Esse tal de Fifa 2004 é coisa do capeta. Não parei enquanto não fiz do São Paulo o campeão da Copa das Américas. Mas também, como resistir a um jogo tão real? Para vocês terem uma idéia: Luís Fabiano foi expulso logo no primeiro jogo, a defesa do Tricolor é uma bela porcaria e confia apenas nos milagres de Rogério Ceni. Real demais. Tanto que me trouxe uma contusão. De tanto controlar os jogadores com as setas, a velha tendinite voltou a dar o ar de sua graça.
E depois ainda dizem que eu não pratico esportes…

(I Samuel 22)
Davi estava numa situação daquelas: em Israel não podia ficar, com o rei em seus calcanhares; a Filistia estava descartada depois do episódio no palácio de Áquis, rei de Gate. Israel vivia em paz com Moabe, o que era uma alternativa mais atraente, ainda mais porque Davi era bisneto da moabita Rute. Ele considerou essa hipótese muito seriamente, mas teve que descartá-la logo. Isso porque no meio do caminho entre a Filistia e Moabe, quando pernoitava na caverna de Adulão, nas montanhas de Judá, foi surpreendido pela chegada de seus pais e seus irmãos.
— Como vocês me acharam aqui?
— Ah, Davi. As pessoas falam aqui e ali, há boatos por todo lado, acabamos te encontrando.
— Mas… MAS QUE MERDA! AGORA SAUL VAI ME ACHAR TAMBÉM!
— Vai nada, sossega.
— Como não???
— As pessoas que sabem do seu paradeiro são leais a você.
— “As pessoas”? Espero que sejam só vocês.
— Hum… Não. Tem também o pessoal lá fora.
— PESSOAL? QUE PESSOAL?
— Vai lá ver.
Davi botou a cabeça pra fora da caverna e levou um susto: quatrocentos homens estavam reunidos ali. Eram homens endividados, perseguidos, em dificuldades, procurados pela justiça. Vinham todos até ali para se apresentar a Davi.
— Hum. Então vocês estão comigo para o que der e vier?
— SIM, SENHOR DAVI! — responderam em uníssono.
— Então se ajeitem por aí, há cavernas para todo mundo.
— OBRIGADO, SENHOR DAVI!
— De nada.
— QUE BELEZA, SENHOR DAVI!
— Er… Ok, ok.
— AH, SENHOR DAVI, COMO O SENHOR É BOM PARA NÓS!
— Tá bom.
— SENHOR DAVI, CASO O SENHOR ESPIRRE: SAÚDE, VIU?
— PORRA! VÃO CAÇAR O QUE FAZER E PAREM DE ME ADULAR, CAMBADA DE PUXA-SACO!
— …
Já sabemos agora o porquê do nome da tal caverna: adulões não faltavam a Davi nessa ocasião.
Pois muito bem, o futuro rei já tinha seu exército. Não era grande coisa, mas para começar já estava bom. Sua preocupação agora era com a segurança da família. Sabia que se Saul o pegasse não ficaria contente em matar só a ele. Claro que não: seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, todos iriam comer capim pela raiz. Então Davi juntou a família e foi até Mispa, capital de Moabe, para falar com o rei daquele país. Pediu ao soberano que hospedasse sua família até que a situação melhorasse um pouco. Foi atendido em consideração a seus antepassados moabitas, então voltou à caverna de Adulão. Lá, porém, um certo profeta chamado Gade o aguardava.
— Davi, não fique entocado aqui feito uma toupeira. Javé ordena que você entre na terra de Judá.
— Ué, e por que Javé não vem falar comigo, em vez de ficar mandando recado?
— Olha, eu não sei de nada. Ele me deu a mensagem e eu entreguei; agora, se o senhor me dá licença, tenho outros serviços a fazer lá embaixo.
— Ah, claro. Pode ir.
Davi pensou no que o profeta lhe dissera. Descer daquela fortaleza natural era suicídio. Uma loucura que poderia custar sua vida. Mas, pensando bem, enfrentar Golias tinha sido uma loucura bem pior, e dera certo. Então chamou seus adulões e foram todos para o bosque de Herete.
