Acabou o sutil como um paquiderme.
Oremos.
Mês: fevereiro 2004
Profetas
Mais dois blogs ali nos Profetas. O primeiro é o Não é Bolinho!, de Dona Nilda, uma boa amiga que me surgiu da forma mais improvável, e que tem me ajudado a enxergar o mundo segundo outras perspectivas. O outro é o Mero Cristianismo. Tá, é um blog de crente e tal. Mas o John, seu autor, prometeu matar seu colega de quarto (colega de quarto, sei…) e me mandar seus DVDs do Monty Python Flying Circus se eu botasse aqui um link para o blog dele. Bicho safado da porra…
Paula Manzo
Ela é leitora antiga. Houve uma época em que este blog só recebia comentários dos amigos próximos do autor, da família, e de duas garotas bondosas: Lilla e Paula Manzo. Já contei como foi que eu conheci a Lilla (aqui). E a Paula?
Bom, ela apareceu na festa e veio me cumprimentar:
— Oi, Marco!
Olhei com a minha cara de todo-mundo-me-conhece-e-eu-não-conheço-ninguém e respondi:
— Oi…
— Eu sou a Paula Manzo.
— PUTA QUE PARIU! — e dei-lhe um abraço de urso.
Mal conversei com ela. Na verdade, eu mal conversei com qualquer pessoa na festa. É o velho paradoxo do anfitrião: tendo que dar atenção a todo mundo, acaba não dando atenção a ninguém.
Mas tudo bem, porque combinamos de “tomar um chope qualquer dia desses”. Essa frase é batida, e todo mundo sabe o que significa: “não vamos mais nos ver”. Eu deixaria passar em branco. MAS ERA A PAULA MANZO, PORRA! Então ontem finalmente pudemos tomar o tal chope (na verdade foi cerveja Original, no indefectível bar Opção) e conversar. Conversar bastante. Resultado? Entrou na minha vida pra sempre.
Triste
O pouco de fé que eu tinha acabou-se. Deus trocou o Rio de Janeiro por Osasco. OSASCO!
:: pronto, falei. hehehehehe. ::
Os filhos de Eli
O segundo capítulo começa com Ana fazendo uma oração. A prece é longa mas pode ser resumida assim: “Valeu a pena esperar. Agora Penina se fodeu e eu estou por cima da carne seca. Rá!”. Então a família voltou para Ramá, deixando Samuel no Tabernáculo. O garoto estava destinado a ser apenas um ajudante na Tenda Sagrada, um menino de recados e mais nada. Só que Deus escreve torto por linhas tortas, como veremos.
Acontece que Hofni e Finéias, sacerdotes e filhos de Eli, não valiam nada (a tradução João Ferreira de Almeida diz que eles eram “filhos de Belial”, o príncipe dos demônios), não levavam a sério o sacerdócio. Por exemplo: quando alguém estava oferecendo um sacrifício, um ajudante vinha e enfiava um garfo dentro da panela onde a carne estava sendo cozida. A carne que saísse era comida pelo sacerdote, sem o mínimo respeito pelas regras rígidas que determinavam as porções destinadas aos sacerdotes. Isso era feito rotineiramente. Da mesma forma, quando alguém estava preparando seu sacrifício, os sacerdotes enviavam um ajudante para exigir um pedaço da carne, antes mesmo que a gordura fosse queimada. Se o ofertante fosse um israelita mais zeloso, e se recusasse a tratar seu sacrifício levianamente, o sacerdote tomava a carne à força. Assim os filhos de Eli faziam seu trabalho: com arrogância, prepotência e sem o mínimo respeito pelas tradições. Nós, que já vimos do que Javé é capaz em casos de desobediência, já podemos prever o que iria acontecer. Eles, porém, continuavam agindo da mesma forma.
Enquanto isso, o menino Samuel crescia e aprendia no Tabernáculo. Mesmo sendo ainda criança, vestia um manto sacerdotal de linho, e todos os anos sua mãe lhe trazia uma túnica nova, que ela mesma fazia. Nessas ocasiões, Eli abençoava Elcana e Ana:
— Que Javé dê a vocês muitos filhos, para tomarem o lugar deste que foi dedicado ao serviço do Tabernáculo.
