Engraçado eu ter falado em Síndrome de Tourette no texto anterior, e ter ido assistir ao filme Amarelo Manga logo depois. Por quê? Vamos por partes. Essa síndrome é caracterizada por tiques, que podem ser:

Simples:
Motores – Piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros, fazer caretas;
Vocais – Pigarrear, limpar a garganta, grunhir, estalidos com a língua, fungar e outros ruídos
Complexos:
Motores – Pular, tocar pessoas ou coisas, cheirar, retorcer-se e, embora muito raramente, atos de auto-agressão, tais como machucar-se ou morder a si próprio;
Vocais – Pronunciar palavras ou frases comuns porém fora do contexto, ecolalia (repetição de um som, palavra ou frase de há pouco escutados) e, em raros casos, coprolalia (dizer palavras ou expressões socialmente inaceitáveis; podem ser insultos, palavras de baixo calão ou obscenidades). A margem de expressão de tiques ou sintomas assemelhados na ST é imensa. A complexidade de alguns sintomas freqüentemente surpreende e confunde os familiares, amigos, professores e empregadores que dificilmente acreditam que as manifestações motoras ou vocais sejam “involuntárias”.
(Fonte: O que é Síndrome de Tourette?, artigo publicado no NetPsi – Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia. Grifo meu.)

Pois bem. As pessoas que me falaram bem de Amarelo Manga diziam que o filme seguia a tradição do cinema nacional. “E isso lá é bom?”, eu pensava. Mas finalmente resolvi criar coragem e pegar o filme na locadora. E, como de hábito, eu estava certo: minha desconfiança tinha fundamento. Logo nos primeiros minutos de filme, quando a mocinha diz “Eu quero é que vá todo mundo tomar NO CU”, eu senti como se o tempo tivesse voltado. Era a mesma ênfase exagerada no palavrão, como Lima Duarte dizendo “Quem foi que desenhou C’RALHINHOSH VOADORESH na parede do banhéiro???”, lembram? Pois é a mesma coisa. Amarelo Manga é um caso sério de Síndrome de Tourette, assim como toda essa produção nacional dos anos 70 (principalmente). Então temos belas falas, tais como:
— TÁ PENSANDO QUE A MINHA BUNDA É A BOCETA DA SUA MÃE, FILHO DA PUTA?
Ou:
— FILHO DA PUTA É VOCÊ, VEADO ESCROTO!
Além disso, há cenas de rara beleza, como aquela que mostra um novilho sendo abatido no matadouro. Ok, eu como carne. Mas se eu quisesse ver como os bichinhos morrem, iria comprar minha carne no matadouro, não no açougue. Há a outra cena em que a mulher crente do cara do matadouro o pega com a amante e, qual Mike Tyson, arranca a orelha da pobre a dentadas. A cena tem aqueles cortes esquisitos, mal feitos apenas para parecerem cool. Cortes assim, aliás, estão presentes em vários trechos do filme, e se assemelham a tiques. Olha Gilles de la Tourette aí de novo.
Talvez por não conseguir construir personagens tridimensionais convincentes, o roteirista (talvez seja coisa do diretor, sei lá) resolveu sua falta de talento com um artifício reles: há longos monólogos dos personagens, nos quais eles explicam suas motivações, aspirações, objetivos. Chato a não mais poder.
E há também, é claro, o erotismo sutil: Mateus Nachtergaele pratica o felattio no cabo da faca usada há pouco pelo homem que desperta seus desejos (Nachtergaele é o maior canastrão das artes cênicas nacionais: faz sempre a mesma bichinha, e ganha prêmios por isso. Um ator gay que não consegue deixar a afetação de lado mesmo quando faz personagens não-gays é tão sem talento quanto um heterossexual que não consegue desmunhecar. Voltemos). Tem a menina do bar, que levanta o vestido para mostrar que seus pêlos pubianos são da mesma cor de seus cabelos. Uma vulva fulva que faria a delícia de gerações de poetas concretos, em demorado close up. Há a velha gorda que passa o filme todo fazendo inalações, e no final enfia o inalador entre as pernas.
E há, oh maravilha!, Jonas Bloch levando um cabo de escova no rabo. Sem lubrificação nem preparo. Acho é pouco: todos os que participaram do filme mereciam esse castigo. Menos o Mateus Nachtergaele, é claro, porque eu não estou aqui para agradar a ninguém.

