Uau! 90 comentários para me ajudar a escolher um carro velho. Tive o trabalho de contar as opiniões positivas e negativas para cada modelo, e classificá-los de acordo com o saldo. Até agora, Corsa (+6), Monza (+5), Corolla (+4) e Subaru (+4) são os melhores. Os piores são o Daewoo Espero (-3), o Hyundai Accent (0) e, para minha surpresa, o Escort (também -3). Destaques para dois que pontuaram bem e nem estavam na lista, Xsara (+3) e Santana (+3). Outros que também não estavam na lista pontuaram +1: Kadett, Civic, Astra/Vectra importados, Verona, Renault 19 RN e Renault Mégane.
Resumindo, complicou mais ainda: consegui descartar os coreanos e o Escort de minha lista; em compensação, entraram outros sete modelos na parada. Muito obrigado, queridos leitores.
Carro velho
E aí que este mês eu termino de pagar o Corsa (aplausos!), e já vou vender o coitadinho. Tenho contas a equilibrar, e calculo que vão me sobrar uns 10 ou 12 mil reais. Como quero evitar entrar em outro financiamento, quero comprar outro carro à vista. Só que não quero carroça: me acostumei com travas elétricas, direção hidráulica, a veadagem toda; me cansei de motor 1.0. Minhas opções, portanto, se reduzem a carros com mais de dez anos de fabricação, a maioria importada. Já sei das restrições: seguro, só contra terceiros. E não sei o que é mais difícil: encontrar peças ou vender o danado. Mas não me importo de me casar com um carro, desde que ele preste — e seja de boa família. E só uso carro nos fins de semana. Então fiz uma lista de possíveis candidatos a ocupar a vaga em minha garagem, ou melhor, no estacionamento da Rua Aurora:
- Corsa Wagon (gosto de Corsa, ué)
- Monza (um dos sonhos de infância)
- Daewoo Espero (coreano barato, completo, resistente e com mecânica GM)
- Escort (a partir de 1997, porque dizem que o motor é bom)
- Mondeo (não sei se mantenho na lista ainda)
- Honda Accord (é como o Spectreman: japonês indestrutível, pelo que li por aí)
- Hyundai Accent (coreano econômico, parece meu Corsa)
- Subaru Impreza (gosto de Subaru por dois motivos: é japonês e rende um bom anagrama)
- Toyota Corolla (o modelo antigo, é claro)
Esse negócio está um inferno. A marida não agüenta mais me ouvir falar em carro; justo eu que nunca liguei para isso. Cada dia eu chego em casa decidido por um modelo; ela quer me jogar pela janela.
Minha lista tinha também o Ford Taurus, mas o motor 3.8 bebe mais do que corno inconformado. O Jeep Willys é o grande sonho de infância, mas é impraticável como único carro: bebe mais do que o Taurus, anda muito menos, é desconfortável e coisa e tal. Ainda vou ter o meu, mas só quando tiver condições de sustentar dois carros. Quanto aos coreanos, não sei se prestam mesmo. Os donos dizem que sim, mas se fosse verdade só tinha carro coreano no Bom Retiro. Não é o que acontece: coreanos e judeus parecem gostar de carros japoneses (os bolivianos dirigem máquinas de costura).
Porque estou contando isso tudo: é muito difícil decidir tendo por base só os fóruns, clubes online e comunidades do Orkut. Cada proprietário diz que seu carro é o melhor do mundo, sem apresentar argumentos. Os detratores do carro fazem a mesma coisa: “Esse carro é um lixo porque é velho/importado/desvalorizado/invendável”, mas não se esforçam para provar seu ponto de vista. Bom, então o negócio é apelar para meus distintos leitores. Só aceito opinião de quem tenha um desses carros, ou conviva com alguém que tenha. E não adianta vir com “Ah, se eu fosse você eu não entrava nessa roubada”, porque eu já decidi comprar um carro velho, barato e ficar alguns anos sem entrar em financiamento.
Reporterzinho de merda
Nesses três anos de profissão, nada me assusta mais do que cobrir eventos. Enquanto estou na redação, estou bem. A redação é um ambiente amigável, com gente que eu conheço e onde eu faço o que gosto de verdade: escrever. Só que ser repórter não é só escrever: é apurar, entrevistar, investigar, sondar, blablablá. Quando saio para cobrir eventos — ainda mais eventos importantes, que duram vários dias e tal — me sinto o último dos manés. Olho para os colegas e todos eles têm suas fontes, informações exclusivas, histórias para contar. Quanto a mim, ando pelo evento, assisto a painéis e palestras, visito a exposição, e não consigo ver nada de interessante. Os mesmos palestrantes repetem os mesmos assuntos para as mesmas pessoas. Nos painéis de debates, cada participante concorda alegremente com o que os outros falam. Nos estandes, duas, três, oito empresas demonstram produtos idênticos, apresentando-os como exclusividades magníficas. Eu não entendo.
