Existe a alegria de meio-sorriso e a tristeza de meio-sorriso. É difícil diferenciar uma da outra, mas acho que consegui.
Alegria de meio sorriso é quando eu eu olho em volta (no vagão do metrô, no terminal de ônibus, na rua do centro da cidade) e penso, “Meu Deus, quanta gente feia!”.
Tristeza de meio-sorriso é quando eu paro pra pensar e constato que a gente feia olha pra mim e pensa exatamente a mesma coisa.
Mês: dezembro 2004
Retalhos de infância
Quando eu era criança, achava que Merry Christmas era Hare Krishna em inglês.
Mas, porra, eu era um retardadozinho. Ouvia meu tio dizer:
— Vou botar remédio pras baratas.
E pensava: “Puxa, como meu tio é bonzinho, cuida dos bichinhos doentes…”
Quando o pedreiro veio demolir a casa que ficava aqui nos fundos, fui contar a ele a novidade:
— Sabia que meu pai vai me dar uma bicicleta e eu vou andar de bicicleta aí onde era a casa?
— Ah, que legal! Vai ficar rodando aqui, né?
— É…
Fiquei puto com aquilo de “ficar rodando”. O pedreiro achava que eu era um retardado, um moleque bobo que andava de bicicleta no quintal.
Só de raiva não aprendi a andar de bicicleta.
Fui aprender aos 25 anos.
Bom, não sei fazer curvas ainda. Nem frear.
Eu tinha um amigo imaginário, por Deus! Um amigo imaginário chamado Buduque. BUDUQUE! Chegava pra alguém e pedia:
— Segura o Buduque um pouquinho?
A pessoa achava graça, ficava um tempo com as mãos em posição de quem segurava algo. Depois esquecia, virava pro lado, ia fazer outra coisa. E o bestinha aqui:
— VOCÊ DERRUBOU O BUDUUUUUUUUQUE!
Dava trabalho, o Buduque.
Aos três anos eu fiquei noivo de uma menina. Chamava-se Fernanda, devia ter ano e meio, sei lá. Fiz uma aliança de arame pra ela. Mas aí, aterrorizado pela possibilidade do casamento, dei um gelo na garota. Sumi. Que canalha.
Ainda aos três anos fui internado. Gastrite. Não perguntem, não sei como eu fui ter gastrite aos três anos. Mas me lembro perfeitamente dos quatro dias que passei no hospital. Lembro de um médico que me impressionou por ser preto e por ter um cabelão black power (era 1978, a lama do Dilúvio ainda não havia secado). Lembro de ficar importunando as enfermeiras para me levarem pra casa, de argumentar com uma enfermeira que veio botar fraldas em mim na primeira noite (“Fralda? Eu não uso fralda. Quem usa fralda é criança”), e do constrangimento que foi me ver de fraldas minutos depois.
E lembro da hora do banho.
Ah, o banho! Eu ficava em pé na banheira e começava a dançar e cantar músicas do Sidney Magal, meu ídolo máximo então. Engrossava a voz e mandava:
Tenho
um mundo que é cor-de-rosa
de coisas maravilhosas
que tanto sonhavas ter.
As enfermeiras se acotovelavam na porta do banheiro, todas com cara de óun! Eu tinha meu charme.
Aos sete eu achava que as meninas iam gostar de mim se eu soubesse várias músicas de cor. Sei lá de onde tirei essa idéia, talvez da experiência com as enfermeiras. Aos oito percebi que isso era ridículo: decorar músicas fora a coisa mais estúpida que eu já fizera para pegar mulher. Então pensei em algo mais adulto, mais condizente com a minha idade.
E comecei a imitar o Michael Jackson.
Tão olhando o quê? Eu fiquei famoso na escola! Rodas formavam-se para assistir aos meus primeiros (e últimos, graças a Jeová) passos de break. Depois do recreio eu fazia questão de ser o último a subir, e de passar em frente às salas da primeira série só para ouvir os gritos:
— MICHAEL JACKSON! MICHAEL JACKSON!
Lembro de uma vez que a professora pediu silêncio e um dos garotos argumentou:
— Mas, fessora, é o MICHAEL JACKSON!
A glória, meus amigos! A fama! o poder!
Uma pena que nem isso impressionasse as meninas. Eu ficava indignado com a petulância daquelas pestes.
