Na quarta-feira de manhã, a abertura do evento ficou a cargo de John Patrick, antigo vice-presidente da IBM e fundador do W3C. A palestra era sobre o futuro da internet. Aí foi o mesmo de sempre: um guru fazendo futurologia, tentando prever o que vai acontecer, e correndo do óbvio para o intangível sem que a platéia sequer percebesse. De qualquer forma, foi uma preleção bem legal, e ele acabou falando sobre uma coisinha bastante interessante: o Skype, software que proporciona tráfego de voz através da internet (funciona também como provedor de Voice over IP para ligar para telefones convencionais, mas aqui no Brasil ainda não vale a pena). Quando ele falou nisso, achei bobagem. Ué, MSN Messenger, Yahoo Messenger, ICQ, todos esses programinhas de comunicação oferecem alguma opção de voz. Para que ter mais um ícone comendo memória ali na minha taskbar?
Ontem eu entendi o porquê: enquanto lia a página do Skype e tentava decidir se valia ou não a pena tentar, me vem a Lila no MSN: “Ei, cê tem Skype?”. Coincidência incrível. Baixei, pois, o danado, e comecei a falar com Lila. Pô, o negócio é melhor que telefone. Eu aqui, Lila no Rio, e nos falávamos de graça com qualidade de voz impressionante e sem qualquer delay.
Experimentem, vocês vão gostar. E quem quiser ouvir essa minha bela voz, é só me adicionar: usuário jesusmechicoteia.

Acho que escreverei alguns posts sobre esses dias que passei em Salvador. Não sobre a cidade — que não conheci — mas sobre coisinhas que me aconteceram, idéias que surgiram, meditações que se desenvolveram. Mas depois. Por enquanto, contemplem a vista que eu tinha do quarto do hotel:
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Tudo pronto para a viagem, roupas na mala, tudo bonitinho. Na última hora (hoje, às sete da noite) me vem um detalhezinho à mente: e os cartões de visita? Sim, porque quem é que vai a um evento dessas proporções e não leva pelo menos uns cem cartões de visita? Marco Aurélio, claro.
Constatada minha imbecilidade — mais uma vez — vesti uma calça, enfiei uns tênis e corri para o Tatuapé, para ver se no shopping center eu teria como fazer os tais cartões. Andei um pouco e logo descobri uma gráfica expressa. Fim dos meus problemas, que maravilha. Entrei, expliquei o que queria ao balconista e ele me pediu para escolher a cor e a textura do cartão. Feito isso ele sentou-se em frente ao monitor e começou a elaborar o bicho.
Maomé do céu! O moço era enrolado que só ele. Fiquei do lado de cá do balcão sugerindo fontes (“Bota o nome em Arial, e embaixo em Times New Roman, itálico”), porque por ele ficaria tudo de um jeito só. Lá pelas tantas ele me pediu para entrar lá e mostrar para ele o que eu queria. Resultado: eu mesmo fiz meu cartão, que foi impresso numa daquelas folhas com cartões destacáveis numa impressora igualzinha à minha. No final, tinha nas mãos cem exemplares de um cartão que eu poderia ter feito em casa. Custaram-me vinte reais.
Mas eu mereço. Claro que mereço.
E com mais essa presepada, despeço-me de vocês. Sexta-feira à noite estou de volta. Comportem-se.

