“O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”

(Carlos Drummond de Andrade – Mãos Dadas)

“Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
quando os dois pensavam sobre o mundo
hoje eu te chamo de careta
e você me chama vagabundo.”

(Raul Seixas – Meu Amigo Pedro)

Amizade real é como acne: uma doença que aflige a todo mundo na adolescência, e depois some sem deixar rastros. Insistir em manter as amizades da adolescência é algo doentio, parecido com ter saudade das espinhas purulentas. E no entanto eu, que nunca tive espinhas, insisto nessas amizades. Telefono vez em quando, mando e-mails sempre. O que encontro do outro lado é invariavelmente um mundo estranho a mim: a vida adulta, as preocupações de gente grande, o apartamento, o casamento, os filhos. Comparando minha vida com a dos velhos amigos, sinto-me cada vez mais patético: eles transpuseram a muralha da maturidade, enquanto eu continuo do lado de cá, e achando aquilo tudo muito estranho e alheio a mim. Casamento? Sou muito novo para isso!, e me esqueço que quase trinta anos de vida já foram pelo ralo. Eles têm lá seus empregos, uns são promovidos, chegam a gerentes, metem-se nas trincheiras da política corporativa. E quanto a mim? Escrevia quando adolescente, escrevo ainda. No trabalho não me empenho: não faz o menor sentido para mim, o trabalho. Eu seria menos patético se exibisse meu rosto — já meio velho, coitado — crivado de erupções.
E agora até a pobrezinha da Ana Julia entra na dança:
— Minha sobrinha nasceu, venha vê-la!
— Minha sobrinha já está com um mês e você ainda não veio visitá-la. Venha, venha!
— Ana Julia está com quatro meses, rapaz! Sorri o tempo todo, vive observando tudo, tá linda demais. Você precisa passar lá um dia desses…
Sinto-me como a mulher que pede esmolas no metrô com uma criança no colo, esperando que isso desperte a compaixão de quem olha. Mas não dá, não dá! O piso do apartamento, a decoração da igreja, o DJ da festa, tudo isso lota a agenda dos velhos amigos. E eu, que nunca tive agenda (não para anotar compromissos, pelo menos), olho e não compreendo: então é isso a amizade na vida adulta? Apenas um crachá que se espeta no peito de certas pessoas, “Este é meu amigo desde o segundo grau, aprontamos cada uma!”?
Para quê?

Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! o que fez o exterior não fez também o interior? Antes dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo. Mas ai de vós, fariseus! que dizimai a hortelã, a arruda e todas as hortaliças, e desprezais o juízo e o amor de Deus. Devíeis fazer estas coisas sem omitir as outras. Ai de vós, fariseus! que amais os primeiros assentos nas sinagogas, e as saudações nas praças. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! que sois como as sepulturas invisíveis, e os homens que sobre elas andam não o sabem.”
(Um tal Jesus Cristo, em Lucas 11:39-44)

A que vem essa epígrafe tão extensa e irada? Vejam só que boniteza:

Acorda idiota!!! Se não fosse por Jesus você estaria morto de tantos pecados; ele se sacrificou para pagar pelos pecados de pessoas inconseqüentes como você!!!Pare de falar besteiras e idiotisses de Jesus pois ele é nosso salvador!!! Morra!!!
Vá a merda seu desgraçado!!!
(Luiza)

Não é lindo? Quando eu vejo o quanto Jesus mudou a vida de pessoas assim, o quanto incutiu amor em seus corações, puxa, sinto-me atraído pelo suave sussurro do Espírito Santo chamando-me à redenção. Vejam o que Jesus pode fazer por mim! Além de me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva e tolerante, ainda passarei a escrever corretamente. Ah, seria uma bênção…
Como pode alguém sair por aí brandindo o Cristianismo como uma cimitarra, sem sequer saber como funciona o tal plano de redenção? Essa mulher não sabe nem por que Jesus morreu e acha que tem moral para usar isso contra pobres ateus indefesos como eu. Hum, não exatamente: se é para lutar usando a Bíblia como arma, quero ver quem é o crente que pode comigo. Tomem vergonha, fundamentalistas fariseus hipócritas! Leiam a Bíblia de verdade, em vez de ouvir meia dúzia de baboseiras que alguém mais despreparado que vocês fala, e vocês só aceitam porque ele está atrás do púlpito. Se o fizerem, não perderão tempo discutindo com infiéis como eu, mas combatendo o verdadeiro problema, que está dentro de suas igrejas que já foram cinemas e hoje parecem supermercados de falsos milagres.