E agora, que Elcana já sabia como fazer, estava fácil: o casal teve mais três filhos e duas filhas.
Quanto a Eli, já estava muito velho. Ele ouvia falar da forma como os filhos exerciam o sacerdócio, e também que comiam as putas que faziam ponto na porta da Tenda. Ele ainda tentava aconselhar:
— Meus filhos, tomem jeito! Javé é bravo, e muito mais bravo ainda com os sacerdotes. Se uma pessoa ofende a outra, Deus pode defendê-la, mas quem a defenderá se ela ofender ao próprio Deus?
— Bah, pai, que bobagem! Cê não sabe de nada. Os tempos são outros, precisamos renovar as coisas por aqui. Relaxa, velho.
E os dois não tomavam mesmo jeito. Eli vivia desgostoso, mas não havia nada que pudesse fazer — mesmo porque Javé já decidira matar Hofni e Finéias, tamanha era a raiva que sentia deles. Por outro lado, Javé gostava muito de Samuel. Todo mundo gostava: era um garoto dedicado, inteligente, respeitoso. Vendo que a situação exigia sua interferência, Javé escolheu um profeta que estava sem muito serviço e o enviou para o Tabernáculo, para que entregasse a seguinte mensagem a Eli:
Eu me revelei a Arão, seu antepassado, e escolhi vocês para serem meus sacerdotes, e para fazerem o meio de campo entre o Israel e eu. Você conhece a história, não preciso contar tudo aqui. Eu dei a vocês o direito de ficarem com uma parte dos sacrifícios que são oferecidos. Olha só como eu sou legal. Só que acontece que esses mequetrefes desses seus filhos são têm os olhos maiores que a barriga, e comeriam um touro inteiro se conseguissem. Uma vergonha, Eli, uma vergonha!
E, cá entre nós, você está sendo omisso. Como é que você deixa seus filhos engordarem feito umas porcas prenhas, comendo a carne que devia ser destinada somente a mim? Assim não dá, Eli. No passado eu prometi que sua família serviria para sempre no sacerdócio, mas acho que vou mudar minha promessa. Chega. Eu respeito quem me respeita, e desprezo quem me despreza. E quem eu desprezo, não sei se você sabe, morre misteriosamente. Então é isso: eu vou matar todos os moços da sua família e da família do seu pai. Coisas muito boas vão acontecer em Israel, mas você vai passar por dificuldades, e nenhum homem de sua família chegará à velhice. Morrerão todos os homens da sua linhagem, e se algum sobreviver será apenas para envergonhá-lo. Hofni e Finéias morrerão no mesmo dia; isso será um sinal para você. Então eu escolherei para mim um sacerdote, um homem honrado que fará as coisas à minha maneira. Darei a ele descendentes que estarão sempre a serviço do rei que eu vou escolher. Quanto aos seus descendentes (se existirem), vão se curvar diante do rei para pedir dinheiro e comida, e virão aqui para implorar por algum trabalho.
Gostou? Gostou? Isso é pra vocês aprenderem a não mexer na minha comida, caralho!
J.
Eli quis argumentar, dizer que havia tentado avisar os filhos, que não adiantara porque eles eram teimosos. Mas o profeta tinha vindo só para trazer a mensagem, sem instruções para esperar resposta. Então apenas sentou-se em sua cadeira para pensar na mensagem que acabava de receber. Javé falara mesmo de um rei? Grandes mudanças estavam para acontecer em Israel…
Adeus, Lênin!
Alguém aí assistiu Good bye, Lenin? Podem me explicar como é que o amigo do protagonista aparece usando uma camiseta de Matrix numa cena que se passa em junho de 1990? Obrigado.