(I Samuel 16:14-23)
Vimos no capítulo anterior que o Espírito de Deus apossou-se de Davi. Mas parece que Deus ainda não dominava direito esse negócio de onipresença na época, então seu Espírito teve que sair de Saul. Todos sabemos, porém, que a bondade e a justiça divinas são perfeitas. Tanto é que, tendo retirado seu Espírito de Saul, Javé imediatamente enviou um espírito mau para substituí-lo. O que isso significa? Que o rei, que já não regulava muito, endoidou de vez. Como temos visto até agora, ser dominado pelo Espírito de Deus também causava loucura. Mas há uma diferença: dominado pelo espírito mau, o cara só passa vergonha e não se diverte nenhum pouco. Saul, coitado, passou a ter crises cada vez mais freqüentes. Pela descrição feita na Bíblia (não neste capítulo, mas mais tarde), Saul apresentava todos os sintomas de um esquizofrênico paranóide. Se é que existe isso, esquizofrênico paranóide. Mas é bonito pra danar, vão dizer que não? Então. Foi nisso que Saul se tornou quando passou a ser atormentado pelo espírito mau: um esquizofrênico paranóide. Puxa, eu passaria o dia inteiro repetindo isso. Esquizofrênico paranóide. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE.
Tá, parei. Vamos dizer que Saul sofria de Transtorno Bipolar de Humor, associado a Síndrome de Tourette e Síndrome da Mão Alheia. Um pouquinho de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, talvez? É, vai bem. Só pra história ficar legal.
Ficava cada vez mais difícil conviver com Saul. Suas oscilações brutais de humor, sua agressividade inesperada e sem motivo, suas manias de perseguição, tudo isso tornava em um inferno a vida dos que cercavam o rei. Cansados disso, os empregados do palácio se reuniram e foram falar com ele:
— Majestade?
— Sim! Digam, meus queridos!
— Er… Bom. Seguinte: parece que o senhor está sendo atormentado por um espírito mau.
— Sim, rapaz, também andei pensando nisso. Estava aqui tentando achar uma solução. Um despacho, talvez?
— Nós pensamos em algo mais suave, para começar…
— É mesmo? Algo mais suave, não é? E no que foi que os FILHOS DA PUTA pensaram, hein? Em trazer suas mães, aquelas ARROMBADAS, para me sossegarem um tantinho? Ou talvez os CORNOS dos seus pais para virem aqui como bobos da côrte? Ou então… Ou então… Hum. O que é que eu estava dizendo?
— Dizendo? Não, o senhor não estava dizendo nada, majestade.
— Hum. Estranho. O QUE VOCÊ TÁ ME OLHANDO, SEU CU-DE-BURRO?
— É que… É que…
— DESEMBUCHA, PUTO!
— É que o senhor está… Hum… Manipulando seu magnífico pênis real.
— Manip… Eita, não é que estou mesmo? Não sei qual é o problema com essa minha mão esquerda, parece que tem vida própria. Mas… Onde é que estávamos?
— Pois então, majestade: pensamos em procurar alguém que toque harpa, e trazer para o palácio. Assim, quando o espírito mau vier atormentá-lo, talvez o senhor se acalme com a música.
— Hum. Tá aí, gostei da idéia. Gostei mesmo. Ei, onde vocês vão???
— O senhor acenou com a cabeça, ordenando que saíssemos.
— Acenei com a cab… Ah, malditos tiques! Vão logo procurar o tal harpista. Tomara que funcione, minha vida está um inferno.
— É pra já, majestade. Aliás, eu conheço um homem chamado Jessé, lá de Belém.
— E ele toca harpa?
— Nah, aquele não toca nem campanhinha. Mas o filho dele, Davi, é um grande músico. Além disso, é um bom soldado, valente, fala muito bem, é bonito, miudinho mas definido, sabe?, ruivinho, uma graça…
— Ok. Contenha sua veadagem e traga aqui o tal Denis.
— Davi, majestade.
— Esse aí.