Muito antes disso eu já sabia que ia ser escritor. Não que percebesse em mim qualquer talento especial, que o talento não deu as caras até hoje. O negócio é que eu não sabia desenhar, não sabia pintar, não sabia jogar bola. Era tudo muito difícil.
Escrever era só botar uma palavra atrás da outra. Quando chegava o fim da linha, voltava e continuava na linha de baixo. No fim da página, era só escrever no verso.
Fácil.
Não tinha como dar certo.
Oras, mas que absurdo!
Leiam isso:
(Vivi Griswold, no Garotas Que Dizem Ni – texto de 13/12/2004)
Quem foi que disse? Hein? Vou sair por aí sussurando Alexandre Inagaki e Marco Aurélio em ouvidos femininos. Vocês vão ver o rebuliço.
Fábio Assunção, Dado Dolabella… Sou mais o meu japa. Ai, ai…
Momento de louvor?
No começo deste ano, fiz uma série de posts com o título de Momento de louvor, cujo conteúdo consistia simplesmente numa letra de Chico Buarque acompanhada por uma outra de Marcelo Camelo (aqui, aqui e aqui). Isso surgiu primeiro porque o Credo ali do lado era: “Só Chico Buarque é deus, e Marcelo Camelo é o seu profeta”. A idéia real, porém, era mostrar como há um mesmo clima nas composições de ambos, mas é claro que logo surgiu quem me acusasse de querer comparar os dois. Ora, não haveria nada de mais absurdo: aos 27 anos, Chico Buarque já havia feito o disco Construção; Marcelo Camelo ainda está muito longe disso. O fato, porém, é que a influência é inegável. E, com tanta influência voando por aí, temos que agradecer aos céus pelo Camelo ter escolhido direitinho.
Bom, o negócio é que eu estava ouvindo Los Hermanos ontem e reparei que havia deixado passar duas músicas que guardavam muitas relações com outras do Chico. Aí vão elas:
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A voz do dono e o dono da voz Até quem sabe a voz do dono O dono andava com outras doses Porém a voz ficou cansada após Enfim, a voz firmou contrato Foi revelada na assembléia – atéia E o dono foi perdendo a linha – que tinha (O que é bom para o dono é bom para a voz) Chico Buarque |
Cadê teu suín-? Cadê teu repi Com que sobreno Guichê só de ven Acerta esse tom Marcelo Camelo |
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Agora falando sério Agora falando sério Agora falando sério Agora falando sério Agora falando sério Agora falando sério Chico Buarque |
O pouco que sobrou Eu cansei de ser assim Marcelo Camelo |
O Rei
Meu irmão e eu assistíamos agora há pouco ao Especial Roberto Carlos. A uma certa altura, o Rei cantou (ao piano) uma canção cuja letra era um constrangedor acrônimo acróstico com a frase “Maria Rita, meu amor”. Cada verso que ele cantava era projetado no telão, para todos verem que a primeira letra de cada verso era uma letra da frase. Depois que o nome “Maria Rita” foi formado e apareceu outro “M”, meu irmão perguntou:
— O que será que vem depois desse “M”? “O-R-T-A”?
Bom. Depois de cantar, ele fez um comentário sobre a eternidade de seu amor por ela e coisa e tal. Meu irmão comentou:
— Ele gosta de curtir uma fossa, né?
— É, vende disco. Mas pelo menos depois disso ele parou de fazer música pra mulher gorda, mulher de óculos, mulher baixinha, mulher caolha…
— E começou a fazer pra mulher morta. Bela merda.
— Porra. Gorda, cegueta, nanica… Ficou deprimida e se matou.
A bondade está nos genes, eu lhes digo.
Fotos
De todo mundo que tirou fotos no lançamento, até agora só a Fer, minha fotógrafa oficial, fez a bondade de enviar-me os arquivos. Cliquem aí embaixo para ver as lindas fotos que ela tirou:

Chat
Rapidinho: hoje às 18 horas no Virgula, chat com Daniela e eu, a respeito do Balde de Gelo. Para mais detalhes, procurem no blog da Alê Félix mais tarde.
O chat foi bem legal. Entrei agora e ainda está tudo lá. Não dá mais pra fazer perguntas (CLARO), mas quem quiser saber como foi, basta clicar aqui.