A situação foi ficando difícil, nada de aparecer emprego, então fui trabalhar num pesque-e-pague aqui perto de casa. Mas nada de trabalho ao ar livre: era um pesque-e-pague indoor, ficava nos fundos de um boteco, meio clandestino. Eu acordava ainda de madrugada e ia para lá. Meu trabalho era pescar peixes ensinados com iscas preparadas, de modo e estimular os outros a continuarem gastando seu dinheiro. Resumindo: o negócio era feito um cassino, mas com minhocas em vez de fichas.
Depois de um dia particularmente cansativo, cheguei em casa e estavam todos tristes: meu irmão havia sido preso. Foi comprar folhas de maconha (tão bonitinhas…) com cheque. O cheque voltou, aí fodeu tudo: prenderam o moleque. Aquela choradeira em casa, saí para dar uma volta. Passando em frente ao pesque-e-pague, encontrei Daniel Lima, que fazia uma matéria para TV. Era um programa desses jornalísticos/policiais e ele dizia:
— A mídia é complacente com Danielle Iwoa. Essa menina tem que ir pra cadeia!
Danielle Iowa era a filha do japonês, e estava envolvida no esquema de compra de folhas de maconha com cheques sem fundo. Tá, eu sei que Iowa não é exatamente um nome japonês, mas foi o que se pode arranjar pro sonho. Fui falar com ele:
— Ô, Menezes. Pegou pesado com a menina.
— Eu sei, mano. Mas é meu trabalho, não posso fazer nada. Ó o texto aqui, ó.
Desencantado com um Daniel vendido ao sistema, voltei para casa. Lá me esperava um neguinho que me olhou de cima abaixo e disparou:
— Cadê teu irmão?
Parecia a cena de Cidade de Deus, quando o Dad… Digo, o Zé Pequeno vai até a casa do Mané Galinha e é atendido pelo irmão.
— Meu irmão vacilou. Que nem você.
— Eu? Quando foi que eu…
Mas nem teve tempo: apliquei-lhe uma chave de braço e o bicho caiu duro na calçada. Foi como uma senha: foi ele cair para surgirem chineses de todos os lados. Comecei a lutar com eles. Para minha sorte, o japonês meu patrão ouviu o barulho e veio me ajudar. Depois de distribuir muita cacetada, derrotamos os chineses. Antes de entrar em casa, comentei com o japa:
— Odeio lutar com chineses. Você bate neles, e quando pensa que acabou eles surgem aos magotes vindos sabe-se lá de onde.
Nessa hora eu acordei, espantado por ter usado aos magotes num sonho. Bah, queria saber o que acontece depois.
Antes de encontrar o Daniel, eu tinha passado por uma rua aqui perto e vi uma garota linda vindo na minha direção. Como era sonho mesmo, fui conversar com ela. A menina foi muito simpática, mas se despediu dizendo:
— Se você voltar com o Emotionrélio, eu fico com você.
MAS QUE PORRA!

Não, não me refiro às mulheres do post abaixo. Essas estão na terra, graças ao bom Deus. Falo das baratas. Não, NÃO! Das idéias.
Estava agora lendo o último post do Sr. Paulo Vivan (tive que copiar e colar no bloco de notas, porque o Chickendog é um blog que odeia o Mozilla) e levei um susto que me fez saltar da cadeira até a prateleira mais alta, e descer de volta dançando como um cossaco acometido de hemorróidas. Pois, vejam vocês, há tempos venho tentando desenvolver a Seita das Duas Baratas.
A idéia me surgiu numa noite de insônia e angústia. Eu pensava: cada um diz que a vida após a morte é de um jeito, e muitos são exclusivistas: só seguindo determinada religião sua vida no além vai ser bacana, seguindo qualquer outra (ou nenhuma), você é condenado a algo bem desagradável. Passar a eternidade sendo um cossaco com hemorróidas, por exemplo. Juntei a essa questão a minha absoluta ojeriza às baratas, e voilá!, surgiu a Seita das Duas Baratas.
Funciona assim: quando alguém morre, reencarna não como uma, mas como duas baratas. Sabem como é, baratas estão sujeitas à morte por envenenamento, ou pisoteadas por batalhões de cossacos com hemorróidas. Então você morre e reencarna em duas baratas: uma delas vive a vida de barata, cheia de aventuras e coisas nojentas; a outra fica quietinha lá no ninho, como backup. Essa barata de contingência só convive com as de sua estirpe: seria muito arriscado ter contato com as baratas normais hoje em dia, com todo mundo usando Matox. Pois então, o papel das reencarnações salteadas (uma como ser humano, outra como duas baratas) é de queimar carma rapidinho: um dia Deus percebeu que certas pessoas eram tão ruins, mas tão ruins, que levaria tempo demais para pagarem pelo que fizeram. Sendo assim, encomendou uma pesquisa para saber que tipo de vida faria esse carma ruim ser gasto mais rápido, e conclui-se que as baratas dariam conta. Então O Todo-Poderoso, em sua infinita sabedoria, dotou as baratas de grande resistência às condições mais desfavoráveis, e as incumbiu da missão de levar toda a humanidade mais rapidamente aos pés de Seu Trono, que fica entre os querubins, com Seu Amado Filho assentado à direita e toda uma comitiva de cossacos para recepcionar os recém-chegados.

