“I could watch the dreams flicker in your eyes
Lying here asleep on a sunbeam
I wonder if you realise you fascinate me so”

(Belle & Sebastian – Asleep On A Sunbeam)

Por mais que eu viva, nunca esquecerei essa cena: sentado numa cadeira e usando roupas adequadas a uma sala de cirurgia, meu cunhado segura o pacotinho delicado que é sua filha recém-nascida. Deitada, com uma expressão entre exausta e eufórica (não me peçam para explicar), minha irmã olha para os dois. O casal troca olhares de incredulidade. Está ali. É de verdade, e é um amálgama perfeito dos dois. Nunca vi nada que se aproximasse tanto do ideal do Sagrado. Aquela cena merecia uma pintura, uma escultura, uma sinfonia. Não contávamos, porém, com nenhum artista, e o Hospital-Maternidade Albert Einstein não os fornece às mães. Paciência, usamos o que havia a mão: o tio babão aqui, que filmava a cena com mãos trêmulas.
Passaram-se dezessete dias desde então, e a cada vez que olho para Ana Julia, minha sobrinha, é como se anjos descessem do céu entoando hosanas e jogando pétalas de rosas. Bem bichonas, os anjos. Agora mesmo estava com ela nos braços cantando Asleep On A Sunbeam. Enquanto eu cantava, ela me olhava com seus grandes olhos verdes. Essa música já foi plena de sentidos para mim, mas nunca antes o trecho que botei como epígrafe teve tamanho significado.
Fico pensando se você percebe o quanto me fascina, Ana Julia.

Olha esse texto. OLHA ESSE TEXTO!

Onde é que eu estava com a cabeça? De onde veio tanta arrogância? Tem coisas que eu escrevi que eu tenho vontade de ir entrando no meu próprio cu até sumir. Este é um desses, que o Izzy Nobre fez o favor de me lembrar. 

Ignorem. É só um pedido de socorro de um homem de 28 anos perdido, confuso, vivendo uma espécie de segunda adolescência. Triste demais.

Impressão minha ou estamos vivendo uma onda de Monty Python revival? Para todo canto que olho há algo sobre o grupo inglês (mesmo fora de casa, que fique claro. Aqui dentro não tem muito como escapar…). Eu até diria que é bom e tal, mas o que me espanta são os tipinhos que resolveram gostar de Monty Python. Numa comunidade do Orkut, por exemplo, vi uma garota dizendo que MP é humor para pessoas mais alternativas, porque suas amigas que curtem coisas mais adversas apreciam o sexteto. Sim. Coisas adversas.

Eu queria saber quantas dessas pessoas que dizem gostar de Monty Python entendem de verdade o humor daqueles senhores. Duvido que haja, num país em que a maior parte do humor ainda se baseia em bordões e trocadilhos, tantos fãs do grupo que implodiu (ou ajudou a implodir) a ditadura da punch line na comédia. Duvido que algum desses “fãs” consiga assistir uma esquete como a Confuse-a-Cat e entender.

Mas, bah, quem liga, não é mesmo? É só comédia! Não é pra rir? Então pronto, a gente ri!

Humpf.

Não há geração espontânea. Qualquer um sabe disso, ou ao menos se espera que assim seja. Todo ser vivo surge a partir de outro, desde a simplicidade dos unicelulares se dividindo, até a complexidade da reprodução sexuada de plantas e animais, que culmina com a complicação danada que os seres humanos fizeram do assunto, com namoro, noivado, casamento, métodos contraceptivos, cesariana, detetives especializados em traição conjugal, divórcio, guarda dos filhos etc. etc. etc. A impossibilidade do surgimento da vida a partir de nada é o mais querido argumento daqueles que querem trazer Deus para a equação. Não vou entrar nessa questão, porém. O negócio é: hoje em dia ninguém mais acredita em geração espontânea, embora algumas adolescentes grávidas torçam para que seus pais acreditem.
O que é fato inquestionável para a biologia, ainda suscita discussões em outros campos, porém. Eu mesmo acreditei durante toda a vida em duas formas de geração espontânea: amor à primeira vista e inspiração; o primeiro no mundo dos sentimentos, a segunda no das idéias. Hoje, pensando na proximidade assustadora da marca de 30 anos de vida, percebi que estou deixando tais conceitos de lado, de forma quase imperceptível.
Isso é bom, muito bom. Essa coisa ficar esperando que uma garota ideal surja de repente para que eu me apaixone, ou que uma idéia me caia na cabeça para começar a escrever, vou lhes contar, não leva a nada. Assim como a idéia surgida de repente, vinda sabe-se lá de onde, é sempre um grande amontoado de clichês, pessoas que subitamente se tornam apaixonantes nada mais são do que uma mistura de frustrações do passado com o que ainda sobrou de idealizações depois de tanto levar na cara. Um texto surgido da pura inspiração ou um relacionamento nascido de uma paixão fulminante sempre levarão os envolvidos à vergonha pública.
Às vésperas dos trinta anos (ARGH!), percebo que acredito cada vez mais no texto que surge do trabalho e no amor que surge da convivência. Arroubos de adolescente não ficam bem em alguém da minha idade.