Enquanto isso, Saul estava reunido com seus homens sob um arvoredo em Gibeá. Os boatos sobre a localização de Davi já haviam chegado até ele (quem é que segura os boatos?), que não via a hora de chegar à caverna de Adulão e pegar de surpresa seu inimigo. Enquanto descansava à sombra das árvores, falava com o povo da cidade que estava por ali:
— Ê, cambada de benjamitas filhos-da-puta! Então vocês acham que o filho de Jessé vai melhorar essa sua vidinha de merda, não é mesmo? Que vai dar terras a todos, empregos, educação, saneamento básico, a papagaiada toda. Não acham? Só assim se explica que vocês tenham conspirado contra mim e ocultado o que eu precisava saber. Meu filho, meu PRÓPRIO FILHO, andou burilando planos com aquele desgraçado do Davi, e alguém me disse alguma coisa? Não, claro que não! Ninguém tem dó de mim! Ninguém vê o quanto eu sofro!
Os benjamitas se entreolhavam, sem entender a crise de paranóia misturada com auto-indulgência do rei. No entanto, Doegue, o edomeu funcionário de Saul que vira Davi falando com o sacerdote estava por ali, e percebeu que era a hora certa para cair nas graças do rei:
— Majestade…
— Diga, Deogue.
— Doegue, majestade.
— FODA-SE! FALA LOGO!
— Então… Eu vi o Davi em Nobe. Ele foi falar com Aimeleque.
— O sacerdote?
— Esse mesmo. Aimeleque consultou a vontade de Deus por ele, depois lhe deu mantimentos e a espada de Golias.
— AH, DESGRAÇADO! Tragam esse Aimeleque até aqui IMEDIATAMENTE.
Alguns dos soldados saíram e voltaram pouco tempo depois trazendo o sacerdote e toda sua família.
— Aimeleque. Aimeleque… Você é filho do finado sacerdote Aitube, não?
— Sim, senhor.
— Ah, eu sabia. Conheci seu pai, um bom homem. E queria conversar com você, Aimeleque. E queria que você me ouvisse com atenção. Pode ser?
— Claro, majestade, claro.
— Muito bem, muito bem! Pois o negócio é o seguinte: passarinho me contou que você andou conspirando contra mim.
— Como é que…
— Não, não, deixa eu terminar: você e Davi, filho de Jessé, andaram mancomunados. Você deu a ele mantimentos e uma espada muito especial, e fez por ele uma consulta a Deus. É mentira, Aimeleque?
— Não. Sim. Digo. Veja bem, majestade. Veja bem. Que eu soubesse, Davi era o homem mais honrado de todo o reino. Digo, fora da família real, é claro, que idéia. Ele precisava de comida, então dei uns pães pra ele. Tudo pão velho, sabe? Dei a espada de Golias também, é verdade. Mas, puxa, o que eu ia fazer com uma espada? Eu, sacerdote? Agora, um homem de confiança do rei passa pelo Tabernáculo, pede comida e uma arma, como é que eu vou recusar. O senhor percebe? Não faria o mesmo no meu lugar?
— Hum. E a consulta?
— Consulta? Ah, claro. A consulta. Aquela consulta. Ué, é praxe a gente consultar a vontade de Deus sempre que pedem. Tem nada de mais. Nada de mais! Só uma consultazinha de rotina, coisa pouca!
— Sei, sei. Aimeleque?
— Sim, majestade?
— Estou aqui pensando. Acho que você vai morrer.
— COMO?
— É. Vai morrer. Você e toda sua família. É, acho que é a melhor saída. Nada pessoal, você não me leve a mal, por favor.
— MAS PELO AMOR DE DEUS, MAJESTADE!
— Oras, não faça disso um episódio mais constrangedor do que já é. HOMENS! Matem os sacerdotes!
No entanto, algo aconteceu para enfurecer mais ainda ao rei: seus soldados se recusavam a matar os sacerdotes de Javé. O receio era justificável: embora o Deus israelita não se manifestasse mais como antigamente, não custava nada lembrar das histórias da época em que sua ira estava no auge, e tomar certas cautelas que, assim como caldo de galinha e dinheiro no bolso, não fariam mal a ninguém.