Tão olhando o quê? Tanta religião absurda por aí. Isso aí é um rascunho ainda, só resolvi postar agora porque fiquei besta (mais) com o post do Vivan. Mas se eu trabalhar bem essa idéia, capaz de ainda ganhar uma grana…

Ou então! Ou então!
Na verdade as baratas foram feitas à imagem e semelhança de Deus, e nós somos apenas os dispositivos de pagamento de carma para os simpáticos ortópteros.

(E eu juro que pensei nisso há meses, e tenho testemunhas. Que Paulo Vivan não queira me processar, Deus nos livre.)

(II Samuel 14:1-24)
Três anos depois do assassinato de Amnom, o rei Davi já tinha superado a morte de mais esse filho, e agora sofria de saudade de Absalão. O rei, orgulhoso, jamais admitiria isso. Mas não era preciso: Joabe, conhecendo Davi como ninguém mais, percebeu a que se devia a melancolia do rei, e pensou num plano meio maluco para reconciliá-lo com o filho sem que nenhum dos dois precisasse dar o braço a torcer. Para começar, procurou uma velha amiga em Tecoa, uma mulher muito sábia e dissimulada.
— Preciso da sua ajuda.
— Ah, Jô, você sempre precisa!
— Mas dessa vez o caso é muito sério, e exige disfarce.
— Xi…
— Nada de mais! Você só vai ter que se vestir de luto e ficar uns dias sem pentear os cabelos.
— Ué. Quem morreu?
— Seu filho.
— Você sabe muito bem que eu não tenho filho, Jô.
— Eu sei, eu sei. Essa é a história que você vai contar pro rei.
— Ah, sim. Daí o luto.
— Exato. O negócio tem que ser convincente. Você me ajuda?
— Como sempre.
— Obrigado. Agora vamos ensaiar seu texto, que é pra não sair nada errado.
No dia seguinte, sentado em seu trono, Davi recebia os súditos que haviam solicitado audiência. Estava com um ar distante, mal olhava para os que vinham ter com ele. Pensava em Absalão, filho tão amalucado, e talvez por isso mesmo tão querido. Onde estaria? Enquanto pensava no filho, anunciaram o próximo requerente, e entrou uma mulher toda de preto, descabelada, parecendo muito triste. Percorreu o corredor de cabeça baixa, chegou tímida aos primeiros degraus do trono e lançou-se com o rosto no chão:
— Ajude-me, meu rei!
— Ué. A senhora é baiana?
— Baiana? Não, por quê?
— Me chamou de “meu rei”…
— Epa. Não é o senhor o rei de Israel.
— Ah, foi nesse sentido que você disse… Aí sim. Mas diga o que você quer.
— Eu sou viúva. Meu marido morreu.
— Puxa. Viúva, o marido morreu, quanta desgraça… DEIXE DE OBVIEDADES, VAMOS À QUESTÃO!
— Er… Então. Eu tinha dois filhos. Um dia os dois saíram para trabalhar no campo, se desentenderam, começaram a brigar. Acabou que um matou o outro.
— Vixe.
— Pois é. Pior foi depois: a parentada toda começou a me importunar para que eu entregasse meu filho.
— O assassino?
— O meu filho, majestade. E o que eu poderia fazer? Eles querem apedrejar o menino. Está certo, ele matou o próprio irmão. Mas e eu, como fico? Perco meus dois filhos? Se eles pegam meu menino, acabam-se minhas esperanças e o nome do meu marido se perde. O senhor compreende a situação?
— Claro, não sou burro nem nada. É uma merda de situação, hein?
— Pois é. O senhor me ajuda?
— Sim, sim. Pode voltar para sua casa, que eu tomarei as providências.
— Tomará, né? Sei… Mas se acontecer alguma coisa, eu e minha família levaremos a culpa. O senhor fica inocente na história.
— Está me acusando de omissão…?
— Longe de mim!
— Humpf. Bom, façamos assim, então: se alguém for lhe encher o saco, traga-o aqui. Eu resolvo, pode deixar.
— Resolve, né? O senhor bem que podia pedir a Deus que não permita que nada aconteça…