É óbvio que eu vou
Paulo Polzonoff desce aos infernos
Abriu os olhos e estava sentado numa cadeira. À sua frente uma mesa, atrás da mesa — sentado numa cadeira de espaldar bem alto — o sujeitinho esquisito. A fragrância cítrica de seu perfume empesteava a sala toda. As unhas bem cuidadas pareciam ter recebido algumas pinceladas de base recentemente. Era óbvio que gastara um bom tempo com o cabelo até atingir aquela aparência pretensamente despojada. Gravata espalhafatosa, óculos retangulares de aro grosso e vermelho. Os pés, calçados em mocassins marrons, repousavam cruzados sobre o tampo da mesa. “Metrossexual, no mínimo”, pensou. Ia perguntar alguma coisa (“O que estou fazendo aqui?”, de preferência), mas o sujeito adiantou-se, falando com voz melíflua:
— Senhor Paulo Polzonoff, é uma honra tê-lo aqui conosco — o homem parecia olhar sempre meio de soslaio, ou por cima dos óculos, nunca de frente.
— Eu diria o mesmo, se soubesse onde estou e quem são vocês.
— Ah, claro, que indelicadeza! O senhor está na redação da revista What The Hell!.
— What the hell?
— Exatamente.
— Não, não. Com isso eu quis dizer que nunca ouvi falar da sua revista.
— Claro que não, Sr. P.: nossa revista não é conhecida na Terra.
— Na terra? Que terra? Minha terra? Curitiba? Rio?
— Não: na Terra. O planeta.
— Que brincadeira é essa?
— Não há como dizer isso sem chocá-lo, portanto serei direto: o senhor está no Inferno.
— Repito e enfatizo a pergunta: QUE RAIO DE BRINCADEIRA É ESSA???
— Ai, ai… Sempre a mesma reação, sempre! Acho que não inspiro muita confiança, não é mesmo? É. Acho que vamos precisar de uma demonstração.
Apertou um botão e os dois foram imediatamente transportados para o alto de um pico rochoso. À sua volta, labaredas levantavam-se e vozes de agonia eram ouvidas. Demônios horrendos corriam e rastejavam no fundo da vala de fogo, ou voavam por sobre os picos fustigando os condenados. Um deles aproximou-se de Polzonoff e deu-lhe uma espetada de leve na bunda.
— É o equivalente da casa para o clássico beliscão. Acredita agora que não está sonhando, Senhor PP?
— Talvez se você parasse de me chamar assim…
— Oras, não me venha com essas bobagens. Você é meu funcionário agora.
— Funcionário?
— Quer falar sobre isso aqui mesmo, ou prefere voltar à minha sala?
— A sala. Por favor.
— Muito bem — estavam de volta ao escritório. — Como eu dizia, o senhor agora é repórter da revis…
— Espera. Espera. Como é que eu vim parar no inferno?
— Ah, sempre a mesma velha pergunta. Temos uma seção de Perguntas Mais Freqüentes em nosso website corporativo, a qual o senhor poderá consultar à vontade depois. Por enquanto, vamos tratar de negócios, se o senhor não se importar.
— C-claro…
— Muito bem. O senhor agora é repórter da revista What The Hell!
— Er… Só uma coisinha: por que você fala o nome da revista desse jeito?
— Por causa do ponto de exclamação, oras!
— Desconfiei… Olha, esse ponto de exclamação é absolutamente necessário?
— Mas é claro! Veja só: ao mesmo tempo em que é fálico, empresta um tom de afetação ao nome da revista. Desse modo, o título acaba recebendo esse tom lúdico, essa brincadeira com a dubiedade que, ademais, pauta todas as nossas…
— Sim, sim, entendi. Prossiga, por favor.
— Pois não: nossa revista é totalmente voltada à alta cultura, com um público de altíssimo nível intelectual. É toda impressa em papel couché de excelente qualidade, com uma diagramação arrojada. Nossa equipe é formada pela nata do jornalismo cultural. E agora o senhor é parte dessa equipe.
— Sei.
— Não parece muito entusiasmado, PP. Mas isso vai passar assim que conhecer melhor nossa publicação. Quer ver só? Leia um trecho desta matéria. Em voz alta, por favor.
— Hum… Ok. “Mares Profundos, terceiro e mais ambicioso álbum de Virgínia Rodrigues, celebra não apenas…“ blablablá… “Agora, esta filha de Ogum (…) imprimiu novas cores a este repertório clássico, revisitado por alguns artistas ao longo dos anos, mas nunca de maneira tão surpreendente.“. Peraí. Isso não é sério, é?
— Isso é MUITO sério, Senhor Polzonoff. Para começar, o senhor vai ler algumas edições da revista, para ir se familiarizando à linguagem utilizada.