Desde que eu fiz o upgrade para a versão 3.0D do Movable Type, alguns leitores notaram um problema no blog: ficou impossível se cadastrar para ser notificado dos capítulos bíblicos (naquele campo ali do lado direito, sob “Boas Novas”). Pois bem, acho que consegui arrumar o danado. Se alguém quiser testar, sinta-se à vontade.

Andando pelo parque do Ibirapuera às cinco da tarde, de bermuda e tênis, camisa do Real Madrid (lindona, comprei um telefone só para ganhá-la de brinde), e em excelente companhia, pensei: Puta que pariu, eu sou um desempregado vagabundo muito do sem-vergonha. Mas, ah, como é bom!

(Epa, mandei notificação deste post em vez do de baixo. Foi mal aê)

(I Samuel 26)
Ao final do primeiro encontro entre Davi e Saul depois de tantas perseguições, o rei despediu-se do filho de Jessé com lágrimas nos olhos e protestos de grande arrependimento. Davi não acreditou muito, como vimos, mas mesmo assim relaxou um pouco. Primeiro arrumou tempo para se casar com duas mulheres. Depois, cansado de tanto zanzar por todo canto, resolveu voltar a Zife, o lugar do encontro fatídico. Reinstalou-se, portanto, no monte Haquila com seus rebeldes.
Os homens de Zife, porém, sedentos de recompensa, foram até Gibeá para contar a Saul que Davi voltara. O rei, maluco que era, já se esquecera das lágrimas e das promessas de reconciliação: arregimentou novamente os três mil soldados e partiu para Zife. Quando chegaram ao monte Haquila já era noite, e Abner achou melhor acampar no sopé do monte e subir assim que o dia amanhecesse para atacar os cangaceiros de Davi. Ajeitaram-se, pois, com Saul e Abner no meio do acampamento e os três mil soldados em volta, de forma que o rei e seu general ficassem protegidos e pudessem dormir o sono dos justos, mesmo que não o fossem.
Davi, que estava no deserto, ouvira dizer que Saul viera atacá-lo. Não acreditou no boato e enviou espias ao sopé do monte, os quais confirmaram a notícia. “Merda”, ele pensou, e resolveu ir ele mesmo até lá para ver com que força Saul pretendia atacar dessa vez. Chegou ao acampamento, viu os três mil homens dormindo, e voltou para sua fortaleza natural no alto do monte. Acima das cavernas onde seus homens dormiam estavam as duas sentinelas do turno, Aimeleque, o heteu, e Abisai, irmão de Joabe (um sujeito que ainda será importante). Chamou-os:
— Ei! Saul está acampado lá embaixo!
— Eita! Veio pescar?
— No meio do deserto, pedaço de asno?
— Ah, é. Mas veio fazer o quê, então?
— Veio foder com a minha vida.
— Aí sim. Isso é mais a cara dele.
— Vou descer até lá para ver a situação mais de perto. Qual de vocês vai comigo?
— Eu vou.
— Muito bem, Abisai. Aimeleque, você dá conta do serviço sozinho?
— Mas é claro, majestade.
— JÁ FALEI PRA NÃO ME CHAMAR ASSIM!
— Epa, foi mal.
— Humpf. Vamos, Abisai.
Os dois desceram até onde o inimigo estava. Os soldados do rei dormiam um sono pesado, e os dois conseguiram chegar até o centro do acampamento, onde dormiam Saul e Abner. Saul dormia com sua lança cravada ao lado da cabeça. Ao ver situação tão propícia, Abisai cochicou no ouvido de Davi:
Deixa comigo, Davi.
— O quê?
— Javé colocou seu inimigo nas suas mãos. Com um golpe só eu atravesso o feladaputa e espeto ele na terra!
— Mais respeito, moleque! Esse homem é maluco, é mau-caráter, é filho-da-puta.
— Er… Só não entendi a parte do respeito, Davi.
— É que apesar de tudo isso ele foi escolhido por Deus para ser rei de Israel. Que Deus o mate quando bem entender, mas nós não faremos nada.
— Nada? Nada, nada?
— Bom, quase nada. Pega aí o jarro de água do rei, eu fico com a lança.