Recebi por e-mail uma dessas apresentações de slides com fotos do filme Olga e um texto de Emir Sader intitulado “Por que Olga incomoda” (leiam aqui). E ele desfia razões: porque mostra a vida de revolucionários, porque tem a Internacional na trilha sonora, porque é de esquerda.
Pois bem: sou um sujeito de esquerda, mas não compro o pacote. Ora, Emir Sader chega a dizer que o filme mostra a Alemanha nazista, que teria sido poupada por Holywood todos esses anos. Bom, isso só demonstra que o professor não vê mesmo filmes americanos. Se visse, saberia citar pelo menos meia dúzia de filmes que mostram a Alemanha nazista com muito mais crueza do que aquilo que se vê em Olga. E é risível pensar que tantos roteiristas, produtores e diretores judeus tivessem essa suposta preocupação em poupar o nazismo.
O filme não incomoda por ser de esquerda, por mostrar a suposta realidade dos militantes. Vocês querem saber porque Olga incomoda? Eu lhes digo por quê: porque é um filme ruim de doer, com péssimas atuações, texto fraquíssimo, música ruim, enquadramentos de novela. Fiquei tão incomodado com o filme que não via a hora de terminar.
(Opinião decente aqui)

Quando Alexandre Soares Silva escreveu que os melhores autores contemporâneos escreviam em blogs por aí, achei que fosse exagero dele. Com tantos livros de blogueiros lançados ultimamente, no entanto, sinto-me forçado a concordar com ele. Já escrevi sobre Morte e Vida Celestina, do próprio Alexandre, dias depois do lançamento, mas deixei de falar do que foi lançado de março para cá. Então lá vamos nós, que tem livro pra todos os gostos. Para comprá-los, cliquem nas capas:
Primavera Eterna – Paula Foschia
Logo que conheci Paula Foschia, há cerca de dois anos, ela me enviou alguns textos seus para que eu lesse. Li e os achei bons, mais nada. Não vi nada de errado, também não me empolguei. Em abril do ano passado, estando de bobeira no Rio, fui convocado à sua casa para participar da leitura de uma peça que havia escrito. Fiquei surpreso ao constatar o salto de qualidade no texto da mulher: estava mais ágil, mais engraçado, mais rico.
Nada poderia me preparar, porém, para esse Primavera Eterna. O que se vê nesse primeiro romance da Paula é uma escritora que anda a passos largos na direção da maturidade, sem com isso se tornar chata ou pretensiosa: o texto continua leve e ágil, mas há uma certa melancolia contornando todo o desenvolver da história. O enredo é simples: mulher bem sucedida viaja a Nova Iorque para reencontrar o homem pelo qual se apaixonou quando ambos eram pouco mais do que crianças. Uma história assim, que em mãos menos preparadas descambaria facilmente para o clichê e o sentimentalismo barato, sob os cuidados de Paula Foschia torna-se uma história atraente. Literatura de mulherzinha? Talvez. Mas o livro é tão bom que pega pelo colarinho até um macho bruto feito eu (sem risos! sem risos!): grudei na primeira página e não larguei o livro até de madrugada, quando o terminei (e triste por já haver acabado). Primor de texto, essa menina vai longe.
Transpiauí: uma peregrinação proctológica – Wagner Martins (Mr. Manson)
O lançamento do primeiro livro do irresponsável pelo Cocadaboa gerou um certo rebuliço. O autor foi acusado de preconceito, racismo, nazismo, o diabo. Eu, com minha longa ascendência nordestina, precisava conferir. Fui, portanto, ao lançamento, e finalmente conheci o temível Wagner Martins. Temível? Fama besta: Mr. Manson é um rapaz tão meigo e doce que beira a veadagem. Enfim, o cu é dele. Falemos do livro.
Transpiauí é um diabo de um livro que só faz a gente passar vergonha. Lendo no metrô, ria sozinho. Andando na rua, lembrava de uma piada e ria sozinho. Já tenho fama de maluco, e Mr. Manson colaborou para que ela aumentasse. Preconceito? Nazismo? Balela! Se o Governo do Estado do Piauí tivesse um mínimo de visão estratégica, distribuiria o livro como material de fomento ao turismo. Depois de lê-lo eu fui tomado por uma vontade besta de seguir os passos do autor e me embrenhar pelo sertão piauiense. Há um pecado apenas: às vezes o ritmo é quebrado por parênteses imensos que o autor abre para contar suas batalhas e desventuras no comando do Cocadaboa. Só isso. No mais é um livro engraçado, com ótimas piadas e, pasmem, seguidas demonstrações de carinho pelo povo feio e pobre do Piauí.
Wunderblogs.Com – Uma caralhada de autores
