Ontem eu comecei um diário. Sim, sim: peguei um caderno, botei a data lá em cima e comecei a escrever. É meio estranho isso de voltar a escrever no papel, parece que voltei no tempo de repente.
Bom, meus dias não são lá muito empolgantes, como vocês devem imaginar: desempregado e passando a maior parte do tempo em casa, nada de muito notável acontece. E, mesmo que aconteça, não vejo sentido em anotar essas coisas. Meu diário, embora recém-começado, já mostra a que veio: pensamentos, sentimentos, medos, planos. Acontecimentos? Nenhum.
Como conseqüência do diário, acho que vou conseguir o que venho tentando há tempos: deixar este blog mais impessoal. Sátira da Bíblia, um ou outro comentário sobre filmes e livros. E só. Eu sei que muita gente não vai gostar: há quem aprecie meus arroubos sentimentalóides. Eu até gosto de escrever coisas assim, mas saber que pessoas não muito agradáveis podem ler minhas confissões é um troço que me assusta um pouco.
É isso, meu povo: JMC de volta às origens.
Mês: julho 2004
Arrumando a casa
Vitor Hugo, meu amigo e advogado, me alertou para um probleminha: o PDF do Gênesis estava quase ilegível, tantas eram as sujeiras no meio do texto. Face a isso, e aproveitando que estou mesmo desempregado, resolvi padronizar os PDFs. O do Gênesis já está pronto, quem quiser pode pegá-lo aqui. Aviso quanto tiver terminado todos.
The Pianist e o estupro em forma de dança
Ontem assisti finalmente ao filme The Pianist, de Roman Polanski. Aquele mesmo, do cara que até os judeus chamam de narigudo. Não vou falar do filme: é excelente, se alguém aí ainda não viu, trate de ver. Só quero falar de uma cena.

Logo no começo do filme, dá-se o confinamento dos judeus a um gueto em Varsóvia. Acontece que uma rua da cidade corta o bairro judeu (“Por que temos uma rua de gentios passando pela nossa área? Por que eles não dão a volta? Os alemães se dizem inteligentes, mas sabe o que eu acho? Eu acho que são uns completos idiotas”). Quando há movimento, cancelas são fechadas, e os guardas cuidam para que nenhum judeu atravesse. Nessa cena, alguns músicos de rua tocam enquanto as pessoas esperam. Os guardas nazistas, entediados, começam a espezinhar um velho:
— O que há com você? Está com pressa? Faça alguma coisa, oras! Dance! A música é pra vocês, dance!
Os dois guardas se aproximam e obrigam o velho a dançar. Chamam outra pessoa para dançar com ele. Em pouco tempo, formam vários pares de judeus, que dançam para o divertimento dos guardas. A cena é revoltante pela dimensão da humilhação a que são expostas aquelas pessoas.
Vendo isso, lembrei-me desse post do Alexandre Soares Silva e meu comentário subseqüente por aqui. A pergunta que me veio à mente de imediato foi: Se não há nada de errado na dança, se ela é tão inocente quanto comer ou jogar xadrez, porque essa cena é tão horrível?
Falemos de eleições
Nah, cansei de política. Fico espantado, até meio escandalizado, quando lembro que um dia escrevi:
Que feio, Marcurélio, que feio… Só resolvi falar em política hoje porque vi um outdoor de campanha da Dona Marta. Dizia o outdoor: MARTA FAZ BEM FEITO. Agora, se eu fosse um cara maldoso, faria um comentário ferino. Algo como “Abílio Diniz que o diga…”.
Mas como sou bonzinho, calo-me.
Mais um livro
Não sei se vocês repararam, mas eu botei as sátiras dos livros da Bíblia em PDF numa página separada. Assim vocês podem ter a exata noção do que eu já fiz e do que ainda falta (e torcer para que eu, assustado pelo tamanho da coisa, desista logo). Vão lá, portanto, e baixem o PDF do primeiro livro de Samuel, que o segundo já vem aí.
Prontinho
Obrigado ao Ricardo Camata (tomou tanto no cu que ficou espertinho, né?) e à ao Muriel pela dica de substituição de quebras de linha por marcas de parágrafo. Vocês mudaram minha vida.
AAAAAAAAAAARGH!
Seguinte, povo: acabou o livro de I Samuel. O negócio é que eu estou fazendo aqui o PDF mas do jeito que está fica difícil. Querem ver? Façam aí uma experiência: peguem um capítulo bíblico e colem no Word. Viram a merda? A última linha de cada parágrafo fica expandida, ocupando todo o espaço disponível. Alguém aí sabe como evitar isso, ou como arrumar automaticamente? Ficar consertando uma a uma cansa…
A morte de Saul e de seus filhos
(I Samuel 31)
Davi estava muito ocupado matando amalequitas quando, longe dali, os filisteus atacaram Jezreel com força total e ordem de não fazer prisioneiros. Os israelitas não resistiram por muito tempo: saíram em debandada e acabaram cercados no monte Gilboa, onde foram massacrados. Tendo matado a maior parte dos soldados, os filisteus trataram logo de identificar a família real. Primeiro mataram os três príncipes: Abinadabe, Malquisua e Jônatas, o grande amigo do exilado Davi. Voltaram então a atenção para Saul, um pelotão de flecheiros saiu no encalço do rei. Sabendo que não tinha como escapar, Saul teve um inesperado surto de lucidez, falando para seu escudeiro:
— Rápido, rapaz! Tira sua espada e me atravessa com ela, para que eu não morra nas mãos desses filisteus de pinto pelancudo.