Os dois assim fizeram, e foram saindo do acampamento tão silenciosamente quanto entraram. Quando já estavam a uma distância segura, Davi voltou-se para o acampamento e gritou:
— ABNER! TÁ ME OUVINDO, CABRA SAFADO?
Abner acordou assustado, mas logo se recompôs e berrou de volta:
— QUEM É O DESGRAÇADO QUE VEM GRITAR AQUI, NO ACAMPAMENTO DO REI?
— Abner! — o negócio continuava na base da gritaria, mas eu é que não vou ficar escrevendo em caixa alta aqui — Você é homem ou não é? Acho que não, sua biba! Não dizem que você é o melhor soldado de Israel? Pois eu imagino como deve ser o pior! Seu único dever é proteger o rei, e você não dá conta nem disso! Você é um bosta, Abner! Você e todos esses soldadinhos de merda aí! Vão morrer todos por não protegerem direito o rei ungido por Javé!
— Ué, proteger do quê? De algum maluco berrador? Vai pra casa curar essa bebedeira, e deixa a gente dormir!
— Cala a boca e me escuta! Onde está a lança do rei, hein? E o jarro de água, cadê?
— Estão aqui, oras! Não estão, majestade?
— Claro que… Epa. Não estão não. Que negócio é esse? Ei, eu conheço essa voz. DAVI? É VOCÊ, MEU FILHO?
— Sim, senhor, sou eu! Por que é que o senhor continua a me perseguir? Isso já tá chato, majestade! Se foi Javé quem fez o senhor se voltar contra mim, ofereça um sacrifício a ele e está tudo certo. Nossa sorte é que temos um deus subornável. Agora, se outras pessoas fizeram isso, que a maldição de Deus caia sobre elas, que elas se fodam e que o meu pau cresça!
— Precisa mesmo, Davi! Depois daquilo que o Michelangelo fez…
— EU AINDA NÃO TERMINEI! O negócio é que, se o senhor continuar a me perseguir, serei forçado a fugir para outro país e adorar outros deuses. Por favor, senhor, não me deixe morrer longe da terra de Israel, que eu tanto amo! Por que o senhor continua perseguindo esta mísera pulga? Por que me caça como se eu fosse um pássaro selvagem? Ou um jumento bravo? Ou… Ou um… Ou um, sei lá, um camaleão pardo de patas amarelas? Ou mesmo um… Um…
— Ok, Davi, já entendi. Eu sei que errei. Volte, meu filho! Prometo que nunca mais lhe farei nenhum mal, porque esta noite você poupou minha vida mais uma vez. Eu tenho agido como um maluco!
— Grande novidade…
— O que disse, meu filho?
— Nada, nada. Só pensando alto. Continue, majestade.
— É isso. Eu cometi um grande erro. Perdoe-me, filho!
— Olha, senhor, aqui está sua lança. Mande algum de seus homens vir buscá-la. Eu vou voltar para o meu buraco. Mas lembre-se sempre de que hoje eu poupei sua vida. Que Javé poupe a minha também, continuando a me proteger como tem feito.
— Ah, meu filho, que Deus o abençoe! Você é um bom rapaz, e tudo o que fizer dará certo. Está ouvindo, Davi? Davi? DAVI! Caceta, foi embora…