Mandaram chamar Davi em Belém. Jessé, todo alvoroçado com uma convocação do palácio apenas dias depois de ver seu filho tratado com a maior deferência pelo lendário Samuel, tratou de caprichar no presente para o rei: mandou que Davi levasse um jumento carregado de pão, um odre de vinho e um cabrito para Saul. Lá foi o garoto para Gibeá. Saul gostou dele logo de cara. Talvez não gostasse tanto se soubesse que estava diante de seu sucessor no trono, mas é claro que ele não tinha como saber isso. Então ele acolheu Davi, e mandou uma mensagem a Jessé pedindo que ele autorizasse o filho a ficar morando no palácio real. E é claro que Jessé concordou, na maior alegria.
A partir de então Davi ficou trabalhando no palácio. Oficialmente, foi contratado como escudeiro de Saul. Mas fazia seu verdadeiro trabalho quando o rei tinha alguma crise: pegava sua harpa e cantava belas canções, muitas delas de sua autoria. E era ele começar a cantar para Saul ir se acalmando, até voltar totalmente ao normal.
Tendo o poder de acalmar a loucura do rei, Davi começou a ficar popular no palácio. Mas ainda era pouco.

O sujeito do penúltimo post resolveu me enviar recados com ameaças veladas caso eu não apague o que escrevi sobre ele. Pois bem, não apago. Sou um homem de 29 anos, com a mentalidade de um homem de 29 anos, nem mais nem menos. Não sei a idade dele, nem me importo em saber, mas tem o comportamento de um garoto de 12. Não tenho paciência com isso: briguinhas de internet, clones, tentativas de invasão, o caralho a quatro. Então ficamos assim: o post continua. O garoto, mesmo estando errado desde o princípio, quer fazer pirraça. Pois que faça, oras. Só demonstrará ainda mais a enormidade de sua estupidez.

(I Samuel 16:1-13)
O tempo passou e Samuel continuava com pena de Saul. Mal saía de casa, envergonhado com o papel que desempenhara ao comunicar ao rei que ele seria destituído. Oras, para começo de conversa Saul nem quisera ser rei. Javé tinha insistido, e ele se tornara rei a contragosto. Vinha fazendo um mau governo? Pelo contrário! Defendera Israel de seus vizinhos hostis, treinara um exército de respeito (em contraponto à meia dúzia de camponeses assustados que antes eram toda a força de defesa israelita), unira o país em torno de si. E, por causa de um pouco de gado trazido da terra dos amalequitas, fora rejeitado pelo mesmo Deus que o escolhera. Samuel passava seus dias pensando nisso, mortificando-se, sentindo-se culpado por tudo. Até que um dia Javé veio falar com ele:
— Samuel!
— Oi.
— Ué. Que desânimo é esse, rapaz?
— Bah. Você sabe.
— Ah, Samuel! Ainda essa história do Saul? Até quando você vai ficar aí se lamentando? Parece o Jeremias!
— Quem?
— O Jer… Ah, esquece. Esse cara não foi ainda. Às vezes eu me confundo com esse negócio de linha do tempo e tal. Mas então: chega de ficar aí choramingando por causa do Saul. Eu não quero mais que ele seja rei de Israel. Não quero e pronto.
— Ah! Então o negócio do gado amalequita foi só uma desculpa?
— Er… Pode ser. E não vem ao caso. O negócio é que agora eu tenho um trabalho para você.
— Não vou ter que ir falar com Saul, né? Eu não suportaria olhar na cara dele.
— Não, nada disso. Você vai encher um chifre com azeite e levá-lo com você até Belém.
— Chifre? Chifre de quê?
— Qualquer um! Seu, do seu pai, um chifre qualquer. Não se atenha aos detalhes, Samuel, essa missão é importante. Lá em Belém você vai procurar a casa de um tal Jessé para ungir um dos filhos dele como rei.
— CÊ TÁ DOIDO??? Se Saul sabe de um negócio desse, acaba com a minha raça!
— Hum. É verdade. Bom, então é melhor você disfarçar. Já sei: leve um bezerro com você e diga ao povo que foi até lá para oferecer um sacrifício. Convide Jessé para o ritual, e depois eu digo o que você deve fazer.