Vendo que os homens de Saul se recusavam a cumprir uma ordem do rei, Aimeleque sentiu um alívio imenso. Não durou muito, porém. Saul, como creio que já foi dito, era louco mas de bobo não tinha nada. Percebendo quem ali estava doidinho para cumprir uma ordem sua, não importava qual fosse, repetiu a ordem, dessa vez para a pessoa certa:
— DOEGUE! Mate os sacerdotes.
Feliz da vida, Doegue pegou sua espada e degolou Aimeleque e toda sua família, oitenta e cinco homens ao todo. Não contente com isso, e querendo dar ao rei uma demonstração inquestionável de sua lealdade, juntou alguns homens e foi até Nobe, cidade dos sacerdotes, matando ali tudo o que respirasse. Um doce, esse tal Doegue.
Um dos filhos de Aimeleque, porém, conseguiu escapar da carnificina, e correu para juntar-se a Davi no bosque de Herete. Contou a ele sobre o massacre dos sacerdotes, e pediu proteção.
— Isso que você está me contando é muito sério, Abiatar — era esse o nome do rapaz. — Eu tenho culpa do que aconteceu. Devia ter visto Doegue no Tabernáculo quando estive lá, e matado o filho da puta. Mas agora é tarde para lamentar. O que importa é que agora estamos do mesmo lado: as mesmas pessoas que desejam minha morte agora desejam também a sua. Fique aqui comigo, e estará a salvo.
Abiatar foi só um dos que se juntaram a Davi: seu grupo aumentava a cada dia que passava. No entanto, tendo o filho de Aimeleque consigo, Davi tinha um trunfo sobre Saul: agora o único representante da religião oficial estava a seu lado, o que seria crucial em breve.

Uma sugestão para você, querido leitor: se você, assim como eu, é um alienado sem-vergonha, tenha sempre à mão uma ex-namorada antenada. Eu tenho uma, a Bárbara(1), e não me arrependo. Graças a ela conheci, entre outras muitas coisas, a banda Numismata, minha mais nova paixão musical. Os caras fazem um samba de responsabilidade, nada daquela coisa pasteurizada, requentada e bi-destilada dos manés da Trama. Além disso, conseguem fazer mistura com outros ritmos sem que nada soe pretensioso ou chato.

Está pensando em ouvir algo novo e de excelente qualidade? O CD do Numismata, Brazilians On The Moon, está à venda no Submarino. Recomendo com paixão e fúria. Uma letra só para você sentir a força dos caras:
Indulgente(2)
Se a felicidade viesse num samba de roda
Num mote doído fingindo ser maracatu
Tropeçando em poesia
Como quem tropeçasse num rastro a procura de amor
Um choro contido, calado no fundo do peito
Implorando o respeito daquela que então desdenhou
A solidão não poderia
Conter a progressão de alegria com acorde menor.
Quando chora o meu pandeiro
Ah, ninguém cala o meu sofrer.
Seu sofrer é passageiro
Ah, em matéria de dor eu sou mais eu.

Se a felicidade calasse a servil melodia
E a invadisse de filosofia de botequim
Se imbuísse meus dedos cansados de diplomacia
Com o vigor das palavras que então nasceriam de mim
Se preenchesse meu peito vazio de sutil ironia
E, sutil, revirasse do avesso o que dou valor
A solidão não poderia
Conter a progressão de alegria com acorde menor.

(1) Não, eu não botei antenas na Bárbara, ela já era assim
(2) Fui ouvindo a música e transcrevendo a letra. Como sou um zé mané semi-surdo, é claro que está cheia de erros.

Aconteceu há coisa de três ou quatro anos. Depois de muito tempo, finalmente meu pai botou a mão no bolso para comprar um sofá novo. Não era para menos: o antigo estava há séculos na sala, e já conhecia mais bundas que o J.R. Duran. Enfim, o sofá novo foi comprado e o antigo ficou atravancando o corredor.
Aqui cabe uma explicação sobre meus pais. Minha idéia de casal ideal foi sempre a de HOMEM SONHADOR + MULHER PRÁTICA. Isso, obviamente, porque é como são Seu Lindauro e Dona Ana. Meu pai é o cara que comprou um violão para aprender a tocar UMA música, tocá-la para a namorada e nunca mais voltar a encostar no instrumento (refiro-me ao violão, claro, não à namorada). Minha mãe é a mulher que decidiu que era necessário comprar cortinas. Pois então.
