do rei. É, de fato, Aimaás. Vendo o rei, grita:
— Tudo vai bem!
* * *
Nem tudo ia bem, porém. Naquela manhã, Davi dividira seu exército em grupos de mil e de cem. Juntou esses grupos, comandados por oficiais, em três grupos maiores, sob o comando dos irmãos Joabe e Abisai, e de Itai, o giteu. Com tudo pronto, Davi chamou os três comandantes e disse:
— Muito bem. Vamos.
— Vamos? Mané vamos! O senhor fica.
— Tá doido, Abisai? Acha que eu vou perder essa? Seu irmão endoidou, Joabe.
— Majestade, eu concordo com ele. Se o negócio ficar ruim para nosso lado no campo de batalha, se precisarmos fugir ou se os homens de Absalão acabarem com metade do nosso exército, isso não fará diferença para eles. Mas se eles pegam o senhor, aí acabou-se. Sua vida vale dez mil das nossas. O melhor mesmo é o senhor ficar por aqui, e nos mandar reforços se precisarmos.
— Hum. Tá bom. Mas só peço uma coisa a vocês.
— Pode dizer, majestade.
— Se vocês gostam mesmo de mim, tratem bem ao meu filho Absalão.
Davi disse isso olhando firmemente para Joabe. Sabia que o excesso de zelo de seu general o fazia partir sempre para a solução mais simples e segura. Enquanto Abisai e Itai assentiam, Joabe apenas sustentou o olhar do rei.
Davi postou-se junto ao portão, e assistiu à saída de seu exército. Exército esse que não fez por menos: chegando ao bosque de Efraim, não deu tempo para a reação do inimigo. Vinte mil homens foram mortos, e muitos mais morreram enquanto fugiam, em prosaicos acidentes na floresta. O próprio Absalão, que fugia montado numa mula, de repente se viu como que flutuando no ar, enquanto a montaria disparava bosque adentro. Levou um tempo para perceber o que lhe acontecera: seus cabelos, tão longos e bem cuidados, haviam se enroscado nos galhos de uma árvore de tal forma que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia se desvencilhar. Um soldado do exército de Davi que passava por ali à caça de inimigos o viu naquela situação e foi falar com Joabe:
— Comandante, acho que vi Absalão pendurado numa árvore.
— Pendurado numa árvore? Aquele puto acha que isso é hora de brincadeira?
— Hum… Acho que não foi por querer não, comandante. Ele estava preso pelos cabelos.
— HAHAHAHAHAHA! Ridículo! E você matou o desgraçado?
— Er… não.
— COMO NÃO? Porra, se você matasse, eu te daria aí uns cem gramas de prata, mais um cinto.
— Um cinto muito?
— Acha que estou de brincadeira aqui, cavalgadura?
— Não senhor. Desculpe.
— Humpf.
— Mas, comandante, veja só: todo mundo viu quando o rei disse que Absalão devia ser bem tratado e coisa e tal. Suponha agora que eu fosse lá e acabasse com a raça dele. O rei ia saber, ele sabe tudo. E aí o senhor ia se lembrar de me defender? Ia nada! Pois então: nem por dez quilos de prata!
— Bah, não vou perder meu tempo com você. Onde foi que você viu o Absalão?
— Praquele lado ali, ó.
Joabe começou a andar na direção que o soldado apontara, e logo deu com Absalão pendurado num carvalho, esperneando. O comandante saboreou o momento: sorrindo de leve, foi se aproximando lentamente, enquanto brincava com sua lança. Dava-lhe gosto ver a expressão de pavor na face do príncipe.
— Com medo, Absalão? Você não parece tão poderoso agora, pois não? Ai, ai… Um lindo dia. Podíamos estar todos em Jerusalém, tomando sol no terraço do palácio, bebendo umas cervejas. Afinal de contas, foi para isso que eu fiz aquele esforço todo para que você e seu pai se reconciliassem. E você mostrou alguma gratidão? Claro que não! Precisava estragar tudo, não é? Precisava usurpar o trono, botar o velho para correr, humilhá-lo. E tudo isso para quê? Para acabar com sua linda cabeleira enroscada numa árvore, olhando em volta como um coelho assustado. Puxa, você precisava ver sua cara agora. Que situação ridícula, majestade! Tão ridícula que me deixa até constrangido. Vamos acabar logo com isso.
