Meses depois, ao saltar do bonde de burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe pediu um dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu a caixa completa à menina achando que aquele gesto o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um tapinha no ombro.
— Eram para um amor que foi para o caralho — segredou-lhe.

(Gabriel Garcia Márquez – O Amor Nos Tempos Do Cólera)

Mais cedo ou mais tarde todos os amores vão para o caralho. Mesmo os mais duradouros, os mais resistentes às intempéries, acabam esbarrando na muralha insensível da morte. E esses são raríssimos: a maior parte se esvai em algum ponto no meio do caminho, então temos duas pessoas que se entreolham e, constrangidas pela presença uma da outra, perguntam-se: cadê?
Eu mesmo, a duas semanas de completar 29 anos, tenho cá comigo uma cota respeitável de nichos vazios outrora habitados por amores, os quais — que dúvida? — foram para o caralho. Amores que vivi por muito tempo sem que a contraparte sequer desconfiasse, amores que foram frustrados pelo medo ou pela baixa auto-estima de um lado ou de outro, e até mesmo um amor que compartilhei por anos, único caso de relativo sucesso nessa fragorosa sucessão de fracassos.
Para esses amores frustrados guardei aqui meus bombons, assim como o desafortunado Florentino Ariza. Não são bombons de verdade, é claro: seria impossível, nesses tempos em que o prazo de validade nas embalagens é levado tão a sério. Falo das palavras que guardo esperando quem as mereça. Apesar de tantos amores de pouca sorte, ainda acredito que tais palavras serão o Abre-te Sésamo para algum coração que anda por aí tão fechado e perdido quanto o meu.
Enquanto não encontro serventia para minhas palavras (e não há nenhuma musa que as anime), vou adestrando as pobrezinhas aqui e ali, escrevendo coisas que pretendo engraçadas, mas sempre deixando entrever a melancolia que as alimenta. E assim as palavras exercitam-se, esperando ansiosas pelo dia em que cumprirão seu propósito de fazer brilhar algumum par de olhos. Outras palavras fizeram um dia brilhar outros olhos. Olhos felinos, oceânicos, noturnos. Que olhos virão agora? Não sei, e mal posso esperar para encontrá-los. Mas não sou tão estúpido quanto pareço: sei que meu estoque de bombons não é infinito, então resolvi ser avaro com os poucos que me restam. Talvez os leve comigo para a sepultura, tão frustrados quanto eu. Não penso nisso, porém: nutro ainda a esperança. Esperança de encontrar o amor que só vá para o caralho junto comigo.

Assisti Kill Bill, fiquei fascinado com o filme e decidi que não agüentaria esperar até outubro para assistir à continuação. Sendo assim, lá fui eu abrir Kazaa, Soulseek, E-mule e o caralho a quatro para caçar o Kill Bill – vol.2. Quem conhece o maravilhoso mundo do peer to peer sabe como é: vários arquivos são encontrados e você fica feliz da vida. E então começa a arrancar cabelos (caso os tenha) ao ver todo arquivo que tenta baixar como “Remotely queued” ou “Need more sources for download” ou “Your mom is sucking Satan’s cock in Hell”.
Fiquei nesse sofrimento durante dias, até que enfim encontrei um arquivo promissor. Tinha 650Mb. Começou baixando a 3,5 kilobits por segundo, baixou para 0,5, depois subiu para incríveis 45, depois estabilizou em 19. Nesse vai e vem, continuava lá firme e forte enquanto outros downloads eram abortados. Eu torcia — “Vamos lá, você consegue!” — enquanto meu pobre micro, já velho e cansado, reclamava das mais de 24 horas ligado direto. Eu não desistiria tão fácil, porém. E foi graças à minha persistência que, depois de quase dois dias ininterruptos, o download terminou e eu pude enfim assistir a essa maravilha:

Jesus, eu sou um merda…