E aí está o grande problema: não tenho o desembaraço necessário para abordar pessoas, apresentar-me, puxar assunto. Sou reservado com gente que não conheço, o que não é aconselhável para quem se propõe a ser um repórter. Então observo, escuto conversas, presto a maior atenção e, se achar que vale a pena, me obrigo a chegar perto e dizer, “Oi, sou repórter, queria conversar com você sobre esse negócio aí.” Só que eu raramente acho que vale a pena.
Minha impressão é que não tem nada de novo acontecendo, que “inovação” é só uma palavra que já está saindo de moda, que certo mesmo estava o autor do Eclesiastes. Mas não é possível. Estou numa sala de imprensa cheia de jornalistas, ao lado há outra sala cheia de assessores de imprensa. Essa gente toda não ia convergir para um mesmo lugar se não houvesse nada de novo acontecendo.
Ia?
Gente, que coisa horrível, não?
O povo clama para que eu me manifeste sobre o seqüestro de Santo André. E eu nem sabia que tinham seqüestrado o apóstolo…
…
Tá, mentira. Ninguém me perguntou nada. Mas digo mesmo assim: consegui passar a semana inteira docemente ignorante sobre o que acontecia num buraco qualquer de uma cidade-dormitório. Outras coisas aconteciam em outros buracos de outras cidades-dormitório, e é claro que não me interessavam. Então por que eu daria atenção a esse caso específico? Só porque a imprensa ficou falando nisso?
Bom, não consegui manter minha total ignorância, infelizmente. Matei aula na sexta-feira porque já sabia qual seria o tema: há anos os professores de jornalismo se desesperam em busca de um assunto diferente dos casos Escola Base e Bar Bodega. Esse novo caso de trapalhada midiática deve ter sido um alívio para eles. Atenção: se você pretende estudar jornalismo algum dia, prepare-se para debater o seqüestro de Santo André à exaustão.
De resto, minhas opiniões permanecem mais ou menos as mesmas desse outro post. E o rato de Green Mile ainda me comove mais.
Mão no peito
No começo de nossa vida adulta, quando nos conhecemos, Daniela e eu tínhamos empregos ridículos. Eu era o moleque de informática de um colégio de padres. Mesmo assim, ela ganhava: ela tinha de usar uniforme no trabalho. Eu achava isso triste. Até um dia em que eu tirei folga (ou talvez estivesse desempregado, sei lá) e fui almoçar com ela. Na porta do prédio, ficava vendo as colegas dela que saíam para o almoço. Murchinhas em seus uniformes, pareciam todas o que eram mesmo: recepcionistas, telefonistas.
Então saiu Daniela lá de dentro, andando toda empinada, autoconfiante, olhando firme para a frente. Ela parecia pairar sobre as colegas, superior a elas. No meio das recepcionistas e telefonistas, ela parecia uma aeromoça.
Corta para algum ponto lá pelo meio de 2007, ano maldito. Daniela estava no hospital pela segunda ou terceira vez depois de começar a quimioterapia. A medula dela não gostava dos remédios, os leucócitos sumiam, ela precisava ser internada. Nesse dia ela ia precisar de uma transfusão de sangue. Liguei para o hospital; ela não queria falar com ninguém. Falei com a mãe dela, já ia desligando quando ela pegou o telefone. Demorei para reconhecer a voz, de tão fraca e sem expressão. Foi tão ruim que, mesmo sabendo que ela não queria ver ninguém, eu precisei ir até o hospital.
Quando cheguei, encontrei minha amiga pálida, deprimida, com olheiras. Semanas antes eu tinha ido ao mesmo hospital para cortar o cabelo dela, que começava a cair. Nessa ocasião ela estava bem humorada: aceitou numa boa a máquina raspando sua cabeça e depois ainda fez uma dancinha na frente do espelho — que eu não vi, só deduzi. Ela ficou bonita careca, e isso não a fez perder a pose de aeromoça.
Nessa outra ocasião era tudo diferente. Quem dera ela parecesse uma recepcionista. Ela parecia pequenininha naquela cama, assustada. Ela estava com medo de morrer; estávamos todo com medo de que ela morresse. Eu passei um tempo olhando para ela, procurando algo positivo para dizer. Reparei na boca inchada e falei algo sobre ela estar parecida com a Angelina Jolie. Fui embora logo, ela não estava para conversa.
Chorei no carro voltando pra casa, foi ridículo.
Bom, tudo já passou, Daniela está bem, com dois peitos e vários cabelos. Ela fez até um blog para contar sua história — se você ainda não leu, você é um mané. E agora ela está apoiando a campanha Outubro Rosa. Eu apóio também:

Ok, não sou bem uma blogueira, mas não se prendam a essa irrelevância. O negócio é que eu quero todas as minhas leitoras saudáveis e felizes, como aeromoças espevitadas. Então, minhas queridas, façam o favor de examinar esses peitos aí. Se minha marida não se opuser, eu posso ajudá-las com isso.
