Os cães de guarda de Jeová estão voltando aos poucos. Sinto muito, meus caros leitores, mas acho que terei que reaplicar a aprovação prévia de comentários por aqui.
Mas só quando meu Speedy voltar. Merda.
Mês: maio 2004
Vida de pobre
Cá estou eu, insone, fodido e desempregado, acessando a internet às três da manhã através de linha discada. E enquanto passo por tal provação, penso nos milhares de miseráveis das ruas de São Paulo. Como é que eles conseguem ter paciência com acesso dial up, meu Deus??? O cara passa o dia arrastando uma carroça cheia de papelão, ou vendendo balas no semáforo, ou exibindo suas feridas sórdidas na Rua Direita esperando que seu sofrimento lhe traga esmolas despertando a compaixão dos transeuntes, ou simplesmente assaltando os bacanas na Praça da Sé. Como se não bastasse todo esse suplício, chega em casa e tem que esperar que seu modem o conecte ao provedor para enfim poder ler seus e-mails, postar em seu blog, navegar pelo Orkut. Vida difícil, a dos pobres. Amanhã mesmo eu começo a contribuir com alguma instituição de auxílio aos carentes. Antes, porém, vou ligar lá na Telefonica para cancelar o cancelamento do meu Speedy. Credo.
Botem a mão no bolso, seus muquiranas dos infernos!
Dia 15 é meu aniversário e eu quero presentes. Oras. Querem uma ajuda? Aqui vai:
Eu podia estar roubando, mas estou pedindo. Por enquanto.
O Código Da Vinci
Influenciado por três das pessoas que eu mais admiro por sua inteligência e cultura resolvi tirar 39 reais da carteira e conferir Código Da Vinci, livro de Dan Brown. Li apenas 25 páginas até agora, então é cedo para falar alguma coisa. Só espero que em algum momento o enredo supere as deficiências da prosa do autor.
Saul continua infernizando a vida de Davi
(I Samuel 19)
— Maldito seja Davi! MALDITO! O filho da puta parece que tem o corpo fechado. Mas eu vou matar o desgraçado, ah, se vou! E vocês vão me ajudar nisso, estão me ouvindo?
Andando de um lado para outro diante de seu trono, esbravejando e soltando perdigotos enquanto falava, Saul dirigia-se a seus oficiais e a Jônatas. Eles ouviam calados, sabendo que qualquer um que ousasse fazer um aparte corria o risco de terminar seus dias espetado na parede pela lança que Saul brandia na mão direita. Ouviram tudo calados, e calados saíram. Jônatas, porém, correu para avisar o amigo:
— Davi, meu pai quer te matar.
— Ah, não me diga! Agora me conte uma novidade, Jônatas.
— Não, não. Agora o negócio é mais sério. Antes ele tentava disfarçar, agora não: chamou a mim e aos oficiais e pediu sua cabeça.
— Vixe. Tá braba, a coisa.
— Muito braba.
— Mas e então? O que eu faço? Fujo?
— Não, ainda não. O povão gosta de você. Trate de se esconder em algum lugar até amanhã cedo. Eu vou falar com meu pai, tentar fazer o velho mudar de idéia. Depois te conto o resultado.
— Boa idéia.
No dia seguinte, então, Davi ficou escondido enquanto Jônatas falava com Saul. Deu sorte de pegar o pai num bom dia, o que já era meio caminho andado.
— Ô, pai. Por que você odeia tanto o Davi?
— POR QUÊ? ORAS, POR QUÊ! PORQUE ELE… ELE… Er.. Ele…
— Tá vendo? O senhor nem sabe!
— ELE AMEAÇA O TRONO, JÔNATAS! O TRONO QUE DEVE SER SEU QUANDO EU MORRER!
— Não fala bobagem, pai. Davi nem pensa nisso, te garanto.
— Hum.
— Ele é um herói nacional, velho.
— Velho é teu passado.
— Tá, desculpa. Mas ele é um herói mesmo, não é? Arriscou a vida enfrentando o Golias, lembra? Ninguém teve coragem de encarar o gigantão, e o danado pegou uma funda, umas pedrinhas e foi lá. E o senhor mesmo ficou contente na ocasião, lembra? Então por que matar um homem que não só é inocente como ainda ajuda na estabilidade do reino?
— Hum. É, você tem razão.
— Tenho? Então o senhor não vai mais perseguir o Davi?
— Juro por Deus.
— Então tá.
Jônatas saiu dali e foi contar para Davi o que havia ocorrido. Levou o amigo à presença do pai e assistiu, feliz, à reconciliação dos dois. Davi voltou ao palácio com sua harpa e empregou-se novamente no serviço do rei. Tudo muito bom, tudo muito bem.
A harmonia não duraria muito, porém: no primeiro ataque um pouco mais sério que teve, Saul jogou sua lança na direção de Davi. Terceira vez que ele fazia isso. O rapaz já esperava e, ligeiro que só, desviou-se da lança e saiu correndo, dessa vez jurando a si mesmo que não pisaria mais no palácio daquele rei maluco. Tudo bem o cara ser bipolar, mas aquilo já era demais.