Sem muita vontade, mas já sabendo que discutir com Javé era perda de tempo, Samuel pegou seu chifre de azeite, seu bezerro e tocou para Belém. Quando viram o velho profeta chegando, os líderes da cidade tremeram de medo. Conheciam a fama de Samuel, e sabiam que praga rogada por ele era pior do que praga de mãe. Então foram falar com ele:
— S-Seu Samuel. Er… Que milagre o senhor por aqui!
— Humpf.
— Hehehe. Hehe. Hehe…
— Tão rindo de quê, caralho?
— Hum. É. Bom. Essa sua visita é de paz, Seu Samuel?
— É, é sim. Não me encham o saco.
— Ah, que bom… E esse bezerro aí?
— É meu noivo…
— HEIN?
— PRA QUE EU IA ANDAR COM UM BEZERRO, PORRA?
— Er… Sacrifício?
— É ÓBVIO! E vocês purifiquem-se e venham comigo.
— Pois não, pois não…
— RÁPIDO!
Nota-se que Samuel não estava no seu melhor humor. Enquanto os líderes se lavavam, Samuel mandou uma mensagem a Jessé convidando ele e sua família para o sacrifício. Quando o belemita chegou com seus filhos, Samuel viu Eliabe, o mais velho, e pensou: “Ah, deve ser esse. É grandão, forte, bonito. Do jeito que Javé gosta”. Mas Javé respondeu:
— Tá me estranhando, Samuel??? Desde quando eu fico reparando nessas coisas?
— Ué, eu só pensei. O cara tem o mesmo tipo físico de Saul, então…
— Pois é! Eu escolhi Saul me baseando só na aparência e deu no que deu. Não, não. Agora eu vou escolher com mais cuidado. Quero alguém que tenha bom coração e, principalmente, que não seja maluco. Fica calmo. Quando for o cara que eu escolhi, você saberá.
— Tá bom. — disse Samuel e, dirigindo-se a Jessé: – Eu tenho um recado de Deus para um dos seus filhos, mas já sei que não é esse. Quem é o segundo?
— Esse aqui, Abinadabe. É campeão de atletismo e faz musculação.
— Hmmmmm. Não, não é esse. O próximo?
— Meu terceiro filho, Siméia. Ponta direita do Belém F.C., escala montanhas e corre mais que o capeta.
— Sei, sei. Mas não é esse não. Próximo!
E assim Jessé apresentou a Samuel os sete filhos que estavam com ele, e nenhum deles era o escolhido por Deus.
— Você não tem mais nenhum filho, Jessé?
— Tenho mais um, o caçula, que está tomando conta das ovelhas agora.
— Ah, então mande chamá-lo.
— Seu Samuel, com todo respeito: se o recado de Deus não era para nenhum desses, para o moleque é que não vai ser.
— Eu sei, eu sei. Mas você não acha melhor oferecer o sacrifício com toda a família reunida?
— Ah, isso é.
— Então manda chamar o menino.
Jessé mandou um dos filhos chamar o caçula, e logo ele voltou trazendo o irmão. Era um rapazinho ainda adolescente, ruivo, de olhos brilhantes, muito bonito e de aparência saudável. Assim que ele apareceu, Samuel ouviu a voz de Javé em sua cabeça:
— É ESSE! É ESSE! PODE UNGIR!
— Calma, Javé. Ô. — e para o menino: — Qual o seu nome, filho?
— Davi. O que o senh… ARGH! Que é isso?
— Azeite, ué.
— AZEITE???
— É. Estou ungindo você como futuro rei de Israel.
— Peraí, Seu Samuel — interrompeu Jessé. — Deve haver algum engano.
— Engano nenhum. Seu filho Davi será rei.
— Mas é só um menino!
— Bom, discuta com Javé.
— E o sacrifício?
— Mané sacrifício! Tchau.
Samuel voltou para Ramá e deixou Davi todo besuntado em Belém. A partir daquele dia o Espírito de Deus tomou conta de Davi. Já sabemos o que isso significa: o menino estava pronto para aprontar suas loucuras.

O que leva um suposto homem feito a infernizar a vida de uma garota de 17 anos que ele mal conhece? O que leva esse homem a gastar seu tempo passando-se por ela em blogs, emails, chats e finalmente no Orkut?