— Como é que é?
— Oras! Como qualquer outra empresa, adotamos aqui nossos padrões. Pelo que li de seus textos escritos ainda na Terra, o senhor jamais teria a capacidade de utilizar, por exemplo, esse “revisitado” da matéria que leu agora mesmo, termo que deu todo um brilho para o texto.
— É, não teria mesmo… Olha, espero que você, o senhor, Vossa Magnificência Capetícia não se importe se eu recusar o convite.
— Espera? O senhor espera??? Que parte da tabuleta na entrada do Inferno o senhor não entendeu.
— Bom, acontece que eu não passei pela entrada. Abri os olhos e estava aqui.
— Não se faça de desentendido! Sei muito bem que o senhor leu A Divina Comédia, e que sabe o que está escrito na tabuleta.
— “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.”
— Sim, sim! “Deixai aqui toda a esperança, vós que entrais”. O senhor não espera nada, portanto: apenas ouve e obedece. Isto aqui é o Inferno, não uma colônia de férias.
— …
— E vamos ao trabalho! Sua primeira matéria será sobre uma exposição de artes plásticas, com obras inspiradas no carnaval carioca. Sugiro que o senhor use como gancho a reviravolta que ocorreu na vida do grande Hélio Oiticica ao visitar o Morro da Mangueira na década de 60.
— E que reviravolta foi essa?
— O senhor não sabe? A imersão em uma comunidade sustentada pelo improviso subverteu seu ponto de equilíbrio! Bólides e parangolés deixaram de ser apenas proposições lúdicas para servir como instrumentos de incentivo a experimentações coletivas!
— Ah, sim. Essa reviravolta.
— Sim! E, aproveitando seu grande interesse pela vanguarda das artes plásticas, vou pedir ao senhor que faça uma matéria sobre a obra de Lenora de Barros.
— Lenora de Barros, né?
— A própria. Como o senhor deve saber, as bolinhas de pingue-pongue são presença constante na obra dessa artista.
— Ouvi falar de certas moças tailandesas que também têm bolinhas de pingue-pongue no centro de sua obra. Bem no centro, aliás.
— Senhor Polzonoff, devo adverti-lo de que não admitimos qualquer forma de humor por aqui. Se quer fazer piadinhas, vá para o céu.
— Tenho essa alternativa?
— Claro que não, foi só um modo de falar. Mas eu dizia: ela gosta de usar bolinhas de pingue-pongue porque, nas palavras da própria Lenora, “A bolinha sugere jogo e, ao mesmo tempo, leveza.“. Percebe?
— Não.
— Que lástima, o senhor ainda não está pronto. Pensava em enviá-lo para cobrir a mais nova peça de José Celso Martinez Corrêa, mas o senhor ainda não está pronto.
— Oh, mas que pena…
— Pois é! Veja se só o título já não é instigante, veja!
— Os Sertões — O Homem: Da Revolta ao Trans-Homem. Puxa! Travessão, dois pontos, hífen. Instiga mesmo!
— Perdão, mas o senhor está sendo irônico?
— Longe de mim!
— Hum. Pois então: a peça, como o senhor deve ter notado, é uma releitura da obra de Euclides da Cunha. Mas não só isso: nessa transposição, há um significativo reinventar factual e ideológico. Não é à toa que a peça dura desafiantes seis horas e que a platéia é convidada a participar de cenas algumas vezes estranhas à própria narrativa, como a do “beija”, que de uma alusão histórica à reverência da matula de fiéis às imagens de santos acaba se tornando em uma colação de bocas entre atores e espectadores mais desenvoltos.
— Ugh.
— Perdão?
— Hã? Ah, nada. Acho que foi um soluço.
— Sei… Bom, mas não importa, o senhor ainda não está preparado para uma matéria dessa envergadura. Em vez disso, vou apresentá-lo ao seu entrevistado diário.
— Er… Entrevistado diário?
— Ah, sim! Ia me esquecendo: aqui no Inferno, cada um dos condenados tem uma tarefa a ser repetida pelo menos uma vez por dia. A sua é entrevistar esse rapaz.
— Sei. Por quanto tempo?