Capitaneados por seu webmaster Marcelo De Polli, o maior escritor do Brasil (tem mais de dois metros de altura, dá medo), os wunderbloggers são provavelmente os sujeitos mais discutidos dessa coisa medonha chamada blogosfera: são direitistas, conservadores, carolas, arrogantes, enrustidos, nojentos, vesgos. Ah, já se disse muito sobre eles. Mas o óbvio é: escrevem bem. Alguns escrevem bem demais, e tiram o sono de escritores medíocres como eu. Ah, a inveja…
Ler o livro Wunderblogs.Com serve bem ao propósito de conhecer esses sujeitos e saber a que vêm. Cada um deles fez um apanhado de seus melhores posts para o livro. O resultado é uma sopa de letrinhas (olha o clichê! Credo!) bem interessante. Eu já conhecia bem os escritos de Alexandre Soares Silva e Ruy Goiaba. Lendo o livro, selecionei outros que me agradaram também (mais gente para me causar inveja), e os botei ali nos Profetas. Mas enfim, os caras são direitistas? Creio que grande parte deles. Conservadores? Também. Carolas? Sei não, sei não… Alguns deles são mesmo bem religiosos, outros nem tocam no assunto. E o FDR é mais ateu e libertário do que eu, além de parecer o Pedro Cardoso.
Sugestão: leia o livro. São tantos estilos diferentes que é impossível que você não goste de pelo menos dois ou três. Eu gostei de quase todos, e incluí nos meus links aqueles que me fizeram passar mais raiva. Como escrevem bem, os desgraçados!
Vida de Gato – Clarah Averbuck
Li o primeiro rascunho de Vida de Gato antes mesmo do lançamento do primeiro romance da Clarah, Máquina de Pinball. É complicado falar dela: de todos os listados, ela é, ao lado da Paula, a mais próxima a mim. Bom, ninguém é neutro quando se trata de Clarah Averbuck, e isso fica bem claro na comunidade do Orkut dedicada a ela: uns a amam demais, outros espumam de ódio só de ler seu nome. Crítica sensata? Difícil. Talvez seja necessário ser amigo da Clarah para entender bem o que ela quer fazer e dizer. E como ela me autorizou, dizendo na dedicatória do primeiro livro que eu seria um dos poucos a entender, dou meu pitaco.
Lady Averbuck se diz fiel a sua Santíssima Trindade: John Fante, Charles Bukowski e Paulo Leminski. Ela é mesmo. Máquina de Pinball tinha óbvia influência de Bukowski. O novo romance fica mais próximo de Fante, com seu lirismo meio acanhado. Clarah compensa certas deficiências narrativas (ela mesma me confessou certa vez que precisava aprender a contar histórias direito) com um talento nato para sugerir ambientes, criar atmosferas. Com duas ou três pinceladas o leitor já sabe exatamente onde está, que tipo de gente está em volta, qual o sabor da bebida e dos salgadinhos servidos, tudo. Eu bem queria saber fazer isso. Clarah escreve como canta: com paixão extrema, mas sabendo exatamente o que faz. Nego pensa que aquilo são linhas jogadas no papel, numa espécie de êxtase religioso. É nada: poucas pessoas que conheço são tão racionais quanto Clarah Averbuck, e ela sabe muito bem como usar essa racionalidade para criar o efeito que bem entender.
Ah, e o livro tem um dos meus trechos favoritos de toda a história da literatura ocidental: “Entramos no carro. Jesus, me chicoteia.”. Não é lindo?
Todas as Festas Felizes Demais – Fabio Danesi Rossi
Comecei a ler o blog do FDR depois de ler sua seleção de textos para o Wunderblogs.Com e sentir muita raiva: quem esse Pedro Cardoso cover pensa que é para escrever assim, melhor que todo mundo? Então quando saiu esse seu livro de contos, tratei de comprá-lo logo para passar mais raiva ainda.
Fabrício Carpinejar mata a charada já na orelha do livro: o que Fabio Danesi Rossi faz é uma mescla de conto e crônica, em textos que talvez possamos chamar de côntricos. Podemos? Então. Li todos os côntricos do FDR numa tarde de sol encarapitado no morrão. Eu precisava trabalhar, estava só passando minha hora de almoço, mas e tinha jeito? A cada história que eu terminava de ler, pensava “Vou ler a próxima e depois volto ao trabalho”. E assim cheguei ao fim do livro. Eis o grande problema de Todas as Festas Felizes Demais: suas 95 páginas não bastam para saciar o leitor. Danesi Rossi é um traficante que dá ao leitor uma quantidade pequena de seu entorpecente, só para viciá-lo, e depois o deixa na mão. Ô, FDR. Espero que o próximo tenha pelo menos umas seiscentas páginas. Isso foi sacanagem sua.
De resto, nada a acrescentar: há os surpreendentes textos superconcisos (como um chamado All you need is love, que consiste apenas nas frases: “Eu me amo. O diabo é que não sou correspondido”), um ou dois contos não têm nada de especial, quase todos são bons ou ótimos, e uns três são excepcionais, coisa de Fernando Sabino ou Rubem Braga. Aliás, aqui na minha biblioteca o Todas as Festas está justamente ao lado dos livros de Sabino. Acho que o FDR vai gostar de saber dessa boa vizinhança.