Pois então: uma amiga minha tem sido importunada por esse cara. Não sabíamos quem era, até que hoje ele cometeu um erro primário e mostrou sua cara cínica, a qual já conhecíamos. Estou surpreso: por que isso? Por quê? Muito bem, sujeito. A caixa de comentários está aí. Você já comentou aqui como “clone”, então sabe o que fazer: comente, justifique-se, explique o que o levou a fazer tamanha imbecilidade. E, já que a máscara caiu, aproveite para dizer quem foram seus parceiros na brincadeira.
Mil perdões aos meus leitores. Daqui a pouco teremos capítulo bíblico novo, um personagem importantíssimo será introduzido, vai ser legal. Mas é que eu já estava com essa história atravessada na garganta há meses, e fiquei com mais raiva ainda ao saber quem era o sujeito. Desculpem esse arroubo de quase fúria, meus caros. Já voltamos à programação normal.

Nada na vida de solteiro me irrita mais do que os amigos que querem te arrumar alguém. Assim que você fica solteiro é pior: a cada dois dias querem te empurrar uma pessoa diferente. Com o tempo eles vão sossegando. Mas não muito tempo, claro. Se você começa a se acomodar na vida de solteiro, eles voltam com força total:
— Vou te apresentar uma amiga minha. Você vai gostar.
— Como você sabe que eu vou gostar?
— Ah, ela é a tua cara!
— Então é feia pra diabo, não vou gostar.
— Não, não. Você entendeu. Ela é assim que nem você.
— Assim como?
— Assim, sabe? Meio maluca.
E assim segue a conversa. Eu não sou meio maluco. Aliás, eu não sou nada maluco. E não tenho paciência com gente maluca. Mas como é que eu vou dizer isso? As pessoas ficam ofendidas se você não quer conhecer quem elas querem lhe apresentar. É como se você recusasse um presente, sabe? Então você aceita — muito a contragosto — ser apresentado à tal pessoa. Você chega ao bar (ou outro lugar qualquer) e lá está o amigo (todo orgulhoso de seu talento de cupido, provavelmente já antecipando o batizado do primeiro filho do casal que irá se formar esta noite, ele sendo o padrinho), talvez outras pessoas mais ou menos conhecidas. Sempre casais, que é para forçar bastante a situação. Seu olhar é atraído pela pessoa que você não conhece. Há uma cadeira vazia ao lado dela, é claro, e é ali que você vai passar essa noite de suplícios e constrangimento. Eu odeio essa situação. ODEIO.
Há variações, é claro, mas são sempre ruins. Lembro-me, por exemplo, de uma vez em que eu estava com uma amiga num bar e uma conhecida nossa ligou:
— Marco, onde você está? — falei onde estava — Ah, que bom! Estou indo aí.
— Ah, que legal.
— E estou levando uma pessoa.
A luz vermelha se acendeu na minha cabeça:
— Uma… Pessoa?
— É.
— Que tipo de pessoa?
— A mulher da sua vida.
Medo.
Minutos depois, ela chegou com a tal mulher da minha vida. E eis que era uma velha leitora do blog. Uma mulher que se dizia minha grande fã, e por isso se achava no direito de ditar os rumos disto aqui, e se irritava quando eu escrevia textos mais pessoais. Maluca, totalmente maluca. Mas as pessoas acham que mulheres malucas são “a minha cara”, então lá estava ela, a mulher da minha vida segundo alguém que mal me conhecia.
Foram horas torturantes. Eu, possuído de vez pelo mau humor, ignorava a mulher de forma ostensiva, e me esforçava para manter uma conversa com minha amiga. A tal mulher percebia o meu mal estar, mas não se decidia a ir embora. A garota que a trouxera também percebia, e estava visivelmente sem graça. Ah, meus amigos, aquela noite foi um inferno! Ao final, me despedi com um “tchau” seco e fui embora aliviado.
Eu entendo os cupidos. Sei que há pessoas que precisam dessa forcinha, que se não for assim nunca conhecem ninguém e coisa e tal. Pois bem: não é o meu caso! Eu me viro muito bem nesse departamento. Meu problema não é em arrumar mulheres, é em convencê-las a permanecer. Portanto, sabe aquela sua amiga? Aquela maluquinha? Então: eu não quero conhecê-la. Não quero! Não se sinta ofendido com isso, não ache que é algo pessoal. É uma questão de estatística: de todas as mulheres com que fiquei, só uma foi numa situação assim. E foi um tal desastre, e a mulher era tão maluca, que até hoje eu sou motivo de piada entre meus amigos por algo que aconteceu há dez anos. Eu não quero conhecer sua amiga, ok?
