Ontem teve festa de fim de ano da empresa em que trabalho. Aquela presepada de sempre, mas com uma vantagem: foi um jantar no Terraço Itália, o restaurante cujo prato principal é a vista.
— A prazo não tem?
Asifudê.
O Regis, consultor aqui da empresa, tirou essa foto magnífica:

vista_terracoitalia.JPG
Clique para ampliar, dá um belo wallpaper

Puta que pariu, como eu amo esta cidade.

Essa onda que tu tira, Calebe
Essa marra que tu tem, Calebe
Tira onda com ninguém, Calebe
Calebe, neguinho, Calebe…

Tá, parei.

(Josué 14)

Josué e Eleazar (sumo-sacerdote, filho do velho Arão, estão lembrados?) estavam preparados para o sorteio dos territórios de cada uma das doze tribos. Só lembrando: a tribo de Levi não receberia terras, uma vez que os levitas eram dedicados ao serviço de Javé. Para compensar, a tribo de José foi dividida entre os descendentes de seus dois filhos: Efraim e Manassés. Mas eu dizia que Josué e Eleazar aprontavam-se para o sorteio — começando pela tribo de Judá, sempre privilegiada — quando chegou Calebe:
— Diz aê, Josué.
— Opa, Calebe. Tudo bem com você?
— Beleza. Queria falar uma parada com você…
— Pode falar, rapaz. Somos amigos há tanto tempo, pra que cerimônia?
— É verdade… Então, você lembra de quando viemos espionar esta terra enviados pelo velho Moisés?
— Claro que lembro, como é que eu ia esquecer um negócio desse?
— Pois então. Foi muito foda aquilo. Fomos para a região montanhosa, terra dos anaquins, e os outros se cagaram de medo: que aquilo era um inferno, que os gigantes iam nos esmagar, que perto deles parecíamos uns gafanhotos e blablablá. Bando de cuzão. E nós dois lá batendo o pé: “Queisso, Seu Moisés, a gente pode muito bem vencer os caras”. Lembra, lembra?
— Opa! Como a gente era abusado, não? Os outros eram mais velhos e a gente discutindo com eles, quase partindo pra cima.
— É! Hahahaha, muito bom! O Moisés ficou tão impressionado que me prometeu que eu teria terras aqui em Canaã. Agora você veja: eu tinha quarenta anos na época, hoje tenho oitenta e cinco. No entanto estou aqui, firme e lúcido, e ainda com força para combater na guerra, como tenho demonstrado. Então eu queria te pedir um negócio…
— Pode falar, Calebe! Tá enrolando demais. Somos amigos ou não somos? Oras!
— Então… Eu queria essas terras aí da região montanhosa. Em troca, assumo o compromisso de expulsar de suas cidades os anaquins.
— Hum. Muito bem, é justo. Eleazar, anota aí! A região montanhosa passa a pertencer ao Calebe aqui a partir de hoje. Anotou? Beleza. Pronto, Calebe. A terra é sua.
— Você é um bom amigo, Josué. Muito, muito obrigado.
— Tá, tá. Agora tem jeito de me deixar fazer o sorteio das terras, porra?
— Er… Claro.
E saiu dali todo feliz, já fazendo planos para expulsar os anaquins de Quiriate-Arba (Cidade de Arba. Arba havia sido o maior de todos os anaquins), que depois teria seu nome mudado para Hebrom (do hebraico aliança, trato)

A felicidade recém-nascida, assim como qualquer bichinho no mesmo estado, precisa de muito cuidado e atenção. Porque, vejam, ela nasce com ossinhos frágeis e é toda destrambelhada, anda tropeçando, um inferno. Então convém guardá-la bem, evitar a exposição, que é pra ela durar bastante. Muita gente é feliz por pouco tempo porque não consegue seguir essa regra básica; é feliz porém descuidado de sua felicidadezinha. Aí alguém pisa nela, ou a deixa cair no chão, ou então ela mesma — danada! — pisa no skate no topo de escada e aí babau. Eu mesmo já cometi esse erro algumas vezes. Agora não: ela fica aqui comigo até estar forte o suficiente para poder sair na rua. E não adianta vocês insistirem.