— Pedir a Deus? O que você quer dizer com isso? Que não é o bastante, é isso? Quer exigir mais do rei, é isso?
— Mas de forma alguma!
— Grunf. Olha, você fique feliz porque hoje eu estou muito bonzinho. Quer garantias, é isso? Pois eu lhe garanto, e juro por Javé, que nada vai acontecer a você ou ao seu filho. Não seria justo. Pode ficar tranqüila. Está bom agora?
— Mas é claro! O senhor só me permite dizer mais uma coisinha?
— Ai meu saco… Fala, vai.
— Por que o senhor fez algo tão errado com o povo de Deus?
— Hã?
— Dizendo o que me disse agora, o rei condenou a si mesmo.
— HEIN?
— Ué! Não foi exatamente isso que aconteceu em sua família, majestade? Um de seus filhos matou o outro, e agora vive desterrado. Quem está morto, está morto, é como a água derramada na terra, nem Deus trás de volta. Mas o rei pode trazer um exilado de volta a Israel.
— Peraí, isso está me cheirando a texto decorado.
— Hum? Como? N-nada disso! Eu só vim aqui porque o povo me ameaçou, já disse. Então eu pensei: “Vou lá falar com o rei, a palavra dele é confiável como a de um anjo de Deus”. E agora o senhor prometeu que nada vai acontecer ao meu filho. Então fico muito agradecida, viu? Agora tenho que voltar, estou com a pia atulhada de louça, um monte de roupa pra lavar, o quintal…
— Pára, pára! Cê tá me enrolando.
— …
— Eu vou te fazer uma pergunta agora, e você vai me responder com sinceridade.
— Pode perguntar, majestade.
— Foi Joabe que enfiou você nisto, não foi?
— Neste vestido?
— NA SITUAÇÃO! NÃO ME ENROLE!
— Ah, na situação… Puxa, o senhor é mesmo feito um anjo de Deus…
— Foi o Joabe ou não foi?
— Foi! Foi! Mas não leve a mal, majestade. Ele só fez isso pensando no senhor, querendo resolver essa situação.
— Hum. Tá bom. Volte para casa. Com o Joabe eu falo depois.
Assim que a mulher saiu — ressabiada por ter sido descoberta tão facilmente — Davi mandou chamar Joabe:
— Mas e então, Joabe? Que presepada foi essa que você me aprontou?
— Ah, majestade! Eu só queria ajudar. Estou com saudade de Absalão…
— Está, é? Hum. Pois bem, vou fazer o que você quer: pode trazê-lo de volta.
Joabe, ainda imbuído do espírito teatral, não resistiu e inclinou-se até o chão.
— Deus o abençoe, majestade! Agora eu sei que o senhor está mesmo satisfeito com meu trabalho. Puxa, chegar ao ponto de atender a um pedido deste seu criado! Sinceramente, eu não esperava!
— Tá, tá. Vai lá e não me torra.
Para Joabe tanto lhe fazia se Absalão ficava em Gesur, se voltava para Israel ou se ia para o inferno. Mas com essa manobra ele fizera o rei trazer o filho de volta sem admitir em momento algum que sentia sua falta. Joabe foi a Gesur muito feliz com o sucesso de sua empreitada. Quando voltou com Absalão, porém, foi surpreendido pela atitude inflexível do rei:
— Trouxe o moleque? Está feliz? Que bom, fico feliz também. Só não me traga aquele mequetrefe aqui. Não quero mais vê-lo.
— M-mas, majestade… O menino veio de Gesur até aqui todo feliz, antecipando o momento do reencontro. O que é que eu digo pra ele?
— E eu lá sei? Você que inventou esse negócio, agora se vira.
Entristecido, Joabe deu a notícia a Absalão. O príncipe, como era de seu feitio, não teve qualquer reação: apenas foi morar em sua própria casa, pretendendo só pisar novamente no palácio quando coroado rei. Davi, conhecendo bem o filho que tinha, talvez não devesse mostrar-se tão intolerante: Absalão não era de reagir de imediato, mas gostava de cozinhar sua vingança em fogo lento.