A não ser que ela seja muito gostosa, é claro.

(I Samuel 15)
Javé ficou só olhando enquanto Saul montava e treinava seu exército. Quando viu que já estava bom, mandou Samuel ir falar com o rei.
— Saul, tenho um recado de Javé para você.
— Opa. Pode dizer.
— Ele ordena que você ataque os amalequitas, e não deixe nada vivo por lá. Homens, mulheres, crianças, bois, jumentos, camelos, ovelhas: não tenha dó, mate tudo o que respirar.
— Mas… Samuel, com todo o devido respeito a Javé, os amalequitas não nos fizeram nada!
— NÃO FIZERAM NADA??? Eles atrapalharam a vida de Israel quando o povo saiu do Egito!
— Isso foi no tempo do onça!
— Não importa, Saul: Javé não esquece essas coisas. E a ordem dele foi clara: vá até lá e não deixe nada vivo.
— Bom. Se é uma ordem divina, como é que eu vou discutir, né?
— Ainda bem que você sabe.
Não tinha mesmo o que discutir, então Saul convocou seu exército e fez uma contagem de seu efetivo. Contra os filisteus ele conseguira reunir três mil homens, dos quais 2.400, mal equipados e indisciplinados, desertaram. Dessa vez ele tinha sob seu comando 210 mil homens, todos fiéis ao seu rei. Seria fácil.
O exército israelita marchou na direção de Amaleque, e se escondeu no leito de um rio. Saul mandou um recado aos queneus que moravam na cidade:

Queneus,
Saiam da cidade, porque hoje o bicho vai pegar. Como vocês são gente fina, e ajudaram os israelitas na época do Êxodo, resolvi avisá-los do ataque que faremos ainda hoje.
Atenciosamente,
Saul
Rei de Israel

Tão logo os queneus saíram da cidade, Saul entrou nela com seu exército. Primeiro derrotou-os em Amaleque, a capital, e continuou sua campanha desde Havilá até Sur, que ficava a leste do Egito. Tomou o rei Agague como prisioneiro, e matou todo o povo. Vitoriosos, os israelitas voltaram para casa, exibindo como troféus o rei Agague e os melhores animais do gado amalequita.
Naquela mesma noite, enquanto Saul e todo o povo festejavam a vitória na rua, Javé foi falar com Samuel:
— Porra, Samuel. Preciso conversar com você.
— Pode dizer, Javé.
— Tô arrependido de ter escolhido Saul como rei. Me baseei só em aparências, e agora olha só o que aconteceu.
— O que aconteceu?
— ORAS, O QUE ACONTECEU! O CARA NUNCA ME OBEDECE!
— Ah.
— Ele não vai mais ser rei de Israel.
— Pô, Javé. Também não é pra tanto.
— Ué. Tá defendendo o cara agora?
— Ah, sei lá. Com o tempo eu fui simpatizando com ele.
— Pois isso não me interessa. Por mim vocês podem até se casar. Mas rei do meu povo é que ele não vai ser mais.
— Ah, Javé…
— Não torra, Samuel. Já decidi.
— Pensa bem, Javé…
— Hmmmmmm… Nah.
E assim passaram a noite toda, Samuel tentando demover Javé da idéia de destituir Saul, e Javé mantendo-se irredutível. Na manhã seguinte, sem ter dormido, Samuel saiu para procurar Saul. Ficou sabendo que ele tinha ido até a cidade de Carmelo para inaugurar um monumento em honra de si mesmo, e que depois fôra para Gilgal. Para lá foi Samuel, e encontrou o rei que, como sempre, veio cumprimentá-lo efusivamente:
— Samuel, bons olhos o vejam! Já está sabendo do que aconteceu?
— O quê?
— Oras, não se faça de bobo! Derrotamos os amalequitas, Samuel! Cumpri as ordens de Javé, e derrotamos os amalequitas!
— Você cumpriu mesmo as ordens de Javé?
— Ué. Claro que cumpri!
— Então por que é que eu estou ouvindo balido de ovelhas, mugido de vacas, zurrar de jumentos e… E… E aquele barulho que os camelos fazem?