Na mesma noite, mandando às favas seu juramento solene, Saul enviou alguns homens para ficarem de tocaia na casa de Davi. A ordem era trazê-lo como prisioneiro, para que fosse executado na manhã seguinte. Os homens saíram e ficaram rodeando a casa. Mical, porém, percebeu a movimentação estranha e avisou ao marido:
— Davi, melhor você fugir. Tem uns homens aí fora, e tenho certeza que foram mandados pelo meu pai para matarem você.
Davi nem discutiu: conhecia o bom senso da mulher tanto quanto a loucura do sogro. Com a ajuda da esposa, desceu por uma janela nos fundos da casa. Com Davi já a salvo, Mical não perdeu tempo: pegou uma estátua e a colocou deitada na cama, com um pedaço de pele de cabra tingida de vermelho na cabeça. Cobriu o arranjo com uma capa e viu que estava convincente. Foi bem a tempo: mal saiu do quarto, ouviu batidas na porta da frente. Batidas secas, com o punho, coisa de polícia desde sempre. Foi antender com a maior cara de inocente do mundo:
— Pois não?
— Temos ordem de Sua Majestade para fazer a averiguação aqui do recinto.
— Fazer o quê?
— A averiguação da residência, madame. A senhora não obstrua o trabalho da polícia, positivo?
— Não estou obstruindo nada. Só queria saber a que vem isso a esta hora da noite.
— Viemos enquadrar o elemento Davi, Filho de Jessé de Belém, positivo?
— Positivo é o cacete. Eu sou filha do rei, tão me ouvindo? Voltem para suas tocas.
— Negativo, madame. Temos ordem de só retornar acompanhados do elemento Davi, Filho de Jes…
— Tá, tá. Mas acontece que ele tá doente.
— Ah. Hum. Então o elemento encontra-se enfermo?
— Foi o que eu disse.
— Positivo, positivo… Seria o caso de encaminhar o meliante ao nosocômio?
— Não é necessário.
— Positivo, madame.
Os agentes voltaram para o palácio com a notícia:
— Majestade, o meliante encontra-se acometido de enfermidade, o que nos impede de enquadrá-lo de acordo com o artigo 3, parágrafo nono do Código Penal Israelita.
— Hein?
— Davi tá doente.
— E daí???
— E daí que, de acordo com o artigo três, parágr…
— NÃO ME VENHA COM ESSE PAPO DE POLÍCIA!
— Então. A gente não pôde trazer ele.
— Porque está doente?
— Isso.
— QUE SE FODA! TRAGAM AQUELE FILHO DA PUTA NUMA MACA, SE NECESSÁRIO! Ah, querem saber? Vou com vocês.
Os agentes deram de ombros e voltaram à casa de Davi, dessa vez acompanhados pelo rei. Bateram à porta e Mical gritou lá de dentro, impaciente:
— Quem é?
— PULIÇA!
— Mas de novo, diabo? Eu já não disse que meu marido está doente?
— Positivo, madame. Mas o rei nos deu ordem para levar o elemento de qualquer maneira.
— MAS EU JÁ FALEI, ELE TÁ DOENTE! DE CAMA! NÃO PODE SE LEV…
— Mical?
— Pai? É você, pai?
— Sou eu, minha filha. Abre a porta pro papai, abre.
Mical conhecia aquela voz. A aparente doçura escondia a iminência de uma crise de fúria. Não achava muito bom enfrentar o pai, então abriu a porta.
— Muito bem, filhinha. Onde é que está meu genro?
— L-lá em cima. Na cama.
Saul subiu esfregando as mãos de antecipação, com os homens atrás dele. Imaginem vocês o ódio dele quando puxou a coberta gritando “ARRÁ!” e viu a estátua na cama.
— MICAL!
— Sim, pai?
— QUE PALHAÇADA É ESSA? POR QUE VOCÊ ME ENGANOU, DESGRAÇADA?
— Ele falou que ia me matar se eu não o ajudasse a fugir, pai!
— FILHO DA PUTA! Estão vendo? O desgraçado é capaz de matar até a própria esposa. E esse povinho aí o considera um herói. HERÓI MINHA BUNDA!
Enquanto a confusão toda acontecia, Davi já estava longe. Em Ramá, mais precisamente. Por que Ramá? Porque era lá que ele tinha seu aliado mais importante, o único capaz de impor sua vontade a Saul. Encontrou-se meio clandestinamente com Samuel, e contou ao velho profeta tudo o que lhe tinha acontecido. Samuel percebeu que o assunto era sério, e levou Davi para Naiote, a Casa dos Profetas.
Samuel achava que Naiote era um lugar seguro. Nem tanto: Saul tinha espiões espalhados por todo canto, e poucos dias depois ficou sabendo do paradeiro de Davi. Chamou alguns de seus homens e deu a ordem:
— Davi está na Casa dos Profetas, em Ramá. Vão buscá-lo.
— Positivo e operante, majestade.