Fim de tarde de sexta-feira. Daniela Abade me telefona. Está agitada. Claro, ela sempre está agitada. Mas dessa vez é outra a agitação:
— Marco, eu estou indignada e quero dividir minha indignação com você.
— Espero que você mantenha essa filosofia quando estiver rica… — não, eu não disse isso, na verdade só pensei nisso agora, merda. O que eu disse mesmo foi: — Hum?
— O Marcelo Mirisola escreveu um artigo descendo o pau no Budapeste.
— Marcelo quem???
— Mirisola.
— Ah…
Lembrei-me do sujeito. Havia lido uma crítica do Polzonoff ao livro dele e pensado “Não é possível, o Paulo pegou pesado com o cara, sacanagem”. No mesmo dia estava na Siciliano da Barão de Itapetininga e vi um livro dele na prateleira. Alguma coisa sobre um filho morto, sei lá. Li um parágrafo e senti imediatamente a vontade de comprar todos os exemplares de todos os livros do Marcelo Mirisola que a Siciliano tivesse em estoque. Para queimar tudo na Praça da República, é claro. O cara é ruim, só isso. Sabe aquilo que Paula Foschia chama muito apropriadamente de vergonha alheia? Aquele constrangimento de se colocar no lugar de alguém que está numa situação muito embaraçosa? Pois então, foi uma das coisas que senti ao ler a prosa (!!!) do Mirisola. Mas o que eu mais senti mesmo foi raiva: raiva de alguém publicar aquilo, de outro alguém vender, de outro comprar, ler e gostar, de outro fazer uma crítica favorável (sempre um crítico que escreve com o cu, para combinar com a escrita culhonística de Mirisola).
Queria falar tudo isso para aplacar a ira assassina de minha amiga Daniela, mas achei melhor apenas chamar sua atenção para a diferença entre Marcelo Mirisola e Chico Buarque, uma diferença que se nota seja qual for o parâmetro de comparação escolhido: qualidade literária, importância histórica, caráter, beleza (o Mirisola é muito feio!). Marcelo Mirisola. Chico Buarque.


marcelo mirisola

FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA

É isso. Não dá pra levar a sério o tal artigo, que tem por título um trocadilho que parece ter sido feito por um piá de doze anos©, e do qual o autor usa um terço para falar de si mesmo, talvez em busca das credenciais que não tem. E ainda acha que “benfazeja” é substantivo! Leiam, leiam. Nota-se que o autor se joga no chão, chora e esperneia: queria ser o Chico Buarque mas — desgraça! — é só o Marcelo Mirisola. Assim é a vida: uns nascem para ser olhos ardósia, outros nunca passam de remela.

(Josué 13)
Pode não parecer quando se fala de tantas guerras e massacres, mas Josué já estava bem velho e ainda havia terras a conquistar. Por isso Javé resolveu adiantar as coisas:
— Josué, você já está velho e ainda há muito o que fazer. Eu ainda queria que vocês conquistassem a região dos filisteus e dos gesuritas no norte, a terra de Avim, no sul, Meara, Afeca, todo o Líbano, os sidônios… Olha, falta muita, muita coisa.
— Beleza, Javé, beleza! É só cê me falar qual é o plano que eu saio agora mesmo pra acabar com essa raça toda. Vai ser bom. Muito bom. Excelente. UHU!
— Caaaaaaaaalma, Josué… Já falei, você está velho, precisa descansar um pouco.
— Descansar? DESCANSAR??? Eu quero é sangue! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEE!
Uma lágrima apareceu no canto do olho de Deus:
— Ah, meu garoto… Tenho muito orgulho de você, viu? Mas chega de guerra por enquanto. Esses poucos povos que sobraram serão expulsos com o tempo, conforme vocês avançarem; por enquanto o que vocês conquistaram dá e sobra pra acomodar o povo. E eu quero que você faça a divisão da terra antes de morrer.
— Humpf. Depois de morrer é que eu não vou…
— NÃO VEM DAR UMA DE MOISÉS PRA CIMA DE MIM NÃO, SEU MEQUETREFE!
— …
— Oras… Bom, pra começar você já pode anunciar às tribos de Rúben, Gade e Manassés do Leste onde eles vão ficar do outro lado do Jordão.
— Hum… E onde eles vão ficar?
— Ó caralho! O Moisés não te deu o mapa antes de morrer???
— Er… Não.
— Puta que pariu, despreparo… Tá aqui o mapa:


(Clique para ampliar)

— Obrigado, Javé.
— Humpf. Entendeu o mapa?
— Claro, ué.
— Então tá. Agora vamos à divisão das terras a oeste do Jordão…

Acredito fervorosamente que se possa definir o caráter de um homem baseado em seu bom ou mau gosto. Tomemos como exemplo os filmes que vi recentemente: na quinta-feira assisti ao argentino O Filho da Noiva, na agradabilíssima companhia da Srta. Brisa. Na sexta à noite assisti Amélie Poulain aqui em casa. No sábado eu e Brisa voltamos ao cinema, dessa vez para assistirmos As Invasões Bárbaras. Ontem à noite revi O Filho da Noiva em DVD, na companhia de Daniela, deus, minha irmã Relssona e Denis Tonon.
E hoje assisti American Pie 3 – O Casamento.

Que eu saiba, o Risadinha (meu amigo tocador de berimbau) quase nunca sonha e quando sonha é com bobagens, como da vez em que sonhou que era um jornal saindo da prensa. Triste. Então ele deve me agradecer por tê-lo levado em meu sonho da última noite, que passo a contar agora.
[bocejo na platéia]
Aconteceu que — sei lá por que meios — eu e Risadinha viajamos para o passado. Chegamos e logo percebemos que estávamos em São Paulo ainda, mas passavam bondes, carroças e aqueles carrinhos antigos na rua. Nossas roupas do século XXI — bermudas cheias de bolsos, camisetas, tênis sem cadarço — chamavam a atenção de quem passava, deixando-nos meio desconfortáveis.
Foi aí que ela veio em nossa direção. Vestia uma roupa meio que de melindrosa, o que me levou a supor que tínhamos viajado para a década de 20. Ela nos cumprimentou, perguntou nossos nomes e disse o seu: Glória. Muito bonita, sorridente e simpática. A princípio pensou que fôssemos estrangeiros, mas descartou a idéia ao ver que falávamos português. Então o Risadinha achou melhor falar logo a verdade:
— Nós viemos do ano 2003. Viajamos no tempo até aqui.
— É mesmo??? Que legal!
Glória se mostrava entusiasmada, mas não descrente: aceitou logo de cara que estava conversando com viajantes do tempo. Seguro com sua confiança, perguntei:
— Em que época estamos? Anos 20, não?
— Não, de jeito nenhum! 1940.
Ela deve ter notado que eu olhava suas roupas, porque emendou:
— Ah, e eu me visto assim porque a moda de agora não me agrada. Roupas muito sérias, muito fechadas, credo! Mas venham, vou mostrar a cidade a vocês. Essa aqui é a Avenida Paulista.
Estava irreconhecível a avenida, com trilhos passando pelo meio e casarões e chácaras dos dois lados. Dois homens juntaram-se a nós no passeio: um era tio de Glória, um senhor risonho de barba branca bem aparada, terno e chapéu marrons, bengala. O outro, amigo dele, era um preto de terno de linho branco, falante e engraçado (embora eu não me lembre de nada do que ele dizia; assim são os sonhos). Andávamos pela Paulista e conversávamos, um passeio muito agradável. Num intervalo da conversa, o Risadinha perguntou:
— E aí, Glória? Quer saber alguma coisa do futuro?
Ela pensou um pouco e fez a pergunta mais inesperada:
— Vai faltar milkshake?
— COMO???
— É que eu adoro milkshake
— Hum — comecei — Teve uma época em que faltou leite. Foi depois do Plano Cruzado, com o Sarney — à menção do nome ex (ou futuro, sei lá)-presidente, os três caíram na risada, sabe Deus por quê. — O povo se empolgou, mas não durou muito. E depois de um tempo começou a faltar leite, carne, tudo.