— Queisso, majestade? Erguer a mão contra o ungido de Deus?
— Vai logo, porra!
— Sei não, sei não…
— Puta que pariu! Tem coisas que a gente tem que fazer sozinho mesmo…
Dizendo isso, Saul desembainhou sua espada e lançou-se sobre ela, morendo antes de ser alcançado pelas flechas inimigas. Vendo que seu senhor jazia morto, o escudeiro resolveu acompanhá-lo e jogou-se contra sua própria espada, suicidando-se também.
Ao ver que o exército israelita fora dizimado, e que a família real não existia mais, o povo que morava além do vale de Jezreel e a leste do Jordão abandonou suas cidades, que foram imediatamente ocupadas pelos filisteus.
No dia seguinte, voltando ao monte Gilboa para despojar os mortos, os filisteus encontraram os cadáveres de Saul e seus filhos. Cortaram, então, a cabeça do rei e o despojaram de suas armas. Enviaram, em seguida, mesangeiros a toda a Filistia para espalharem a grande notícia. Depois levaram as armas do rei morto e a expuseram no templo de Astarote, e seu corpo decapitado foi pregado nos muros da cidade de Bete-Sã.
Ao saberem dessa humilhação final, os habitantes da cidade de Jabes, em Gileade, ficaram muito indignados. Todos se lembravam de quando Saul, então um rei ainda relutante, os ajudara contra os amonitas que invadiram sua cidade. Sentiam-se em dívida para com o rei morto, e resolveram resgatar seu corpo. Naquela mesma noite, alguns dos homens mais corajosos de Jabes-Gileade foram até Bete-Sã e tiraram de seus muros os corpos de Saul e seus filhos. Carregaram os cadáveres até Jabes, onde foram queimados e enterrados sob uma tamareira. Em sinal de luto pela morte da família real, jejuaram por sete dias.
A primeira experiência de Israel com a monarquia chegava ao fim da forma mais melancólica possível: com Saul e seus filhos mortos e tristemente enterrados, não havia sequer um herdeiro para o trono de uma nação dilapidada, sem exército nem moral. É de se imaginar que alguns israelitas pensavam na anexação à Filistia como solução natural. Os que mantiveram o orgulho, porém, acabaram provando ter razão: tempos de glória esperavam pelo povo de Javé.
Conselho de Titio Marcurélio
Olá, crianças. Hoje Titio Marcurélio foi extrair um siso. E o conselho de hoje é: se você é hipertenso, tome seu anti-hipertensivo todos os dias, de acordo com a recomendação médica. Se você não o fizer, pode acontecer de a anestesia não fazer efeito e você ter que arrancar um siso sentindo toda a dor do mundo. Isso sem falar na quantidade de sangue.
Tchau, crianças. Vou voltar pra cama, dormir mais um pouco e engolir mais sangue pra acordar com gosto de ferrugem na boca. O_
Davi derrota os amalequitas
(I Samuel 30)
Com a decisão de Aquis de mandar Davi de volta a Ziclague, Saul e Davi se tornaram mais opostos do que nunca: um era um rei aflito, perturbado pelas tenebrosas premonições do finado Samuel, sem nada a fazer a não ser esperar a derrota de Israel e sua própria morte; o outro era um homem feliz, livre do peso de combater os seus, sem que para isso precisasse acovardar-se, liderando seus homens leais de volta à paz de sua cidade. Enquanto Saul esperava em Jezreel pelo inevitável desfecho da guerra e de sua vida, Davi chegava a Ziclague pensando apenas em descansar e ficar com suas esposas.
O descanso, porém, teria que esperar: Ziclague estava em chamas. Os amalequitas haviam invadido a cidade, incendiando-a e levando cativos todos os que nela estavam, inclusive Ainoã e Abigail, mulheres de Davi. O desespero de ignorar o que acontecera a suas famílias foi demais mesmo para homens como eles, guerreiros forjados no deserto e nas montanhas de Israel: de repente eram seiscentos marmanjos chorando entre os destroços da cidade. Alguns dos soldados começaram a falar em apedrejar Davi, tamanho era seu desespero. Naquela situação difícil, Davi precisava pensar rápido para salvar sua pele e, se possível, remediar a situação. Resolveu apelar para um poder superior:
— Abiatar! Ô, Abiatar! Cadê você, porra?
— Aqui, Davi.
— Traz lá aquele seu cachecol com o Umim e o Turim.