Sofá novo na sala, sofá velho no corredor. Dona Ana, cansada daquela situação, resolveu intimar o velho:
— Lindauro, a gente precisa dar um fim nesse sofá.
— Hum? Sofá?
— É, LINDAURO! Esse sofá velho está atrapalhando!
— Tá nada, tá nada…
— Claro que tá! Precisa dar um fim nesse trambolho.
— Calma, calma. Depois a gente vê isso.
— Depois, quando? Eu te conheço, isso vai ficar um ano aí.
— Deus proverá!
— Que “Deus proverá” o quê! Deixa Deus fora disso, que ele tem mais o que fazer.
— Calma, calma… Deus proverá!
— Lindauro, eu já disse que…
Nesse momento minha mãe foi interrompida pelo toque da campainha. BLIM BLOM! Foi atender. Eram dois bêbados. Com eles, uma carroça puxada por um cavalo dos tempos bíblicos.
— Pois não?
— Ô, dona. Será que a senhora não teria aí cinco reais?
— Cinco reais? Pra quê?
— É pra gente consertar a roda da carroça. Tá quebrada, o pobre do cavalo tá que não se agüenta…
— Não tenho não.
— Tudo bem. Obrigado, dona.
Minha mãe fechou a janela e voltou para a cozinha, disposta a retomar a discussão:
— Então, Lindauro, eu ia dizendo…
— Quem era?
— Hã?
— Quem tocou a campainha?
— Ah! Dois bêbados querendo dinheiro pra consertar uma carroça.
— Carroça?
— É, Lindauro! Carroça! Por quê?
— Rê-rêê…
Depois de dar sua risada clássica (quem já ouviu não esquece), seu Lindauro foi até o portão e chamou os pudins-de-pinga.
— Ô, rapaz!
— Sim sinhô…
— Vocês disseram que querem cinco reais para consertar o veículo? — esse é meu velho, com seu português castiço.
— Sim sinhô…
— Pois eu te dou DEZ reais para você levar embora um sofá que está atravancando a passagem aqui em casa.
— Opa!
Então meu pai — um homem que não acredita em assaltos nem nada disso — abriu o portão e convidou os dois cachaceiros a entrar. “Com licença, com licença”, e foram entrando. Quando viram o sofá, ficaram animados:
— Ô, dotô! Esse sofá aí tá novinho!
— Verdade! Nem vamo vender pro ferro-velho, esse aí vai lá pra casa. Ê, beleza! Quanto o senhor quer nele mesmo?
— Não quero nada não. Dou dez reais para vocês levarem ele embora.
— Ê, que beleza! Isso é coisa de Deus, dotô!
— É, eu sei…
Os dois carregaram o sofá para fora (cambaleando que só o capeta) e o ajustaram em cima da carroça, com ajuda de seu Lindauro. Amarraram o estofado do jeito que deu e lá foram, felizes com o móvel novo. Do portão, minha mãe espiava apreensiva o sofá que ia embora em transporte tão precário.
— Lindauro, eles vão deixar o sofá cair.
— Ué! E eu com isso?
Dia seguinte, seis da manhã, vou até a esquina para esperar meu ônibus e o que vejo? Sim, sim: o velho sofá do outro lado da rua, encostado ao muro de um terreno baldio. Cheguei ao trabalho e liguei pra casa:
— Mãe, viu o sofá?
— Que sofá???
— O sofá velho. Tá lá na frente do terreno baldio.
— AIMEUDEUS!
À noite, quando cheguei em casa, fiquei sabendo da conversa do casal:
— LINDAURO DO CÉU!
— Hum?
— O sofá!
— Que sofá?
— O sofá! Tá jogado na calçada, lá na esquina!
— Que sofá, Ana?
— “Que sofá”… O NOSSO sofá! QUE VERGONHA!
— Eu, hein… O NOSSO sofá está aqui, estou sentado nele. Aquele lá é dos bêbados, eles que passem vergonha. Rê-rêêê…
 
Rê-rêêê, seu Lindauro. Feliz aniversário, meu velho. Quem tem um pai assim precisa mais de nada.