Ah! E tá rolando lá no Vírgula uma promoção para ganhar um exemplar do Balde de Gelo. Quer participar? Aqui.
Pedido
Ei, pessoas que tiraram fotos nas festas de lançamento do Balde de Gelo aqui e no Rio: vocês bem que podiam me mandar as fotos, não? Humpf.
Por enquanto, mostro essas:


O Golem1
é expulsá-lo de você
pra que ele possa ser de alguém.”
(Nando Reis – Quem Vai Dizer Tchau?)
A lenda existe em todas as culturas de todas as épocas: um homem fabrica um boneco, este adquire movimento, consciência, e acaba se convencendo de que também pode ser humano. Pinóquio, o monstro do Dr. Frankenstein e os robôs de Isaac Asimov são apenas alguns exemplos desse mito universal.
Na tradição da cabala judaica, o mito recebe o nome de golem. Há muitas histórias de golems. A mais conhecida é a do rabino Judah Loew ben Bezalel, respeitadíssimo em Praga na virada do século XVII. Conta-se que Judah Loew, depois de muito estudar a Cabala, constatou que para dar vida a uma forma inanimada era necessário proferir uma série de combinações das letras YHWH, o nome de Deus. Tendo isso em mente, começou suas experiências. Depois de muito tentar, enfim conseguiu que um de seus bonecos se movimentasse. Para mantê-lo vivo, escreveu em sua testa a palavra Emet (verdade), e o bruto tornou-se seu empregado. Imagino o susto das pessoas quando o bichão desajeitado aparecia:
— Mas o que é isso?
— É meu golem — respondia o rabino. — Bonito, né?
— GAAAAAAAAAAAAH! — e saiam correndo.
Mas as pessoas foram se acostumando, o golem (a palavra significa “coisa amorfa”) cresceu, e a ele foi dada a tarefa de proteger o gueto judeu contra os constantes pogroms.
Tudo ia bem, mas logo o Golem começou a adquirir consciência, e daí para querer ser gente (e se apaixonar pela filha do rabino) foi um pulo. Com dor no coração, Judah Loew viu-se obrigado a por fim em sua criação.
A história do golem reflete o desejo que acompanha o homem desde sempre: o de suplantar Deus. O Gênesis diz que Deus criou o mundo através do poder da palavra: haja luz, que a terra produza plantas, que surjam o sol e a lua, que apareçam os animais. Deus ia dizendo e as coisas iam surgindo tiradas sabe-se lá de onde. Até a criação do homem, única obra pela qual ele botou a mão na massa (ou no barro), começa com Javé dizendo “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O golem, assim como o Universo, surge da força das palavras.
O sentimento, quando surge, é uma abstração. Você pensa, “Ei, e se eu e Fulana…?”, ou, “Ei, e se Fulano e eu…?”. Nessa fase não há perigo; ele só começa a existir a partir do instante em que você, não contente em cogitar sobre o sentimento, resolve exprimi-lo de alguma forma: conta a um amigo sobre Fulana, ou escreve o nome de Fulano no seu diário. Pronto, está feito o golem, e ele não vai sossegar enquanto você não o mandar até a casa de Fulana(o). Você tenta evitar, mas o golem é insistente, e você acaba cedendo. Ele vai, bate à porta, a pessoa atende. O golem, desajeitado que é — no fim das contas, é só um recém-nascido — se comunica como pode:
— Bu!
Enquanto isso, de longe, você torce para que Fulana(o) aceite o golem. Ele é grande e feio, mas é seu, oras. Se for aceito, viverão os três juntos: o casal feliz e o golem que os sustenta e protege. Caso contrário, o bicho volta pra casa puto da vida e o janta — um golem rejeitado é muito perigoso. Aí, meu amigo, já era: você não é mais você; você é o golem. Anda por aí desajeitado, não sabe direito quem é nem o que faz, vive triste e perdido em pensamentos confusos.
Alguns dizem que o negócio é você mesmo ir ter com a outra pessoa, sem golem nenhum. Mas e adianta? O golem cresce, cresce, e um dia a pessoa percebe:
— Mas o que é isso?
— Eu te amo.
— GAAAAAAAAAAAAH! — e sai correndo.
Não adianta, não adianta. O negócio mesmo é não arriscar, é nunca falar o nome do golem. Amor, seus bobinhos, é um dos nomes de Deus.