Ainda com o sorriso no rosto, Joabe cravou três lanças no corpo de Absalão. O príncipe ainda ficou estrebuchando, de modo que dez dos homens de Joabe o cercaram e terminaram o serviço.
Com Absalão morto, não havia razão para continuar a luta. Então Joabe tocou a corneta para chamar as tropas de volta. Quando todos voltaram, alguns foram designados para sepultar o corpo de Absalão. Nada muito elaborado: apenas pegaram o cadáver e o jogaram numa cova funda no meio da floresta, cobrindo-a com um montão de pedras. Assim, ridícula e violenta, foi a morte de Absalão. A esse tempo ele já não tinha mais filhos, e só deixou para a posteridade um monumento que mandara construir em homenagem a si mesmo no vale dos Reis.
Joabe ainda pensava num jeito de contar ao rei o que acontecera quando foi abordado por Aimaás, filho de Zadoque:
— Comandante! Peço permissão para ir a Maanaim dizer ao rei que Javé o livrou de seus inimigos.
— Não, de jeito nenhum. Notícia boa, só amanhã. Hoje lamentamos a morte do filho do rei.
— Como? Lamentamos? Mas não foi o senhor mesmo que…
— … Você ouviu o que eu disse?
— S-sim, comandante.
— Só estou querendo preservar sua imagem, rapaz. Vou mandar um crioulo qualquer levar as notícias. Negão! Cadê aquele etíope quando eu preciso dele?
— Aqui, general.
— Ô, negão. Corre lá pra Maanaim e conta ao rei o que você viu.
— Sim senhor.
O escravo etíope de Joabe saiu correndo na direção de Maanaim. Aimaás continuou por ali, olhando para o general com cara de cachorro sem dono.
— Ai, meu saco… Que foi, rapaz?
— Ô, seu Joabe. Deixa eu levar a notícia também…
— Mas pra quê, meu filho? O negão já foi, que diferença faz? O que você ganha com isso?
— Eu só queria dar as notícias ao rei.
— Tá, tá! Vai logo, então.
— Sério? Sério MESMO? Puxa, seu Joabe! Muito obrigado! Muito, muito obr…
— VAI LOGO!
Entusiasmado, Aimaás saiu correndo pela estrada do rio Jordão, e logo ultrapassou o etíope. Quando viu de longe o rei às portas da cidade, gritou:
— Tudo vai bem!
Aproximou-se, fez uma reverência ao rei e completou sua notícia:
— Louvado seja Javé, que deu ao senhor a vitória sobre seus inimigos.
— Ganhamos? E meu filho, está bem?
— Seu filho? Er… Qual deles?
— Oras, qual deles! Absalão, rapaz!
— Ah. Esse filho. Então. Ah, não sei. Absalão, né? Sei não. Quando Joabe me mandou vir, eu vi uma agitação lá, mas não sei o que era.
— Tá bom. Fica aí do lado, descansa um pouco. Vamos ver se o outro mensageiro sabe mais detalhes. Obrigado pelas boas notícias, filho.
— Não tem de quê, majestade.
O etíope chegou logo depois com sua mensagem:
— Majestade, tenho boas notícias! Javé acabou com a raça daqueles que se revoltaram contra o senhor.
— Tô sabendo. Mas e Absalão, tudo bem com ele?
— Olha, majestade… Eu queria que o que aconteceu com ele acontecesse com todos os seus inimigos!
— PRETO FILHO DA…
Oooooooooolha…
Epa.
Bom, não vamos permitir que o rei acabe cometendo crime de racismo. Encerremos o capítulo por aqui.
Eu quero seu dinheiro
Então você não vai poder ir ao lançamento do Balde de Gelo em São Paulo nem no Rio? Que triste, né? Mas isso não é problema: o livro já está em pré-venda no site da Saraiva. Tem compromisso no dia? Mora longe pra caralho? NÃO INTERESSA! Agora você não tem desculpa. Clique e encomende:

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