— E quando vai ser isso?
— 1986, 87, por aí.
— Ah, falta tempo…
Nisso já tínhamos chegado à Consolação, então eu pedi para que nos levassem ao Viaduto do Chá. Fomos para lá. Do outro lado do Vale, o viaduto Santa Ifigênia parecia flutuar no meio da iluminação fraca.
— Olha, Risadinha, que lindo o Santa Ifigênia!
E ele, com a eloqüência de sempre:
— É.
Queríamos ir embora, mas Glória não deixou: primeiro tínhamos que conhecer um amigo dela, um artista. Então fomos para a casa do tal artista. Entramos e eu fiquei um tempo sem reconhecer onde estava. A casa ficava de frente para um parque. Percebi enfim: o parque era o Ibirapuera. Eu tinha demorado para reconhecer porque se parecia mais com o Passeio Público de Curitiba (ah, Curitiba…). Quanto ao tal artista, era um jovem que alugara aquela casa em frente ao parque e era vítima de chacota por isso. O próprio tio da Glória comentou com o amigo:
— Uma casa desse tamanhinho e ele pagando 600 mil réis de aluguel. Em qualquer outro lugar da cidade não sairia por mais de 150.
(Qual era a moeda em 1940???)
Eu queria saber quem era o tal do artista, mas não queria perguntar. Então fiquei zanzando pela casa até encontrar uma gravura de estilo inconfundível na parede. Fui verificar a assinatura só para confirmar, e era ele mesmo: Osvaldo Goeldi. Não estranhem: essas edições das obras de Dostoiévski da Editora 34 são ilustradas com gravuras de Goeldi. Além do mais, o nome da rua onde moro e sempre morei é Osvaldo Goeldi, então eu conheço o cara desde pequeno. Só que hoje eu descobri que ele nasceu em 1895, portanto tinha 45 anos em 1940, e não a idade de Glória. Detalhes, detalhes, vamos em frente!
Saímos da casa do Osvaldo Goeldi e resolvemos voltar para 2003. Só que Glória encasquetou que queria ver um filme, então entrou num cinema sem falar conosco. Entramos atrás e ela estava conversando com o bilheteiro. Os ingressos haviam se esgotado e ela contava para ele (um negão barbudo) que estava com dois amigos que tinham vindo do século XXI e tal. Ele, é claro, não acreditou, então eu quis provar:
— Ô, meu amigo, é só me perguntar qualquer coisa do futuro aí.
— Grande coisa. Como vou saber se é verdade ou não?
— Bom. Sabe a guerra na Europa?
— Sei, sei.
— Então. Tá no começo ainda. Vai até 1945. Os Estados Unidos vão entrar na guerra.
— Até parece…
— Verdade, e o Brasil também. O Eixo vai se dar bem até 1945. Aí o Hitler vai querer invadir a União Soviética, e será derrotado pelo inverno.
— Mané inverno — me interrompeu o Risadinha — Isso aí foi com o Napoleão.
— E com o Hitler também, seu burro.
— Calaboca… A guerra acaba na Europa com a invasão da Normandia.
— Pfff… Bom, tem Hiroshima e Nagazaki.
— É mesmo.
— Hein? — o bilheteiro, entendendo nada.
— Ah, então. Os EUA vão jogar duas bombas atômicas sobre essas cidades. Aí sim a guerra acaba.
— Bah! Me deixa trabalhar, vai. Cambada de doidos…
Saímos de lá muito putos, enquanto Glória e seus dois acompanhantes riam. Mas era hora de ir embora, então nos despedimos.
— Hum… Dois mil e três, né?
— É.
— Acho que não vou estar viva até lá.
— Ué. Quando você nasceu?
— 1920.
— Pode ficar viva até lá sim.
— Bem que vocês podiam me procurar então, né?
— É verdade.
— Então anotem aí: meu nome completo é Glória…
E foi aí que eu e o Risadinha voltamos a 2003. Merda.