Teste fajuto

Quem lia este blog no tempo em que ele ainda estava vivo sabe que eu não resisto a um teste. Sim, esses testezinhos safados de internet. Você responde umas perguntas e no final sai lá o resultado: que personagem de Friends você é, que planeta do Sistema Solar, para que círculo do inferno você vai, essas coisas.
Um tipo de teste que eu adoro é o de ideologia. Eu conhecia o Politicômetro da Veja e o Political Compass; em ambos me saio como liberal de direita:

Politicometro

PoliticalCompass

Esta semana a Folha de S. Paulo publicou seu próprio teste de tendências políticas e é claro que eu não resisti. Fui fazendo, estranhando as perguntas, e no final veio a surpresa desagradável: centro-esquerda.

Então percebi que o teste foi feito já pensando nisso mesmo: tudo o que é bom, bonito, moderno é de esquerda. Tudo o que é ruim, feio e retrógrado é de direita. A Folha acha que eu sou retardado. Querem ver? Vamos às perguntas.
1. Posse de armas:

  • Arma legalizada deve ser um direito do cidadão para se defender
  • Deve ser proibida, pois ameaça a vida de outras pessoas

Eu não quero ter arma, não gosto de arma, não sei nada sobre armas. Tenho vontade de fazer umas aulas de tiro, imaginar várias pessoas que me irritam no lugar dos alvos, mas só isso. Esse sou eu. Os outros são os outros. Entendo quem se sente mais seguro tendo uma arma em casa. Eu moro numa casa, é muito fácil entrar lá. Às vezes penso que seria bom ter uma arma. O ladrão entra no escuro, eu desço a escada sem fazer barulho e engatilho minha Schwimm-Larson .45 (sei nada de arma) e o cara se caga de medo. Eu mando ele deitar no chão, amarro o sujeito com pedaços de varal, chamo a polícia. O cara vai preso, eu dou entrevistas posando de herói humilde.
Tá, minha cabeça funciona assim, eu sou doente, não vem ao caso. Armas são perigosas, mas a vida anda perigosa também. Num jogo assim, é bom ter algum cacife. Uma criança pode pegar a arma e se matar? Pode. Ela também pode morrer afogada na piscina ou entornando uma panela de água fervendo. A vida é perigosa.
Bom: sou a favor da legalização das armas, com as restrições cabíveis. Isso me faz um monstro reacionário direitista do inferno? Que seja. Próxima pergunta:
2. Migração

  • Pobres que migram contribuem com o desenvolvimento
  • Pobres que migram acabam criando problemas para a cidade

É claro que os migrantes contribuem com o desenvolvimento, diabo. Meus pais e tios vieram da Bahia e fizeram muito mais por São Paulo do que São Paulo fez por eles. Isso para mim não tem discussão. Todo mundo é livre para ir aonde estão as oportunidades de trabalho. Isso é liberdade individual, bandeira do liberalismo. Mas é óbvio que a Folha pensa que minha opinião faz de mim um esquerdista. Paciência.
3. Homossexualidade

  • Deve ser aceita por toda a sociedade
  • Deve ser desencorajada por toda a sociedade

Aceita. Deve ser aceita. Liberdade individual. O que é que a sociedade tem que se meter no que o indivíduo faz na cama (ou no chão, ou no carro, ou no banheiro da boate enquanto cheira cocaína)? Quem disser que a homossexualidade deve ser “desencorajada” (como faz?) não é de esquerda nem de direita: é idiota.
4. Pobreza

  • Boa parte está ligada à falta de oportunidades iguais
  • Boa parte está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar

Só existem essas opções? O mundo não é justo, lide com isso (eu ia escrever “deal with it”, mas aí iam me acusar de vendido ao capital americano ou sei lá que ofensas a esquerda usa hoje em dia). Há oportunidades, mas elas não são iguais, assim como as pessoas não têm todas a mesma capacidade, talento, sorte etc. Voto na primeira opção porque é nojento dizer que o pobre é pobre por ser preguiçoso. Quem acha isso, mais uma vez, é idiota. E aí dou essa opinião e a Folha, contra minha vontade, me empurra um pouquinho mais para a esquerda.
5. Pena de morte

  • Não cabe, mesmo que a pessoa tenha cometido um crime grave
  • É a melhor punição para indivíduos que cometem crimes graves