— Por quanto tempo? Mas que pergunta idiota! Por toda a Eternidade, é óbvio! Vamos, seu entrevistado o espera ali na outra sala.
O editor abriu a porta e guiou Paulo Polzonoff pelo meio da redação. Ele reconheceu dois ou três grandes jornalistas do passado, homens que eram lendas na Terra, mas que ali tinham vergonha de seu trabalho vil. Não teve tempo de pensar muito nisso, porém, porque a cena que viu ao entrar numa sala lateral foi um choque: acocorado sobre a única mesa do recinto, um gordinho com cara de escroto (em ambos os sentidos) esforçava-se para escrever segurando a caneta da maneira mais heterodoxa. A notar a presença dos dois, começou a berrar:
— VOCÊ VEIO ME ENTREVISTAR, NÃO É? POIS PODE BOTAR AÍ QUE EU ESCREVO COM O CULHÃO, TÁ ME OUVINDO? COM O CULHÃO!
— Editor, vocês pagam adicional por insalubridade?
— De jeito nenhum.
— Desconfiei…
Paulo Polzonoff suspirou, sentou-se numa cadeira e começou a primeira entrevista de uma série infinita com sua Nêmesis.
O nascimento de Samuel
O primeiro livro de Samuel trata da transição entre o tempo dos Juízes e a monarquia israelita. Nada melhor para começar, portanto, do que contando como foi o nascimento de Samuel. Vamos a ele.
Havia na cidade de Ramataim-Zofim (que mais tarde veio a receber o nome grego de Arimatéia, cidade natal daquele José que cedeu o túmulo a Jesus Cristo) um homem chamado Elcana. Ele tinha duas mulheres: Penina, com quem tinha filhos, e Ana, que aparentemente era estéril (mais uma…). Elcana tinha o costume de ir uma vez por ano a Siló, onde então ficava o Tabernáculo, para ali oferecer sacrifícios. Hofni e Finéias, filhos de Eli, eram sacerdotes na época. Cada vez que Elcana oferecia sacrifícios, dividia com as duas esposas e os filhos a parte da oferta destinada aos ofertantes. Sendo Ana a esposa que ele amava de verdade, dava a ela porção dobrada. Não adiantava nada, porém, porque Penina provocava Ana nessas ocasiões, irritando-a demais e deixando-a deprimida e sem apetite. Elcana ficava desesperado:
— Anita, meu amor, por que você chora? Por que não come? Por que está sempre triste?
— …
— É por causa dessas provocações da Penina. Oras, deixe isso pra lá! Por acaso eu não sou melhor para você do que dez filhos? Hein? Hein? Hein?
— …
— ARGH!
A história se repetia ano após ano. Quando Elcana anunciava à família que chegara o tempo de ir a Siló, todos comemoravam, menos Ana, que já se preparava para ser mais uma vez infernizada por sua rival. Até que um dia ela se cansou: estando mais uma vez a família reunida em Siló, ela foi até a Tenda Sagrada logo depois da refeição. Lá chegando, começou a chorar e falar com Javé:
— Ó, Deus! Assim não dá mais não. Olhe para mim, por favor, uma vez só! Veja a minha aflição. Javé, se você me der um filho, eu juro que ele será dedicado ao seu serviço por toda a vida, e que nunca cortará o cabelo.
A promessa de não cortar o cabelo, como já vimos na história de Sansão, significava que a criança seria um nazireu. Pois bem, Ana continuou sua oração. Suplicava em silêncio, e seus lábios apenas se mexiam, sem som. Ficou tanto tempo ali que o sacerdote Eli, que estava sentado numa cadeira junto a um pilar, notou sua presença. Vendo aquela mulher chorando e mexendo os lábios sem dizer nada, precipitou-se em suas conclusões:
— Mas que vergonha!
— Hum… Como, senhor?
— Come, não. Bebe! Cachaceira sem-vergonha! Vê se te emenda! Onde já se viu, vir à Casa de Deus com o rabo cheio de manguaça?
— Senhor, não me julgue mal. Juro que não bebi nada, nem uma cervejinha. Mal comi, na verdade, porque vivo angustiada. Por isso vim até aqui, para contar a Javé as razões de minha angústia e pedir a ele que olhe para mim e me ajude. Se orava de um jeito estranho é porque sou uma mulher muito infeliz e sofredora.