Muito bem, é a última vez que eu falo sobre o churrasco. Eis a foto que me mostra brincando com as crianças:
Marco Auréolo
Nesse momento o Gui e a Chiara estavam brigando, então eu fui conversar com eles, que acabaram fazendo as pazes. Para minha surpresa, saí com uma auréola na foto (Vou até mudar meu nome pra Marco AURÉOLO. Não? Tá, tá…). Não acredito nessas coisas, portanto deve ser mera falha na câmera. Sabe como são essas câmeras digitais. Enfim, mas o fato é que o que ocorreu no churrasco, como vocês podem ver, não tem nada a ver com o que o véio fiodaputa disse, nem com aquilo que foi sugerido no blog da aniversariante (incluindo até uma montagem de muito mau gosto com essa mesma foto).
Espero ter esclarecido de vez esse assunto, pois não voltarei mais a ele. Humpf.

Faz tempo que eu não torturo vossas senhorias com minha voz fanha e meu violão arranhado, né? Pois então, hoje resolvi gravar uma canção e compartilhá-la com os leitores. Sofri muito para gravar a faixa de voz. Isso porque na terceira vez em que gravei a voz saiu límpida, afinada, uma coisa. Nem parecia minha voz. Só que meu microfone resolveu comportar-se como um filho-da-puta, e a faixa ficou repleta de chiados. Tentei repetir o mesmo desempenho, mas sem sucesso. Então sinto muito, vocês vão ouvir aquela voz que já conhecem mesmo. Apresento, portanto, de Chico Buarque de Hollanda:
MARCO AURÉLIO – DESALENTO
(botão direito, ‘salvar como’ / ~2,8Mb)

No mesmo dia da peregrinação pelos lugares sagrados de Santana, peguei o ônibus para voltar para casa e encontrei uma velha amiga.
— Renata!
— Marco Aurélio!
— Há quanto tempo!
— Pois é!
Às quatro exclamações que iniciam a conversa de dois velhos conhecidos desde que o mundo é mundo seguiu-se uma conversa bastante agradável sobre os velhos tempos. Velhos mesmo.
Minha história com Renata começou quando ambos tínhamos sete anos de idade, e da pior forma possível: cansada de minha tagarelice (eu sou um sujeito calado, mas uma vez que começo a falar não paro nunca mais), ela empurrou sua carteira, espremendo minha mão contra o encosto da cadeira em que estava sentado. Doeu muito, mas desde antes daquela época eu já procurava seguir a regra de nunca chorar na frente de uma mulher, haja o que houver. Então apenas engoli o choro, peguei minha tesourinha e picotei a linda toalha de plástico com que a caprichosa Renata cobria sua carteira. Ela abriu um berreiro surpreendentemente alto. Assustado, e sabendo que se não fizesse nada acabaria como único castigado, comecei a chorar mais alto que ela. A professora nem quis saber do que se tratava: botou os dois para fora da sala. Sozinhos no corredor era constrangedor demais continuar chorando, então ficamos calados e de cabeça baixa. A professora abriu a porta e nos deixou voltar, sem uma palavra. Sábia Dona Juraci.
Depois disso estudamos em salas e horários diferentes durante alguns anos. Voltamos a nos encontrar na quinta série, e foi aí que a porca, como se diz, torceu o rabo: Renata estava linda. Os cabelos lisos e pretos caíam até o meio das costas. A pele muito branca, em contraste com as sardas, destacavam a beleza de seu rosto. O porte altivo fazia a gente pensar num animal selvagem despreocupado. Desnecessário dizer que me apaixonei furiosamente. Olhando para ela agora, quase vinte anos depois, ainda conseguia ver um pouco da menina que ela fora. Os cabelos estavam mais claros, mas ainda compridos e lisos. As sardas continuavam salpicando o rosto.
— Tá vindo do trabalho?
— Nah, parei com esse negócio de trabalhar. Me aposentei.
— Como???
— Trabalhei mais de dez anos com esse negócio de informática e coisa e tal. Agora encasquetei que quero ser… Ah, você vai rir da minha cara.
— Fala, oras.
— Quero ser escritor.
— Que bom! Finalmente, né? Você sempre escreveu tão bem.
— É? Não me lembro disso não. Lembro que era bom em matemática, mas não de escrever.
— Ah, Marco Aurélio, faça-me o favor! Não era você que até lia dicionário?
— PUTA QUE PARIU! — todos os olhos se voltaram para mim nessa hora, então baixei um pouco o tom — Achei que ninguém mais lembrasse disso.
— Como é que a gente esquece um negócio desses?
— É verdade… Mas e você, anda fazendo o quê?
— Tô trabalhando numa escola.
— Merendeira?
— ¬¬
— FALA!
— Professora de Educação Física.
— Ah, que legal! Sua cara!
— É???
— Claro! Você era a aluna mais elegante nas aulas de Educação Física.
— Elegante?
— É. Os cabelos presos num rabo-de-cavalo, a camiseta branquíssima arrumadinha por dentro da calça Adidas, os tênis também muito brancos. E você corria, jogava vôlei e handebol, e nunca suava. No máximo reluzia um pouco.
— Nossa! Você lembra de muita coisa…
— Eu observei você por muito tempo naquela época.
— É, eu lembro.
Não foi muito tempo, na verdade. Dois anos, pouco mais ou menos do que isso. Mas eu me lembro que então um ano era um tempo longuíssimo. Hoje os anos se acumulam um sobre os outros e eu não consigo acompanhar sua velocidade cada vez maior.
— E tem visto alguém daquele pessoal? — outra frase-chave para tais encontros. “Aquele pessoal” nesse caso era um termo vago para definir um grupo que inclui eventualmente todo mundo que estudou na Escola Municipal de Primeiro Grau “Amadeu Amaral” (Entra burro, sai animal) de 1982 a 1989.
— Ah, faz tempo que não vejo ninguém. Encontrei a Moniquinha há uns tempos, lembra?
— Sim. Fui apaixonado por ela logo depois de… Bom, você sabe.
— É, é verdade. Então, tá casada.
— Coitado do indivíduo que desposou aquela maluca.
— Hehehehe, concordo. Não sei o que você viu nela.
— Eu tinha catorze anos, Renata. Pega leve.
— Tá, vai.
— E você?
— Eu o quê?
— Casou?
— Eu não. E você?
— Também não. Mas por motivos ideológicos.
— Como assim?
— Sou contra casamento, noivado, namoro, compromisso, essas coisas.
— E é a favor de quê?
— Putaria, ué.
— Bela ideologia… Ah, lembrei! Encontrei o Alexandre dia desses. Parece que ele e a Lilian montaram uma agência de turismo.
— Porra, saudade danada daqueles dois! Houve uma época em que eu os encontrava sempre no metrô. Nunca mais. Eles se mudaram daqui?
— Parece que sim.
Alexandre foi meu melhor amigo entre os onze e os catorze anos. Quando tínhamos treze, ele veio me fazer uma confidência:
— Cara, tô apaixonado pela Renata.
Eu tive que me segurar para não falar um “Eu também, caralho”. Em vez disso falei “Puxa, que coisa” e mudei de assunto. Dias depois ele veio falar comigo novamente. Estava um caco.
— Fui falar com ela, Marco.
— Com ela?
— A Renata, porra!
— Ah. Sim. Ela. E aí?
— Ela me deu o fora, cara. Pô.
Era visível que ele se continha para não chorar. Naquele momento em que vi meu amigo sofrendo tanto, Renata evaporou-se de minha mente como que por magia. Ela podia me fazer sofrer o quanto quisesse. Mas fazer o mesmo com o Alexandre era um pouco demais.
— Olha, a gente pegou na conversa e eu quase que passo do ponto.
— Nós já passamos do ponto faz tempo, Renata.
— Ah! Marco Aurélio, o Melancólico. Não muda, né?
— Que graça teria?
— Nenhuma.
Ela apertou a campainha do ônibus, e antes de ir para a porta de trás, encerrou a conversa conforme a regra:
— Precisamos nos ver mais.
— Claro.
Claro. E é claro que não trocamos números de telefone, endereços de e-mail nem nada. Eu sei onde ela mora, ela sabe onde eu moro. Mas não vamos nos visitar. Certas histórias devem permanecer no passado.