Davi honra o filho de Jônatas

(II Samuel 9)
De volta da espetacular seqüência de batalhas e vitórias, Davi procurava algo para se ocupar. Procurou, procurou, e acabou que caiu-lhe uma idéia na cabeça. Chamou Joabe e perguntou:
— Rapaz, será que ainda há alguém vivo da família de Saul?
— Bom. Tem a Mical, sua esposa.
— Aquela megera não conta, porra. Será que há mais alguém?
— Pode ser que haja, majestade. Mas não se preocupe! Se eu encontrar, degolo o feladaputa.
— Sossega o facho, Joabe. Na verdade eu queria fazer algo de bom pela família de Saul, em honra do meu amigo Jônatas.
Amigo. Sei.
— O que você resmungou aí?
— Eu disse “ainda não sei”.
— Hum.
— Mas vou descobrir, majestade. Xacomigo.
Joabe saiu e voltou no dia seguinte com a notícia: havia um ex-servo de Saul ainda vivo, um tal Ziba. O rei mandou que o servo fosse trazido à sua presença:
— Então você é o Ziba?
— Sim senhor.
— Aquele que gosta de levar um macho em riba?
— Er… Se lhe apetece, senhor.
— Pô, Ziba, relaxa. Foi só uma piadinha, não precisa concordar.
— Se assim o senhor quer.
— Ai, meu saco… Ziba, eu queria saber se ainda existe alguém da família de Saul…
— NÃO…
— … para que eu possa honrar essa pessoa e lhe dar tudo do bom e do melhor.
— … HÁ DÚVIDA!
— Hein?
— NÃO HÁ DÚVIDA!
— Eu acho que você ia falar não, antes que eu falasse de honrar o sujeito e coisa e tal…
— Hum. De fato eu ia, majestade. Mas compreenda: Isbosete morreu, Abner morreu. Alguma doença abate a todos que tinham algum tipo de relação com Saul.
— VOCÊ ESTÁ INSINUANDO ALGUMA COISA, ZIBA?
— Não. NÃO! Mas o senhor sabe como é. O povo fala. Os boatos correm. Dizem por aí que o senhor…
— Sei bem o que dizem por aí: que eu ordenei as mortes de Abner e Isbosete. POIS NÃO HÁ NADA MAIS ABSURDO!
— Claro que não.
— CLARO QUE NÃO!
— Se bem que foi uma mão na roda, né?
— O quê?
— Os dois terem morrido?
— Olha aqui, não tô com tempo para ficar ouvindo insinuações da ralé. Eu quero saber é se existe ou não alguém da família de Saul.
— Existe, majestade, já disse. O Vírgula-e-Vírgula.
— QUEM???
— Ah, é o apelido do rapaz. Veja o senhor: quem manca de uma perna é chamado Ponto-e-Vírgula. Ele manca das duas, então o povo acabou apelidando o pobre de Vírgula-e-Vírgula.
— Ai ai ai… O NOME dele, Ziba.
— Ah. Mefibosete. Está em Lo-Debar, morando na casa de um tal Maquir.
— Mefibosete, hein? Filho do finado Isbosete?
— Não. Do finado Jônatas.
— FILHO DO JÔNATAS? PUTA QUE PARIU, E FIQUEI ESSE TEMPO TODO SEM SABER DA EXISTÊNCIA DO FILHO DO JÔNATAS?
— Eu compreendo sua comoção, majestade. Sabe como é, o povo diz por aí que o senhor e o Jônatas… Bom, o senhor sabe.
— Ziba, você é mais fofoqueiro que funcionária pública aposentada.
— Obrigado, majestade.
— Ai meu saco. Bom, vá a Lo-Debar e me traga o Vírg… o MEFIBOSETE imediatamente.
— Às ordens.
No dia seguinte, Ziba apareceu em Jerusalém trazendo Mefibosete. De fato, o rapaz era aleijado dos dois pés. Era assim devido a um infeliz acidente: ao receber a notícia da morte de Saul e de Jônatas, sua ama o pegara e saíra correndo para salvar a vida do menino. Só que, na pressa, deixou-o cair.
Ao ver o rapaz chegando, arrastando os pés com dificuldade e exibindo no rosto inequívoca semelhança com Jônatas, Davi teve que se esforçar para conter as lágrimas. Quando chegou perto do trono, ele ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em sinal de respeito.
— Mefibosete!
— Sim, senhor.
— Ah, como você se parece com seu pai! Bom, da cintura pra cima pelo menos.
— Sei como é, senhor. O povo diz que o senhor conhecia meu pai muito bem da cintura pra baixo…
— Estou fazendo piada com seus pés aleijados, mocinho.
— Ah, isso. Hum. Desculpe.
— Tudo bem, tudo bem. Filho do Jônatas, nem acredito! Como anda a vida?
— Anda feito eu: se arrastando.
— Pois isso vai mudar, Mefibosete, vai mudar! Todas as terras que pertenciam ao seu avô serão suas agora.
— Puxa! Nem sei como agradecer, majestade.
— Tem nada que agradecer.
— Mas eu sou um pobre cachorro morto! Como é que o senhor pode ser tão bondoso comigo?
— Você é filho do único amigo que eu já tive. Precisa mais que isso? E tem mais. Cadê o Ziba? ZIBA!
— Aqui, majestade.
— Ah. Ziba, é o seguinte: estou entregando a Mefibosete todas as propriedades do velho Saul.
— TODAS? Mas o rapaz vai ser o homem mais rico de Israel!
— A intenção é essa, oras.
— O senhor é muito bondoso, majestade.
— Eu sei. Quanto a você, vai cultivar as terras de Mefibosete, junto com seus filhos e seus empregados.
— Mas eu só tenho vinte empregados, majestade!
— E quinze filhos. Dá e sobra. E eu vou pagar bem, não me encha o saco.
— Tá. E Mefibosete vai morar em qual das propriedades?
— Em nenhuma. Ele vai morar aqui em Jerusalém, e comer sempre à minha mesa. Bom, isso se ele quiser. Quer, Mefibosete?
— Seria uma honra, majestade.
— Oras, pare de me chamar de majestade.
— Mas chamo de quê?
— De pai, por exemplo.
— Puxa…
— Tá, tá. Sem choradeira. Tudo decidido, agora vamos cada um cuidar de sua vida.
Assim o filho de Jônatas passou a privar da convivência diária do rei, além de ser feito um dos homens mais ricos de todo o Israel. Davi o tratava como um filho, e a Mica, filho pequeno de Mefibosete, como um neto precoce.
Ah, que coisa bonita, que coisa linda! Como é bonito o amor entre as pessoas! Davi se viu cercado de toda aquela beleza, de todos aqueles sentimentos nobres, e sentiu em seu peito com toda a força o poder do tédio. Uma guerrinha ia bem.