Os agentes foram para Ramá, informaram-se e logo ficaram sabendo onde era a tal Casa. Quando chegaram, porém, viram um bando de profetas, com Samuel à frente deles. Estavam profetizando, o que significa — se vocês não se lembram — que cantavam, gritavam, dançavam, davam pulos, enfim, agiam como malucos. O Espírito de Deus se apossou dos agentes, que começaram eles também a profetizar alegremente no meio dos outros.
Os espiões fizeram chegar a mensagem preocupante a Saul: os agentes enviados para prender Davi haviam endoidado. O rei não se deixou abalar e mandou outros homens a Ramá. Esses também ficaram por lá, profetizando, assim como o terceiro grupo. Emputecido com a loucura contagiosa de Naiote, Saul decidiu ir até lá pessoalmente. Maluco já era, considerava-se vacinado contra a loucura alheia. Estava enganado, porém: mal entrou em Ramá, começou a se sentir estranho. Até aí, nada de mais: sentia-se estranho com freqüência. Só que dessa vez era diferente. Em vez de ter vontade de espetar pessoas na parede com sua lança, sentia vontade de sair dançando, saltitando e lançando pétalas de flores para o ar. Eis a diferença entre a loucura divina e a diabólica: esta é macha pra diabo, aquela é divinamente gay.
O povo olhava, estarrecido, seu rei saltitando e cantando pelas ruas de Ramá. Quando chegou à Casa dos Profetas, tirou toda a roupa e ficou profetizando na frente de Samuel. Passou o dia e a noite deitado no chão, nu e profetizando. Os outros profetas queriam dormir, mas não tinham coragem de interromper os devaneios do rei.
Escondido num canto, Davi assistia à cena sem entender nada: o rei de Israel e seu mais temível inimigo jazia no chão, pelado, cantando alto e batendo palmas. Seria o fim das perseguições? Ele duvidava. E tinha razão.
O amor nos tempos do cólera
Numa mesa da praça de alimentação do Shopping Penha, terminei hoje de ler O amor nos tempos do cólera, do véio Gabo. Fechei o livro com aquela tristeza que sempre me acomete quando uma boa leitura chega ao final. E nesse caso era mais que uma boa leitura: excelente, excepcional, coisa de doido. Como pode um filho-da-puta daquele escrever uma história tão bonita? Hein? Como pode?
Imagino que Gabriel Garcia Márquez se sinta muito triste e sozinho no mundo. Com tanta gente por aí querendo mostrar a crueza da vida real em cores vivas, Gabo deve sentir-se como o último dos estegossauros, com sua prosa lírica e toda permeada de beleza. Eu leio o que ele escreve e sinto o alívio de não sentir a porrada, o soco no estômago que parece ser o que os leitores modernos procuram nas obras de seus queridos escritores. Garcia Márquez não agride o leitor: é um senhor muito respeitoso para isso. Cada palavra sua é um afago no espírito. Suas histórias são simples e bonitas, e me fazem lembrar de Dona Donata, minha avó que me fez um apreciador de histórias.
Se você não leu nada do Gabo ainda, leia. Jogue esse Mirisola aí no lixo, ou use-o como calço para aquela mesa bamba. Afague seu espírito e diga adeus aos hematomas da má literatura.
ARGH!
Negócio seguinte: estou num mau humor do cão, e agindo como uma bicha louca, como sempre acontece quando estou mal humorado. Cancelei o Speedy num ataque de fúria douda, e agora estou quase cancelando o cancelamento. Sim, sim, é vergonhoso. Daqui a pouco eu começo a quebrar coisas, a bater portas e gritar com as pessoas. Ou ligar para os amigos de madrugada, bêbado e choroso (nunca fiz isso, credo). Uma veadagem que não tem fim. Mas isso passa, senhoras e senhores. Não se apoquentem.
Mais testes
Eu sei que isto aqui está meio parado, mas é que eu continuo fazendo os testes com o novo Movable Type. Vou testar algumas coisas mais sérias agora, o que significa que troçoes estranhos podem começar a acontecer. Só avisando.
Mentira, mentira. Eu é que não estou a fim de escrever.
UPDATE: E estou agora mesmo cancelando meu Speedy (serviço ADSL aqui em São Paulo). Ou seja: agora é que isto aqui vai ficar parado de vez mesmo.
Putz!
É hoje o lançamento de Primavera Eterna, livro de Dona Paula, e eu me esqueci de divulgar. Sou uma besta. Bom, mas se você mora no Rio, ainda há tempo de ficar sabendo e ir até lá:
Clicando no banner você é redirecionado para o site da Candide, onde pode comprar o livro. Estou comprando o meu.
Bug
Se vocês tiverem a curiosidade de ir ali nas Escrituras para tentar ler posts dos meses anteriores, notarão que todos os links para arquivos apontam na verdade para a página principal. É um bug dessa versão do Movable Type, a 3.0b2. Tenham paciência: uma versão 3.0b3 será liberada nos próximos dias, já com isso corrigido.
Pronto. Versão nova liberada, problema resolvido.