— Er… Ahn… Aham… Sim, sim, claro. Desculpe o mau jeito, viu? Vá em paz, e que Javé lhe conceda o que você pediu.
— Muito obrigada, senhor.
Então Ana voltou para junto da família. Estava até mais feliz, tanto que chegou a comer um pouco. Na manhã seguinte, Elcana e sua família acordaram cedo e foram mais uma vez adorar a Javé, depois do que pegaram a estrada para Ramá. Lá chegando, Elcana “conheceu” a sua esposa, ou seja, teve relações sexuais com ela. Sabem como é, deu uns futucos. Passou-lhe a vara. Deu um tapa na periquita. Molhou o biscoito, afogou o ganso, decalcou a araponga. Bah, vocês entenderam: finalmente Elcana percebeu que esse negócio de amor sublimado não estava com nada. Como resultado, aprendeu de onde é que vêm os bebês: nove meses depois, Ana teve um menino e botou nele o nome de Samuel, que significa “pedir a Deus”.
Quando o menino estava com três meses de vida, chegou novamente o tempo de Elcana ir a Siló. Ana, porém, resolveu ficar em Ramá:
— Não vou agora, vão vocês. Quando o menino for desmamado, eu mesma o levarei para que fique lá por toda a vida.
— Hum. Acho melhor você não ir a Siló. Quando Samuel for desmamado, você o leva para que ele fique por lá.
— Excelente idéia, Elcana!
— Bondade sua, minha querida.
Então Ana ficou em casa enquanto a família ia a Siló oferecer sacrifícios. Meses depois, quando Samuel enfim foi desmamado, ela e Elcana o levaram a Siló, juntamente com um novilho de três anos, dez quilos de farinha e um odre de vinho como ofertas. Apresentaram-se a Eli, e Ana disse:
— Seu Eli, eu sou aquela mulher que o senhor achou que estivesse bêbada no Tabernáculo uma vez, está lembrado?
— Vagamente.
— Pois então: eu estava daquele jeito porque não tinha filhos. Mas Javé ouviu minha prece e me deu um filho.
— Com a minha colaboração, é claro…
— Ah, sim: com a colaboração do meu marido aqui, é claro. Então hoje nós viemos aqui para lhe entregar esse menino, Samuel, para que seja dedicado ao serviço de Javé.
— Peraí, eu já sou muito velho para cuidar de um pirralho. Ei!
Mas o casal já havia saído para adorar a Deus. Não tendo outro remédio, Eli começou a cuidar do moleque. Deixemos o velho entretido com as fraldas sujas do menino; voltaremos à história depois. Esse Samuel ainda vai dar muito o que falar.
Timóteo na praça
Essa é pra matar de inveja minha amiga Jana e o Ruy Goiaba: andava eu pela Praça da República, centro de São Paulo, quando vi uma aglomeração um tanto maior do que as costumeiras na região. Cheguei mais perto e vi que havia um crioulo corpulento no meio da roda de curiosos. “Pai-de-santo”, pensei logo. Mas estava com um microfone, e ali perto havia um carro de som. Demorei um pouco para aceitar o que meus olhos viam, mas acabei dando o braço a torcer: era ele mesmo, Agnaldo Timóteo.
Acontece que ontem eu estava com a câmera na bolsa. Sorte, muita sorte! Abri caminho no meio do povo e gritei pra ele:
— Seu Agnaldo, o senhor me permite? — apontando para a câmera.
— Oras, mas é claro. Espera um pouquinho.
Ele pediu para o pessoal que estava na frente dele se afastar um pouco e me fez sinal para ir até lá, para assim tirar uma foto de frente. Fui lá, todo feliz, e bati essa foto histórica:

Tirada a foto, me aproximei dele:
— Muito obrigado, Seu Agnaldo.
— Pô, rapaz. Seu Agnaldo, não. Agnaldo!
— Tá bom, Agnaldo. Vou levar um CD, você autografa?
— Mas é claro!
E foi assim que saí da Praça da República feliz da vida, com uma foto de Agnaldo Timóteo na memória da câmera e um autógrafo dele num CD:




