Preciso comprar roupas.
Não perguntei nada, Marcurélio. E isto aqui não é blog-diarinho, caralho.
Isto aqui é o que eu bem entender, e hoje vai ser diarinho. Então. Preciso comprar roupas. Mas não sei fazer essas coisas. Sério. Ontem entrei numa loja, pedi para ver umas calças e já comecei a me sentir estranho. Os vendedores, TODOS ELES, me olham com aquela cara de vejam-o-cara-que-nunca-entra-numa-loja.
Sempre que tenho que comprar roupa (sim, porque eu só faço essas compras quando não tenho MESMO mais nada para vestir), vou a lugares como a Renner, às vezes a C&A, porque posso escolher a roupa que quero sem precisar daquela hipocrisia de vendedor vir se apresentar, perguntar meu nome, me empurrar várias peças que não pedi, essas coisas. “Isso aqui tá usando muito”. “É, mas EU NÃO tô usando, ok. Te pedi AQUELA camiseta da vitrine, tamanho GG. Tem ou não?”.
Sim, sou estúpido. E me irrita esse negócio de ter que EXPERIMENTAR roupas. Porra, eu uso calça 46. Algumas calças 46 ficam folgadas em mim (juro!), outras não entram nem com calçadeira (não que eu tenha tentado, ainda tenho um certo senso de ridículo). Por que é assim, cazzo? Em qualquer loja de sapatos que eu entrar, seja qual for o calçado que eu quiser, só experimento pra ver se fica legal no meu pé ou não. O número é sempre 41, SEMPRE! O mesmo se dá com ternos: 56 médio. Camisas: 4, colarinho 5. Por que com calças tem que ser diferente, cáspita? Em tal loja, a calça 46 é pro cara de 1,90m de altura pesando 70 quilos. Em outra é pro cara de 1,80m e 80 quilos. E, juro, uma que eu tentei provar ontem era feita sob medida pra algum freak de três metros e 45 quilos.
Bah, comprar roupa me estressa. Acho que vou dar uma passada na Renner hoje.

(Levítico 8)
— Ô Chicoteia! Acorda, caralho! Sua vez!
— Minha vez de quê?
— De dar as cartas… Oras, de quê! De contar a história!
— Mané história! Moisés e deus tão conversando aqueles trecos chatos lá do Levítico. Me deixa dormir.
— Que conversando nada! Já chegamos na ordenação dos sacerdotes.
— Já??? Impossível, isso fica lá no oitavo capítulo!
— Pois é. Só que você fez aquela pilantragem de contar um pedação em dez linhas, deu nisso. Agora precisamos de um narrador para esse capítulo.
— Pô, mas logo eu?
— Ah, mas só faltava essa! Você que inventou isto aqui, e agora vai deixar seus leitores na mão?
— Bah, peraí. Ó, esse cara aí pode fazer minha parte:

— O Athayde Patreze??? Cê tá doido?
— Ué, a tal ordenação não é um acontecimento social? Então. Eu ia chamar o Amaury Jr., mas meu orçamento tá apertado.
— Humpf. Tá, tá bom. Vamos lá então, Athayde, que parece que já começou o negócio
* * *
— Nós estamos aqui no Tabernáculo de Javé no meio do deserto para a ordenação de Arão e seus filhos como sacerdotes. Ali na porta da tenda está o Moisés, nosso anfitrião, que é SIMPLESMENTE um lu-xo! Vocês podem ver que tem um monte de gente lá fora, populares que vieram assistir a toda essa demonstração de fausto e riqueza. Não são lindos? Estão ba-ban-do! Olha, parece que vai começar a cerimônia, Arão e os filhos dele chegaram perto de Moisés. Estão só de calção, vejam que sexy isso! Estão se lavando para poderem vestir as roupas novas. E vejam que roupas, tudo de tecidos finos, com detalhes e adereços em ouro, que coisa maravilhosa! Ficaram lindos, meninos! E agora? Ah, Moisés está borrifando azeite por toda a tenda. E derramou azeite sobre a cabeça de Arão também, para ordená-lo como sacerdote. Que ritual mais lindo, que demonstração de fé! Olha que bonito agora, Moisés está trazendo um bezerrinho para dentro da tenda. Que lindinho! Arão e os meninos botaram as mãos na cabeça do bichinho e… O que Moisés está fazendo? HEIN? Não é possível! ELE MATOU O BEZERRINHO! MATOU! TADINHO! Ai, eu não agüento! Ai, meus sais, meus sais!
— Sai daqui, sua bicha. Cê não tá acostumado com essas coisas.
— Ai, que bom que você chegou, Chicoteia. Olha o que eles estão fazendo com o bichinho!
— É assim mesmo, Athayde. Deixa comigo, eu termino de contar.
— Obrigado. Você é SIMPL…
— Tá, tá, já sei.
Aham. Então, Moisés matou o bezerrinho. Oras, que dúvida. Estava demorando pra ter um pouquinho de sangue pra Javé nessa história de ordenação. O tal bezerro era pra tirar os pecados dos sacerdotes. Moisés fez o negócio todo de borrifar sangue nos cantos do altar, derramar o resto na base, queimar a gordura e os miúdos, aquilo tudo que já estamos cansados de saber. Depois do bezerro, veio um carneiro para ser completamente queimado. E depois outro carneiro, esse especial para a ordenação, que Moisés matou e depois pôs um pouco do sangue na orelha direita de Arão, no polegar direito e no dedão do pé direito, fazendo depois o mesmo com seus filhos (o mesmo que fez com Arão, e não com o carneiro. Infelizmente). Feito isso, separou a gordura, o rabo, a melhor parte do fígado, os rins e a coxa direita do carneiro, mais um pão sem fermento da cesta das ofertas e deu tudo isso nas mãos dos sacerdotes recém-ordenados. Moisés ficou com o peito do carneiro, porque não é só Javé que come nessa história.
E aí começou a sacanagem com os caras: Moisés pegou um pouco do azeite sagrado, misturou com o sangue que estava no altar e borrifou Arão e seus filhos com a mistura.
— Peraí, Moisés, que porra é essa? Olha nossas roupas novas!
— S-sei de n-nada! Ja-Javé que m-mandou fa-fazer isso. E m-mandou ta-também vo-vocês co-cozinharem a ca-carne ju-junto com o p-pão da c-cesta lá na e-entrada do Ta-Tabernáculo, e co-comeremm tudo. Vo-vocês v-vão fi-ficar se-sete d-dias a-ali na p-porta.
— Ah, Moisés, não fode! SETE DIAS ao relento na porta da tenda? NEM A PAU!
— Cê que sa-sabe, A-Arão. Ja-Javé d-disse que vai ma-matar quem n-não o-obedecer.
— Filho da puta…
— Hehehe.

Eu vinha pra cá pensando em várias coisas para escrever em homenagem ao bonitão que hoje completa 27 anos. Mas sei lá. Acho que já escrevi tudo o que podia para ele. O resto não se escreve; não dá pra falar de amizades duradouras e verdadeiras como quem fala do tempo, ou do trânsito, ou da reescritura do Levítico.
Então só tenho uma pergunta. Lelê,
VOCÊ AINDA ME AMA?

Apesar de descrente, no Ano Novo dou carta de alforria ao ceticismo e adoto algumas superstições. Uma só, na verdade: Para dar sorte no ano que chega, sempre tenho uma mulher linda para pular em cima de mim e cobrir minha boca de beijos. Esse papel tem sido desempenhado — com louvor! — por uma certa garota que muito prezo.
Só que esse ano vou passar o reveião longe dela e de todo o meu povo, em Brasília, então gostaria de saber: Alguma brasiliense quer proporcionar a mim um 2003 muito feliz?