(II Samuel 13)
A essa altura da história, Davi já era um respeitável senhor com vários filhos adultos. Um desses, dos quais ouviremos falar muito ainda, era Absalão, filho de Davi com Maacá, princesa de Gesur. Absalão tinha uma irmã linda chamada Tamar. Essa filha do rei era um pitéu, e logo caiu nas graças de Amnom. E daí? E daí que Amnom era filho de Davi com sua primeira esposa, Ainoã. O rapaz sofria de amor pela meia-irmã. Bom, amor coisa nenhuma: ele queria era comer logo a moça. Mas não via como; Tamar era virgem e não podia encontrar-se a sós com nenhum homem. Amnom se corroía por dentro. Andava cabisbaixo, olheiras fundas no rosto pálido, espinha encurvada. E foi nesse estado deplorável que seu primo Jonadabe o encontrou um dia.
— Amnom, que acontece com você, rapaz? Tá um caco! Isso lá é jeito de um príncipe se apresentar por aí? O que acontece? Diga aqui pro primão.
— Ah, Jonadabe, minha vida é uma merda… Estou apaixonado por Tamar.
— Sua irmã?
— Meia-irmã, porra. Ela é irmã de Absalão. E eu a quero mais que tudo na vida, mas não sei o que fazer.
— Ah, então tá explicado. Anda se acabando na punheta, aí fica esse farrapo.
— Pois é…
— Precisamos resolver isso, Amnom.
— Não me diga!
— Não seja cínico, estou aqui pra te ajudar. Hum. Olha, cê podia se fingir de doente.
— Como?
— É, cair de cama se fingindo de doente. Do jeito que você está acabado não vai ser difícil.
— Obrigado…
— Ué, mas é verdade! Nunca te vi assim, tá parecendo um fantasma! Mas então: finja-se de doente. Você é filho do rei, paparicado que só a porra, não é? Então! Quando seu pai vier ver como você está, diga a ele: “Pai, eu queria muito que Tamar, minha irmãzinha, viesse aqui cuidar de mim, preparar minha comida”. Ela é sua irmã, oras, seu pai não vai negar um pedido tão inocente.
— E aí…
— E aí, quando ela estiver preparando sua comida você deixa a comida de lado e come a cozinheira.
— A cozinheira? Mas a dona Dita é tão… AH! A cozinheira aí é a Tamar, né?
— Isso, meu asno!
— Mas que beleza de idéia, Jonadabe! Eu jamais pensaria em algo assim.
— Pior é que eu sei disso. E um mané feito você é herdeiro do trono.
— Sou burro mas nasci com sorte. Não tenho culpa.
— Bah.
Empolgado com o plano do primo, Amnom correu para botá-lo em prática. Foi para casa, deitou-se e ficou lá, gemendo baixinho vez em quando, tossindo, reclamando de dores vagas. Logo alguém foi dizer ao rei que seu filho estava doente, e Davi foi visitá-lo.
— Que acontece com você, filho?
— Não sei, pai… É uma… Cof! Cof! Uma dor que sobe assim, e faz assim, tipo desse jeito, sabe? E aí me vem um calafrio, uma tremedeira, um formigamento, um calor.
— Eita! Tudo isso junto?
— É, pai. Tô mal.
— Mas você tem que ficar bom logo, Amnom. Sempre foi um rapaz tão forte, que coisa.
— Eu sei, eu sei. Se ao menos tivesse alguém para cuidar de mim…
— Tá brincando, né? Você é príncipe de Israel, rapaz! Se precisar vem gente desde Dã até Berseba para cuidar de você.
— Ah, pai, mas é tudo assim, só porque eu sou príncipe. Queria ser cuidado por alguém que se importe mesmo comigo.
— Quer que eu chame sua mãe, é isso?
— Não, não precisa. Muita canseira pra mãe, tadinha. Hum. E Tamar?
— Não, até que ela tá bem. Ontem mesmo…
— TAMAR, pai! Minha irmã!
— Ah, Tamar! Eu tinha entendido que… Bom, você sabe. Malditos trocadilhos. Tudo bem, vou falar pra Tamar vir aqui cuidar de você.
— Obrigado, pai.
— O que eu não faço para agradar meus filhotes?