— Er… A estola sacerdotal, com o Urim e o Tumim?
— Tanto faz, cacete! O cachecol das pedrinhas, rápido.
— Humpf. Tá aqui.
— Muito bem. Pergunta aí pra Javé se eu devo perseguir os mequetrefes que aprontaram esse furdunço.
— Xeu ver… SIIIIIIIM!
— Hum. Mas será que a gente consegue alcançar os putos?
— SIIIIIIIM!
— ENTÃO BORA FODER COM A VIDA DELES, CAMBADA!
Animados com a chancela divina, os homens se levantaram e acompanharam Davi. Saíram em marcha acelerada no rastro do inimigo. Correram tanto que duzentos dos homens não agüentavam mais dar um passo quando chegaram ao ribeiro de Besor. Davi deixou-os por ali e seguiu em frente com os quatrocentos soldados restantes. Num campo mais adiante, os soldados encontraram um homem todo escangalhado. Pelo sotaque e pela pele tisnada, dava toda pinta de ser egípcio. Levaram-no até Davi e lhe deram pão, água, figos e passas. O homem logo recobrou ânimo, e contou que estava sem comer nem beber havia três dias. Perguntado sobre sua identidade, informou que era mesmo egípcio e escravo de um amalequita.
— O patrão me abandonou porque eu fiquei doente. Também não era pra menos, né? Eu já tenho saúde fraca, e eles ainda inventam de sair fazendo baderna por todo canto, sem descansar.
— Eles? — perguntou Davi — Quem são eles? Que baderna?
— Os amalequitas, chefe. Veja você, atacamos os queretitas, depois Judá, as terras de Calebe, botamos fogo em Ziclague…
— Ah, então foram vocês!
— Bom, modo de dizer, né? Eles, os amalequitas. Eu sou só um escravo.
— Hum. Será que você conseguiria nos guiar até onde está essa tropa?
— Até consigo. Mas só se o senhor jurar que não vai me matar nem me entregar para o patrão.
— Tudo bem, tudo bem. Não te mato, não te entrego. Agora me leve até onde eles estão.
O escravo egípcio, então, guiou Davi e seus homens até o lugar onde estavam os amalequitas. Eram muitos, seu acampamento era enorme, e eles comemoravam com muita comida, bebida e música a grande quantidade de despojos que haviam tomado das terras atacadas. Aproveitando o despreparo e embriaguez dos amalequitas, Davi desceu para atacá-los. A batalha começou ao pôr-do-sol e só foi terminar no começo da tarde do dia seguinte. Ao final, com exceção de quatrocentos rapazes que fugiram montados em camelos, todos os amalequitas estavam mortos. A vitória fora relativamente fácil: embora estivessem em muito maior número, os amalequitas eram apenas arruaceiros do deserto, que se divertiam saqueando cidades e povoados desguarnecidos. Não tinham qualquer preparo militar, e portanto não eram páreo para os bem treinados israelitas exilados na Filistia. Tudo o que haviam saqueado foi recuperado intacto, e todas as pessoas raptadas estavam a salvo. Davi pegou suas esposas e tomou o caminho de volta a Ziclague, com seus quatrocentos soldados felizes com suas famílias, e com todo o gado recuperado, além do despojo.
Quando chegaram ao ribeiro de Besor, os duzentos homens que ali haviam ficado aproximaram-se. Davi cumprimentou-os normalmente, mas alguns de seus soldados, pouco mais avarentos, começaram a confabular:
— Esses caras nem foram com a gente, não merecem o despojo da batalha.
— É verdade. Cada um que pegue sua mulher e seus filhos e vá embora.
— E lambendo os beiços!
— Isso aí!
Davi, porém, acabara de adquirir moral com a tropa, e não pretendia perdê-la tão facilmente:
— Calem a boca! Javé nos deu essa vitória. Não há como concordar com o que vocês estão dizendo. O despojo será dividido em partes iguais, e quem ficou para trás com a bagagem receberá o mesmo tanto que aqueles que foram à batalha.
Mesmo resmungando, os homens obedeceram a Davi. No futuro, o costume de dividir o despojo de guerra por igual viria a ser lei em Israel.
De volta a Ziclague, Davi teve a idéia de adquirir algum capital político com a batalha que vencera: pegou parte do despojo e enviou aos líderes das cidades de Judá que lhe eram simpáticos (de Betel, Ramá, Jatir, Aroer, Sifmote, Estemoa, Racal, Horma, Borasã, Atace, Hebrom), com uma mensagem:
Aqui vai um pequeno presente. É parte do despojo que tiramos dos inimigos de Javé, nosso Deus.
D.
Davi não era besta: sabia que sua estada na Filistia não era para sempre, e que precisaria de todo o apoio que conseguisse no dia em que tivesse que retornar a Israel. Não sabia, porém, que algo que acontecera enquanto ele derrotava os amalequitas faria com que seu retorno à terra natal se desse muito antes do que esperava.