— Er… Tá ouvindo, é? Não tô ouvindo nada. Que estranho, hein?
— NÃO DESCONVERSE!
— Tá bom, tá bom. O negócio é que os meus soldados tomaram dos amalequitas os melhores animais.
— MAS A ORDEM NÃO ERA DE MATAR TUDO?
— C-claro, claro! Mas é que… É que nós pegamos esse gado aí para oferecer como sacrifício a Javé. Olha que legal! Mas o resto nós destruímos tudo mesmo. Esses aí também, só que não foi na mesma hora, percebe? Trouxemos para cá, e agora vamos oferecer tudo como sac…
— CALABOCA! Deixa eu te contar o que Javé me disse na noite passada.
— Hum. Fala.
— Ele disse que você não era nada, e ele o fez rei de Israel. Ele o ungiu como rei de seu povo, e confiou em você. E deu a ordem de destruir os amalequitas e seus animais. Então por que é que você não obedeceu? Por que cresceu os olhos pra cima do gado deles?
— Mas eu obedeci! Fui até lá, matei todo o povo e trouxe o rei deles como prisioneiro. Esses bichos que trouxemos para cá são um sacrifício. Um sacrifício, já disse!
— O que você acha que Deus prefere, Saul? Obediência ou sacrifícios?
— …
— É melhor obedecer a ele do que oferecer-lhe sacrifícios. A revolta contra Javé e o orgulho são pecados tão graves quanto a feitiçaria ou a idolatria.
— Pô, Samuel. Pega leve.
— Eu tenho nada com isso, é Javé quem diz. E ele diz também que já o rejeitou como rei, porque você rejeitou as ordens dele.
— É. Eu desobedeci às ordens de Javé.
— Finalmente admite!
— Mas é que eu fiquei com medo do povo e fiz o que eles queriam!
— Ah! Então agora a culpa é do povo?
— Não, não. A culpa é minha. Mas, Samuel, agora eu preciso de você como nunca precisei antes. Por favor, perdoe o meu erro, e volte comigo para adorarmos a Javé.
— Eu não posso ir com você, Saul. Você rejeitou as ordens de Javé, e por isso ele o rejeitou como…
— … Rei de Israel. Tô sabendo, tô sabendo. Mas custa nada!
Samuel, porém, já fazia menção de retirar-se. Então Saul o segurou pela capa, que se rasgou.
— OLHA AÍ A MERDA QUE VOCÊ FEZ! RASGOU MINHA CAPA!
— Ô. Foi mal.
— FOI MAL O CARALHO! Agora Javé vai rasgar o reino de Israel das suas mãos, e entregá-lo a outro melhor do que você. SEU PUTO!
— Ô PORRA! Eu sei que fiz cagada, mas você tem que me respeitar na frente dos líderes e do povo de Israel, pelo menos isso. Volte comigo, para que eu possa adorar a Javé.
Samuel viu o brilho de ódio nos olhos de Saul, e resolveu acompanhá-lo. Saul era grande e assustador, enquanto Samuel era apenas peludo. Brigar com o rei seria loucura. Foram, pois, até Gilgal. Lá, Samuel ordenou que lhe trouxessem Agague. Ao ver que era chamado à presença do rei de Israel e da segunda maior autoridade do país, Agague achou que seria poupado. Mesmo tremendo de medo, disse:
— Ah. Então a amargura da morte já passou.
— É o que você pensa, Agague — respondeu Samuel. — Assim como muitas mães ficaram sem seus filhos por sua causa, hoje é o dia de Dona Agaga ficar desfilhada.
— Mas o nome da minha mãe não é Ag…
Agague não teve tempo de terminar: Samuel o matou e depois despedaçou o corpo, em frente ao altar. O povo aplaudiu, Saul achou muito bom, só Samuel ficou desgostoso. Voltou para Ramá, enquanto Saul foi para sua casa em Gibeá. Nunca mais tornaram a se ver, porque Samuel ficou com muita pena de Saul. Achava que Javé se precipitara, dando uma sentença muito grave para pouca coisa. Rever Saul seria constrangedor, porém, então ele o evitava. Mas era melhor não discutir porque podia muito bem ser que Javé ainda tivesse outras missões para ele.