Sou contra a pena de morte pelo mesmo motivo por que sou contra o aborto: algo muito forte dentro de mim me diz que a vida é sagrada. O ex-artista Caetano Veloso fala do cardeal “… que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal”. Eu vejo tanto espírito no feto quanto no marginal e sou contra terminar deliberadamente a vida de qualquer um dos dois. Essa coisa de achar que a vida é sagrada tem um quê de religião, eu sei. Religião, segundo a Folha, é coisa de direitista. Só que sou contra a pena de morte, então dou mais um passo à esquerda. É um caralho.
6. Sindicatos

  • Servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores
  • São importantes para defender os interesses dos trabalhadores

Os sindicatos existem para defender os interesses dos trabalhadores, e houve época em que faziam isso mesmo. Isso acabou. Líderes sindicais querem fazer carreira política e ganhar dinheiro. Estou falando de orelhada, dos sindicatos que já conheci. Talvez ainda exista algum à moda antiga. Como só posso falar do que conheço, primeira opção.
7. Criminalidade

  • A maior causa é a falta de oportunidades iguais para todos
  • A maior causa é a maldade das pessoas

Durante muito tempo eu fiz muito esforço para acreditar na primeira opção. Mas não, né? Tem gente ruim no mundo, muita gente ruim. Há quem não seja exatamente mau, mas que prefira o caminho mais fácil de roubar. E existe gente que é levada ao crime pelas circunstâncias, claro que existe. Gente que comete um crime e depois não dorme de consciência pesada. É a maioria? Já tentei achar que sim. Hoje acho que não. Há maldade no mundo. Esse negócio da esquerda de achar que todo mundo é bonzinho seria até bonito se não fosse uma mentira consciente e sem-vergonha.
8. Adolescentes

  • Aqueles que cometem crimes devem ser reeducados
  • Aqueles que cometem crimes devem ser punidos como adultos

Vocês podem não acreditar, mas eu já fui adolescente. Tinha total consciência de tudo o que eu fazia, e noção de causa e efeito. Eu sabia que se fizesse merda ia me acontecer merda. Adolescentes devem ser punidos, só tenho dúvida quanto a esse adendo “como adultos”. Se significa ir pra cadeia junto com os marmanjos, discordo porque NÃO CABE MAIS NINGUÉM NA CADEIA, PORRA. Se significa ser preso, cumprir pena, pagar a tal dívida com a sociedade ao lado de outros dimenors, concordo.
9. Drogas

  • Uso não deve ser proibido, pois o usuário é o mais penalizado
  • Uso deve ser proibido, pois a sociedade é a mais penalizada

Libera tudo. Liberdade individual. “Ah, mas a saúde pública…” O sistema público de saúde é uma merda e vai continuar sendo uma merda. Além do mais, não vão ser 190 milhões de brasileiros trincadões de cocaína ou chapados de maconha. Quem usa vai continuar usando, alguns que não usam vão experimentar.
10. Religião

  • Acreditar em Deus torna as pessoas melhores
  • Acreditar em Deus não necessariamente torna uma pessoa melhor

Ah, sim, porque ESSA é a questão mais importante sobre religião. Pergunta idiota. Só acreditar em Deus não faz ninguém ser melhor. Deixar de acreditar também não.
E aí vem o resultado:
teste_folha
Ô, Folha, vai à merda. A única coisa que eu tenho de centro-esquerda é o pinto.

13 comments

  1. Esse teste é baseado em uma pesquisa com americanos. Ou seja, nos EUA você seria de centro-esquerda, nesse ponto o teste não está errado. Serve mais pra perceber a opinião do americano médio que qualquer coisa. Mas sim, é um teste fajuto, o political compass é mais honesto.

  2. Odeio esses rótulos. Estudei um pouco de Ciências Políticas e Sociais, o suficiente para saber que direita/esquerda é uma categorização insuficiente pra reger todas as coisas. Entendo as teorias de vitimização, mas acredito na soberania do sujeito das decisões. O fator humano deve sobrepor o material e o Eatado deve intervir em situações de extremo risco. Sei lá, são opiniões, advindas de um pouco de conhecimento e experiência. Enfim… se é pra ter um nome pra essas ideias…. mas, fiquei curioso para saber o que tu respondeste no 1º teste para ser “direita-liberal”, já que parece que tuas ideias parecem com as minhas e eu sou “esquerda-liberal”.

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