O relógio

Na década de 60, meu pai ganhou esse relógio do patrão dele, o dono do Hotel Ca’d’Oro. Ele teve vários outros relógios depois desse, inclusive um que eu dei de presente, mas mantinha o primeiro relógio bem guardado dentro do bolso de um paletó que não saía do guarda-roupa. Meu pai me ofereceu esse relógio durante minha vida toda. Meu relógio quebrava, era roubado ou perdido, e lá vinha Seu Lindauro: “Por que você não usa aquele meu relógio?”. Eu sempre recusava, claro. Era um relógio “de velho”. Pra que usar relógio de tiozão se eu tinha um relógio digital que acendia luzinha, com doze musiquinhas de alarme, ou um Champion com sete pulseiras coloridas?
Eu fui ficando velho e meus relógios começaram a ficar cada vez mais parecidos com o velho Omega. Passei a gostar do relógio do meu pai, mas ainda não o queria, agora por outros motivos: ele podia ser roubado, eu podia perdê-lo, sei lá. Então ele foi ficando lá no bolso do paletó.
Nas semanas seguintes à morte do meu pai, eu ia fuçar nas coisas dele sempre que podia. Achava um bilhete, uma lista de compras, cartões que eu e meus irmãos fizemos para ele no Dia dos Pais. Um dia me lembrei do relógio, fui olhar no bolso do paletó e lá estava ele. Dei corda, funcionou. Fiquei tenso: deveria ficar com ele? E se meu irmão quisesse o relógio? Minha mãe me convenceu: era melhor manter o relógio como lembrança e arriscar perdê-lo do que esperar que o paletó fosse doado com relógio e tudo. Então fiquei com ele.
Dois anos depois da morte do meu pai, continuo usando o relógio dele. Não funciona direito: às vezes pára sozinho, não adianta dar corda. Depois de uns dias volta a funcionar. Preciso levá-lo ao relojoeiro, mas fico adiando. Gosto de imaginar que meu pai dá um jeito de vir à noite e fazer uma gambiarra no relógio. Nada definitivo, claro. Não era do feitio dele.

*   *   *

Domingo eu fui à casa da minha mãe. Estava na sala e vi um vulto passar lá fora. “Vixe, é meu pai vindo pro almoço”, pensei — de brincadeira, claro. Não acredito em espíritos.
Fui até a cozinha e o Rafael, meu sobrinho de dois anos de idade, me pegou pelo pulso, olhou o relógio e perguntou:
— É do vovô?
— É sim, Rafa. Mãe, como esse moleque sabe que o relógio era do pai?
— Você deve ter contado pra ele, Marco.
— É verdade.
Acho que minha mãe também ficou na dúvida, porque perguntou:
— De qual vovô, Rafael?
— O que tá lá fora.
Na segunda-feira, o relógio parou de funcionar de novo.

Meu sobrinho Rafael


 

15 comments

  1. Caraio Marco!!!! Tudo haver, sou espirita, nada muito informado, mas dos 4 anos que frequento desde o falecimento do meu Pai, tive bastante conhecimento pra me confortar e comportar em fases da minha vida pós situação parecida. Abraço

  2. Crianças pequenas percebem essas coisas com muita facilidade.
    Mas fala a verdade, dá maior conforto essas paradas né não? Mesmo no ceticismo, essas coisas confortam o coração da gente.

  3. Marco! Meu pai também é falecido, e tenho por ele a mesma veneração que voce demonstra ter. Pai é isso, onipresente, eterno… abraçaria ele mil vezes se fosse possivel!

  4. a sua história me lembrou algo que, segundo minha mãe, aconteceu comigo. eu tinha cerca de um ano e meio, estava começando a falar, e um belo dia falei o nome do meu avô paterno (falecido há sete anos). minha mãe achou curioso e perguntou ao meu pai se ele havia comentado sobre o pai dele comigo. mas não, nunca. e durante dias eu segui falando o nome dele. até que ela resolveu fazer um teste: pegou o álbum de casamento e pediu que eu apontasse o vovô. e claro, apontei o velho, de primeira, sem nunca tê-lo visto. ela então me perguntou se o vovô estava ali; eu disse que sim e me deitei no sofá, como se estivesse deitando no colo dele. ela então me perguntou se o vovô queria falar alguma coisa e eu, simplesmente, lhe dei um abraço, dos apertados. e foi isso, não falei sobre ele até crescer e ser formalmente apresentado a ele nos álbuns de família.

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