Enquanto Amnom comemorava secretamente o bom andamento do plano, Davi mandou buscar Tamar para cuidar dele. A moça chegou, cumprimentou o irmão acamado e foi preparar bolos e pães para ele. Quando levou a comida até a cama, porém, Amnom não quis comer. Não quis comer bolo, que fique claro: em relação à irmã a fome só aumentava. Ela protestou:
— Mas você precisa comer, Amnom. Está muito fraco.
— Eu sei, eu sei. Mas é que essa gente toda aqui, sei lá. Fico me sentindo constrangido. Você bem podia mandar todo mundo sair, né?
— Tá bom.
Inocente das intenções de Amnom, Tamar pediu a todos que saíssem da casa. Satisfeito, o príncipe pediu que ela lhe levasse a comida até a cama. Quando ela se aproximou, Amnom a agarrou dizendo:
— VEM NI MIM, PRECHECUDA!
Ela, assustada, tentava desvencilhar-se com argumentos:
— Que é isso, Amnom? Não faça isso, por favor!
— Ah, mas faço!
— É loucura, e não é bem visto aqui em Israel, você sabe!
— Sei de nada!
— Você ia ficar desmoralizado, e eu não ia poder aparecer diante dos outros, de vergonha.
— Mimimimimimimi!
— Fale com o rei, Amnom! Tenho certeza que ele me dará a você!
— Mané rei, mané rei! Eu quero é rosetar, minha filha!
Amnom era mais forte, e acabou dominando a irmã. Fez a festa, lambuzou-se. Depois de matar a vontade, porém, olhou para o lado, para aquela mulher miúda e chorosa, e pensou:
— Por que essa criatura não vira uma pizza?
Pegou nojo de Tamar e queria ver-se livre dela. E escolheu o modo mais delicado de fazê-la entender isso:
— Vambora, minha filha. Caminho da roça. Já me servi, agora tenho mais o que fazer.
— Queisso, Amnom? Fazer isso agora é um crime pior ainda.
— Blablablá, foda-se. Cadê meu empregado? Ô, coiso! Tira essa mulher da minha frente, que eu não agüento nem olhar na cara dessa mocréia. Bota ela pra fora e tranca a porta.
O empregado, mesmo sabendo que a moça em questão era filha do rei, obedeceu a ordem. Tamar se viu na rua de madrugada, com seu vestido longo de mangas compridas e muito enfeitado, vestimenta obrigatória para as princesas virgens. Mas ela havia sido deflorada, humilhada, e não se sentia bem com sua bela roupa. Então, em sinal de grande tristeza, jogou cinzas sobre a cabeça, rasgou o vestido e saiu gritando pelas ruas, feito louca, cobrindo o rosto com as mãos.
Absalão dormia em sua casa após uma noite de leve bebedeira. Ouvindo os berros que vinham da rua, pensou “Quem será a puta doida que está gritando a essa hora?”, e saiu para ver. Ficou besta ao ver sua irmã de roupas rasgadas e coberta de cinza, vagando por Jerusalém feito assombração.
— Tamar! Que aconteceu, Tamar?
— O… Amnom… Ele… Ele…
— O Amnom? Ele te fez mal? Foi isso, Tamar? Ele te fez mal?
— F-foi…
— Eu sabia! O jeito que ele olhava pra você, só podia mesmo dar nisso. Mas agora já foi, menina. Fique calma. Ele é seu meio-irmão, o caso também não é pra tanto. Deixa isso pra lá.
Tamar mal podia acreditar no que ouvia. Deixar para lá, simples assim? O irmão mais velho só podia estar doido. Não estava: Amnom tinha sangue de Davi correndo nas veias, e não deixaria isso quieto. Mas para que pressa? A princesa desonrada passou a morar, triste e sozinha, na casa do irmão. O rei soube logo do ocorrido, e ficou furioso. Absalão, no entanto, tratou de acalmá-lo. Não era para tanto, muita calma, muita calma…
Dois anos depois, Absalão foi coordenar a tosquia de suas ovelhas em Baal-Hazor. A tosquia era um trabalho para dias, então Absalão resolveu fazer uma festa para passar o tempo de forma mais agradável. Para isso, foi falar com o rei:
— Pai, vou para Baal-Hazor amanhã, para a tosquia das ovelhas, e vou dar uma festa lá. Queria que o senhor e todo o povo aqui do palácio fossem também.
— Ah, filho, melhor não. Daríamos muito trabalho a você, é muita gente.
— Hum. Lá isso é… Mas, pô, deixa pelo menos o Amnom ir.
— Amnom? Por que ele?
— Ué. Ué. Pô. Sabe como é, pai. O Amnom tem a minha idade e tal. A gente se dá bem.
— Vocês nem se falam!
— Mais um motivo! Para que essa briga besta? Quero fazer as pazes com meu irmão.
— Hum. Sei.
— Pô. Deixa ele ir, pai.
— Tá, vai. Vou falar com ele. Mas se ele não quiser ir, não posso fazer nada.
— Claro, claro.
Quando soube do convite, Amnom aceitou-o de pronto. Não tinha razões para desconfiar de nada: durante dois anos havia se encontrado inúmeras vezes com Absalão, e ele tivera várias oportunidades para vingar a honra da irmã. Não fizera nada, decerto a raiva passara. Então Amnom chamou todos os outros filhos do rei, e foram para Baal-Hazor. Absalão recebeu a todos com sincera alegria, e pediu licença para ir trocar umas palavrinhas com seus empregados. A autoconfiança de Amnom iria por água abaixo se pudesse ouvir as tais palavrinhas:
— Seguinte, macacada. Fiquem de olho em Amnom. Quando ele estiver bem encachaçado, acabem com a raça dele. Não, não, sem veadagem. É pra matar mesmo. Ele é filho do rei? Pois eu também sou, e a responsabilidade é minha. Não sejam uns bundões, façam o que eu mandei.
A festa começou, Amnom encheu a lata e os empregados do irmão trataram de cumprir a ordem. Vendo o que acontecera, os outros filhos do rei interpretaram errado: achando que Absalão pretendia tornar-se sucessor de Davi eliminando a concorrência, montaram em suas mulas e fugiram. Antes que eles chegassem a Jerusalém, no entanto, chegou a notícia. E chegou deturpada: disseram a Davi que Absalão havia assassinado todos os seus filhos.
Imaginem o desespero do rei. Imaginaram? Imaginaram nada! Davi rasgou as roupas, se jogou no chão, todo mundo no palácio fez o mesmo. Uma cena lamentável. Mas logo chegou Jonadabe, o esperto, para dar a notícia correta:
— Tio, não mataram seus filhos não.
— Como não? Acabaram de me dizer que Absalão matou os irmãos!
— Matou nada!
— Tem certeza, Jonadabe?
— Pois eu não estava lá? Claro que tenho certeza.
— Ah, que beleza! Que beleza! Ouviram? Meus filhos estão vivos! Eu sabia que Absalão não seria capaz de uma crueldade assim, meu filhinho querido.
— Er… Tio?
— Que foi, Jonadabe?
— Não é bem assim.
— Como não é bem assim? Meus filhos não estão vivos?
— Estão…
— Então?
— … Menos um.
— HEIN?
— Pois é. Lembra daquela história de Tamar, do que Amnom fez com ela? Pois é…
— Então Absalão matou Amnom? É isso?
— É.
Enquanto eles falavam, uma das sentinelas veio dizer que os príncipes haviam chegado. Traziam a confirmação da notícia dada por Jonadabe: Amnom estava morto. Os filhos do rei vinham tensos, com medo, de repente todos começaram a chorar. Choravam a morte de Amnom, claro, mas também de alívio por terem escapado das mãos de Absalão. Davi não sabia dessa parte, porém, e começou a chorar também pela morte do filho, no que foi acompanhado pelos funcionários do palácio. Por muito tempo ainda Davi lamentaria a morte de Amnom.
Enquanto tudo isso acontecia, Absalão saiu de Baal-Hazor direto para Gesur, onde se abrigou no palácio do rei Talmai, que vinha a ser seu avô materno.

Desviei minha atenção do Cortázar que lia para observar uma abelha que andava em círculos pela calçada. Descrevia um círculo completo, parava um pouco, depois recomeçava no sentido oposto uma circunferência menor. Não tinha ferrão — defendendo a colônia e uma rainha que sequer a conhecia (embora fosse sua mãe, como de todas as outras), ferroara algo que ameaçava a colméia, talvez apenas uma criança curiosa, e agora agonizava por ter perdido as vísceras junto com sua arma de uso único. Após um tempo, começou a girar em torno de si mesma e parou. Movimentava-se muito pouco, e as formigas começaram a se assanhar ao seu redor. Movido por não sei que solidariedade que tenho por essas criaturas — a abelha é um bicho útil, solidário e o mais inteligente dos insetos — aproximei um graveto ao qual ela se agarrou com as patas ainda cheias de pólen. Depositei-a sobre uma florzinha miúda de alecrim e ela animou-se um pouco, como se pudesse voltar ao trabalho. Não durou muito: logo parou de movimentar-se, e depois de um tempinho caiu do arbusto. Estava morta, e as formigas podiam fazer seu trabalho.

(II Samuel 12:16-31)
No último capítulo, vimos que Javé, em sua infinita misericórdia e absoluta justiça, determinara que o filho de Davi pagaria pelo crime de seu pai. Não demorou a agir; assim que o profeta saiu do palácio, chegou ao rei a notícia: a criança estava gravemente enferma. Mas Davi, já estamos cansados de saber, não era muito de abaixar a cabeça para as ordens de cima: era orgulhoso, atrevido, e não aceitaria quietamente esse castigo estúpido. Então afrontou a Javé, pedindo pela vida do filho, e ficou em jejum. Isolou-se em seus aposentos e passou a noite toda deitado no chão. Os empregados do palácio queriam fazê-lo levantar-se e comer alguma coisa, mas ele estava firme em seu intento. A atitude era provocativa: Javé já determinara que a criança morreria, e Davi ousava discutir, demonstrando a todos que se martirizava para salvar a vida do filho condenado. Assim passou uma semana, deitado no chão duro e sem comer absolutamente nada.
Ao fim de uma semana, o menino morreu e os funcionários do palácio ficaram sem saber o que fazer:
— Se o rei nem nos respondia quando a criança estava doente, como vai ser agora que ela morreu? Ele é capaz de fazer alguma besteira.
Um empurrava para o outro a responsabilidade de dar ao rei a notícia. Não foi preciso: ouvindo os cochichos ao seu redor e vendo as expressões de pesar em todos os rostos, Davi deduziu o óbvio. Olhando vagamente em volta, perguntou:
— A criança morreu?
Com a confirmação de suas suspeitas, o rei surpreendeu a todos: levantou-se, tomou um banho, penteou os cabelos e trocou de roupa. Em seguida foi até a tenda onde estava a Arca Sagrada para prestar um culto a Javé. De volta ao palácio, pediu que lhe servissem comida. Os empregados ficaram sem entender nada:
— Majestade… Enquanto o menino estava vivo o senhor passava o dia chorando e não comia nada. Foi ele morrer, e o senhor está aí, disposto. Que foi isso?
— Ué. É isso mesmo. Enquanto ele estava vivo, eu jejuei e chorei, pensando que talvez Deus pudesse ter pena de mim e salvar a vida do menino. Mas agora que ele está morto, de que adianta chorar? Eu não posso fazê-lo viver de novo. Um dia eu irei para onde ele está, mas ele nunca vai voltar para mim. Entenderam?
Os empregados compreendaram muito bem. Isso explicava, aliás, a ida ao Tabernáculo: Davi o fizera mais para reconhecer a vitória de um adversário do que para adorar a um deus.
Davi perdeu essa batalha com Javé, mas em Amom tudo corria bem: Joabe continuava cercando a capital, Rabá. Quando estava para invadir a cidade, mandou uma mensagem a Davi:

Majestade,
Rabá está cercada, e eu tenho o controle dos reservatórios de água. Agora o senhor pode vir para cá com seus soldados para tomar a cidade. Eu não quero a fama por essa conquista.
J.

Joabe podia ser um brutamontes, mas também sabia ser político. Cedendo a glória da tomada de Rabá a Davi, crescia aos olhos do rei e tirava o cadáver de Urias do meio do caminho entre eles. O rei, tendo compreendido a mensagem, juntou seus soldados e partiu para Amom, atacando e conquistando Rabá. Feito isso, condenou seus habitantes a uma vida de trabalhos forçados, e tomou como lembrança a coroa do rei de Amom, que era de ouro e pedras preciosas e pesava 34 quilos (a coroa, não o rei. Seria ridículo). Missão cumprida, voltaram todos a Jerusalém.
Na capital, Davi ainda tinha um problema: Bate-Seba, sua favorita, ainda sofria pela morte do filho. Davi consolou-a do único jeito que sabia, e ela engravidou novamente. Nove meses depois nasceu o menino Salomão. Javé, sabendo que Davi ainda guardava rancor por causa do filho morto, resolveu ser diplomático e mandou Natã dizer ao rei que tinha gostado muito do novo garoto. Como prova disso, ordenou ao profeta que desse ao menino o nome de Jedidias, amado por Deus em hebraico.
Davi ignorou a mudança de nome.