Salvador, 20 de outubro de 2004, 1h15min

Estava agora mesmo na varanda deste quarto de hotel, olhando o mar discutir com as pedras lá embaixo. Uma briga antiquíssima, anterior à existência de vida na Terra.
Eu poderia agora dizer algo pernóstico como: o mar vence sempre, é o masculino que seduz e aos poucos penetra a terra, fêmea que ao mesmo tempo resiste e cede às investidas do macho impetuoso. Mas como nunca maltrato meus leitores com metáforas burras e pretensiosas (é sempre uma coisa ou outra), digo apenas: enquanto olhava a briga lá embaixo, lembrei da morte. Da minha morte, para ser exato. Eu vou morrer — hoje mesmo, semana que vem, daqui a cinqüenta anos — e nunca mais poderei assistir ao mar quebrando na praia (é bonito, é bonito). Minha morte afetará a meia dúzia de pessoas, talvez nem isso. E as ondas continuarão a chocar-se contra o continente, indiferentes ao fim de mais uma breve existência, e sem saber o quanto eu gostava de ficar de longe, só olhando seu movimento sinuoso.
Poucas vezes me senti tão só.

25 comments

  1. Sabe, eu sentira a sua falta por dois motivos: ainda não te mostrei lado b do Rio e você não terminou o antigo testamento. Não é muito, mas é algo, vai…

  2. Não fique assim, rapaz… não sei se isso ajuda, mas veja as coisas assim: quando você morrer, no meio de tantos crentes que ficarão felizes que Jesus te deu a chicotada final, pelo menos um, um pastor sem muitos seguidores e um escritor fracassado, lembrando de como você o fazia sorrir, se lembrará de você e pensará, emocionado, “Puta merda, esse bunda-mole morreu antes mesmo de terminar a epístola aos Colossenses! E agora, o que é que eu faço? Leio a Bíblia normal? ….” e se desmanchará em lágrimas.
    Pense nisso.

  3. Menino, vc não sabe como eu gostei do seu blog… Vc escreve muito bem !!! Além disso, seu blog me chamou a atenção por vc ter usado como “pano de fundo”, o universo bíblico, e fez isso sem heresias e com bom humor…

  4. Desde pequena, tenho essa sensação quando me deparo com o mar (não vejo todo dia, moro no interior do pais), um misto de fascinação, medo e melancolia. A sua grandiosidade mostra a nossa pequenez, os seus mistérios são intrigantes, mas é triste, muito triste.

  5. “Vendo o mar discutir com as pedras lá embaixo”…
    Belíssima imagem!!!
    Acho que igual a ela, só mesmo a do samba da União da Ilha, “É hoje”:
    “Acredito ser o mais valente
    Nesta briga do rochedo com o mar…”
    PS – Sua morte, no fundo, no fundo, só vai afetar uma pessoa: você.

  6. Mané mar! Eu penso logo em poderosíssimos processos geológicos que ocorreram a pitriquilhões de anos atrás e, por mais que nos esforcemos, não temos ingerência nenhuma sobre eles: soerguimento de cordilheiras, derivas continentais, deposições monstras (!) de sedimentos, ou mesmo a existência dos dinossauros… Nossa morte não fará a menor diferença quanto isso. A vida é mesmo absurda e sem sentido!

  7. Olá, caro M!
    Já falei e repito:
    Vc realmente é o cara super-acompanhado-mais-solitário-que-já-ví…
    Nem Freud explica!!!
    intémas 🙂

  8. Ai, ai. Modesto toda vida! Quantas parentes vc tem? E amigos. Com certeza mais que meia dúzia. Sua morte afetaria umas 10 pessoas, pelo menos. Não se sinta tão só.

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