Manchete bombástica
Cheio de paixão
Depois de cinco meses morando no centro de São Paulo, finalmente eu começo a explorar detalhes das redondezas. Eis outro benefício trazido por São CPAP: agora eu acordo mais cedo e com disposição para bundear por aí. Hoje acordei às sete da manhã e fui dar uma volta pelo Largo do Arouche. Antes não o tivesse feito.
A prefeitura tem um projeto chamado Adote uma Obra Artística. A Votorantim adotou várias esculturas do Largo do Arouche e o índio veado da Vieira de Carvalho. Cada obra adotada foi cercada por um tapume com informações sobre a escultura e seu autor. No Largo do Arouche, três obras passam por restauração. Então hoje de manhã, caminhando por ali, notei um busto numa das laterais da praça. Antes imperceptível, ele agora se destaca por ser a única escultura exposta. De longe já vi que o busto estava maltratado, coberto de musgo, com um pardal usando a cabeça do homenageado como banheiro, mesmo destino dado ao pedestal por cães e mendigos. Cheguei perto para ver quem era o pobre coitado excluído de tão louvável iniciativa de restauração.
Pois bem, o nome do sujeito é Luiz Gama. Tirei uma foto:
Luiz Gama, um negão cheio de paixão, nasceu na Bahia em junho de 1830. Era filho de um fidalgo português com uma escrava, e nasceu como homem livre. Aos 10 anos, porém, o pai o vendeu como escravo para pagar dívidas de jogo. Aos dezoito, ele conseguiu fugir do cativeiro e se alistou na Exército. Chegou a cabo, mas acabou expulso por insubordinação. Veio morar em São Paulo, trabalhou em repartições, acabou formando-se advogado. Dedicou-se à defesa dos pretos, e nos tribunais conseguiu libertar mais de 500 escravos. Escreveu versos satíricos de crítica social (achei esse, leiam que vale a pena). Abolicionista de primeira hora (também porque lhe convinha, convenhamos), conviveu com Castro Alves, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, aquela patota toda. Morreu em 1882, seis anos antes da Abolição.
Hoje, o busto que homenageia Luiz Gama está jogado num canto qualquer do Arouche, sem qualquer placa que lhe identifique o autor ou informe a data da obra*. E sem direito a restauração.
Vida de preto é difícil. Até quando vira estauta.
* Mas para isso serve o Google. Yolando Mallozzi esculpiu o busto, que foi inaugurado oficialmente em novembro de 1931. O busto está em processo de tombamento desde 1992. Parece também que o local original da escultura era nas proximidades da Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. Depois o negão foi para o Arouche; não sei quando nem como. Insubordinação, provavelmente.
São CPAP
Acordei hoje às sete e meia da manhã, na mesmíssima posição em que tinha ferrado no sono, pouco depois da meia-noite. Para muitos de vocês isso deve não ter nada de mais. Eu os invejo. Minha rotina ultimamente era dormir pouco, levantar de duas em duas horas e acordar com o despertador berrando na minha orelha. Obrigava-me a levantar da cama, agia como um zumbi por algumas horas, e o resto do dia era uma briga danada para não dormir — no ônibus, no trabalho, na faculdade.
Agora são oito da manhã e eu me sinto como se tivesse dormido dezesseis horas seguidas. Tudo graças à melhor invenção do mundo, esse simpático apetrecho:
Só foi um pouco assustador pra Ana Cartola, tadinha…
Uma lasquinha da cauda longa
Web 2.0, Era da Participação, Cauda Longa. Só eu tenho vontade de vomitar quando alguém começa com essas conversinhas? Parece que sim. Parece que tem gente por aí que acredita tanto no poder das mídias sociais (?) que está vendo se tira uma casquinha dessa onda. Vejam: se eu compro um produto com defeito, ligo para quem me vendeu, explico a situação, vejo se tem conserto. Se me enrolarem, exijo que troquem o produto. Se não trocarem, devolvo e pego meu dinheiro de volta. Simples. Né?
Né não. Segundo Ian Black, né não. Ele teve lá um problema com um notebook. Imagino a irritação, a frustração por não poder usar um brinquedo novo. Eu mesmo comprei um brinquedo esta semana e estou que não me agüento, esperando a entrega. Então entendo, é claro. O que eu não entendo é o Ian querer que a Dell:
- mande um técnico até a casa dele para consertar o notebook
- devolva o dinheiro que ele pagou
Ele diz que dar o notebook de presente seria um bom negócio para a Dell. Que ele vai falar bem da Dell pra todo mundo se isso acontecer. E ainda vai doar o bicho para uma ONG. Eita!
Precisa acreditar muito nesse papo de Web 2.0 para fazer uma proposta dessas em público. Ora, imaginem se a Dell resolve dar notebooks para todo mundo que tiver problemas com seus produtos. Vai ser o cão de saias!
Hipocrisia da pemba
Peraí.
Então Dona Marta, tão amiga dos gays, agora faz campanha insinuando que não devemos votar no Kassab porque ele é veado? Mas é uma vaca mesmo.
Ô, segundo turno ruminante!