19 comments

  1. A função “rasga-seda” existe desde os primórdios da criação!
    Mesmo não partilhando de sua filosofia dou a mão a palmatória e, encarnando o papel do Ziba, puxo seu saco: Adoro seu “beneblog”… (o beneplácito ficou arquivado. Rs rs rs)
    Ps:Karine é sua maior marketeira aki na Bahia… E podes crer q ela vai correr pra “banca” de qualquer maneira!
    Bj

  2. Sangue, muito Sangue!
    Heeheehee, pelo visto só isso acalma Davi. (bom, antes ele também tinha a “amizade” do Jônatas, né…)
    Agora uma pergunta Marco: o Balde de Gelo será então publicado? Quando, onde e por qual editora????
    Esse eu não posso perder, heeheehee.
    T+

  3. Eu sabia que você ia fazer os personagens pensarem que o David queria matar o Mefibosete.
    Mas esse trecho:
    “— Tudo bem, tudo bem. Filho do Jônatas, nem acredito! Como anda a vida?
    — Anda feito eu: se arrastando.”
    Hahahaha… Tá ótimo!

  4. E a biblia continua 🙂
    Espero que o Balde de Gelo saia por uma editora q consiga lançar o livro nacionalmente. Assim chega aqui em Salvador-Ba pra eu comprar.

  5. Será que só eu vou elogiar os novos tons de azul do JMC? Melhor que aquele tom de marrom toddy-com-leite que teve unsdias atrás, mas não tão harmonioso quanto o azul-calcinha.
    Hummm… Acho que já é o quinto conjunto de cores que pego por aqui: preto com amarelo, azul calcinha, cores quentes (com enfase no grená), marronzinho e esse tom de azul. Cadê o nosos verde, Marco?

  6. Corrija-me se eu estiver errada, mas… você estava lá no show do Los Hermanos no Sesc, num tava? Eu acho que era você, ali próximo a um ponto de ônibus lotado na hora da saída… Bom… se não era, saiba que há alguém muito parecido com vc por aí… e se vc num foi no show, saiba que foi ótimo!!!
    Se bem que eu acho que aquele cara que eu vi era você sim… rs…

  7. “Jesus foi traído com um beijo,
    Davi teve um grande amigo,
    e não sei mais se é só
    questão de sorte”
    Legião Urbana, L’age D’or
    Marco, I’m back! Só que ando numa fase muito ocupada, trabalhando como salva-vidas, de vez em quando passo para ver principalmente se vc fez alguma crítica de filmes.
    Abraços!

  8. Que posso dizer nesta 1ª visita? O que todos antes de mim já devem ter dito: genial!!! E desculpe se estou arrotando uma idiotice nesta caixa de comentários de uma pessoa talentosa e inteligente.

  9. Achei interessante o capítulo, mas eu me lembro q vc disse q não exploraria a tendenciosa interpretação homossexual entre Davi e Jonatas e que abominava tais comentários, mas acabou caindo na tentação.

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