Davi na caverna de Adulão e a matança dos sacerdotes

(I Samuel 22)
Davi estava numa situação daquelas: em Israel não podia ficar, com o rei em seus calcanhares; a Filistia estava descartada depois do episódio no palácio de Áquis, rei de Gate. Israel vivia em paz com Moabe, o que era uma alternativa mais atraente, ainda mais porque Davi era bisneto da moabita Rute. Ele considerou essa hipótese muito seriamente, mas teve que descartá-la logo. Isso porque no meio do caminho entre a Filistia e Moabe, quando pernoitava na caverna de Adulão, nas montanhas de Judá, foi surpreendido pela chegada de seus pais e seus irmãos.
— Como vocês me acharam aqui?
— Ah, Davi. As pessoas falam aqui e ali, há boatos por todo lado, acabamos te encontrando.
— Mas… MAS QUE MERDA! AGORA SAUL VAI ME ACHAR TAMBÉM!
— Vai nada, sossega.
— Como não???
— As pessoas que sabem do seu paradeiro são leais a você.
— “As pessoas”? Espero que sejam só vocês.
— Hum… Não. Tem também o pessoal lá fora.
— PESSOAL? QUE PESSOAL?
— Vai lá ver.
Davi botou a cabeça pra fora da caverna e levou um susto: quatrocentos homens estavam reunidos ali. Eram homens endividados, perseguidos, em dificuldades, procurados pela justiça. Vinham todos até ali para se apresentar a Davi.
— Hum. Então vocês estão comigo para o que der e vier?
— SIM, SENHOR DAVI! — responderam em uníssono.
— Então se ajeitem por aí, há cavernas para todo mundo.
— OBRIGADO, SENHOR DAVI!
— De nada.
— QUE BELEZA, SENHOR DAVI!
— Er… Ok, ok.
— AH, SENHOR DAVI, COMO O SENHOR É BOM PARA NÓS!
— Tá bom.
— SENHOR DAVI, CASO O SENHOR ESPIRRE: SAÚDE, VIU?
— PORRA! VÃO CAÇAR O QUE FAZER E PAREM DE ME ADULAR, CAMBADA DE PUXA-SACO!
— …
Já sabemos agora o porquê do nome da tal caverna: adulões não faltavam a Davi nessa ocasião.
Pois muito bem, o futuro rei já tinha seu exército. Não era grande coisa, mas para começar já estava bom. Sua preocupação agora era com a segurança da família. Sabia que se Saul o pegasse não ficaria contente em matar só a ele. Claro que não: seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, todos iriam comer capim pela raiz. Então Davi juntou a família e foi até Mispa, capital de Moabe, para falar com o rei daquele país. Pediu ao soberano que hospedasse sua família até que a situação melhorasse um pouco. Foi atendido em consideração a seus antepassados moabitas, então voltou à caverna de Adulão. Lá, porém, um certo profeta chamado Gade o aguardava.
— Davi, não fique entocado aqui feito uma toupeira. Javé ordena que você entre na terra de Judá.
— Ué, e por que Javé não vem falar comigo, em vez de ficar mandando recado?
— Olha, eu não sei de nada. Ele me deu a mensagem e eu entreguei; agora, se o senhor me dá licença, tenho outros serviços a fazer lá embaixo.
— Ah, claro. Pode ir.
Davi pensou no que o profeta lhe dissera. Descer daquela fortaleza natural era suicídio. Uma loucura que poderia custar sua vida. Mas, pensando bem, enfrentar Golias tinha sido uma loucura bem pior, e dera certo. Então chamou seus adulões e foram todos para o bosque de Herete.
Enquanto isso, Saul estava reunido com seus homens sob um arvoredo em Gibeá. Os boatos sobre a localização de Davi já haviam chegado até ele (quem é que segura os boatos?), que não via a hora de chegar à caverna de Adulão e pegar de surpresa seu inimigo. Enquanto descansava à sombra das árvores, falava com o povo da cidade que estava por ali:
— Ê, cambada de benjamitas filhos-da-puta! Então vocês acham que o filho de Jessé vai melhorar essa sua vidinha de merda, não é mesmo? Que vai dar terras a todos, empregos, educação, saneamento básico, a papagaiada toda. Não acham? Só assim se explica que vocês tenham conspirado contra mim e ocultado o que eu precisava saber. Meu filho, meu PRÓPRIO FILHO, andou burilando planos com aquele desgraçado do Davi, e alguém me disse alguma coisa? Não, claro que não! Ninguém tem dó de mim! Ninguém vê o quanto eu sofro!
Os benjamitas se entreolhavam, sem entender a crise de paranóia misturada com auto-indulgência do rei. No entanto, Doegue, o edomeu funcionário de Saul que vira Davi falando com o sacerdote estava por ali, e percebeu que era a hora certa para cair nas graças do rei:
— Majestade…
— Diga, Deogue.
— Doegue, majestade.
— FODA-SE! FALA LOGO!
— Então… Eu vi o Davi em Nobe. Ele foi falar com Aimeleque.
— O sacerdote?
— Esse mesmo. Aimeleque consultou a vontade de Deus por ele, depois lhe deu mantimentos e a espada de Golias.
— AH, DESGRAÇADO! Tragam esse Aimeleque até aqui IMEDIATAMENTE.
Alguns dos soldados saíram e voltaram pouco tempo depois trazendo o sacerdote e toda sua família.
— Aimeleque. Aimeleque… Você é filho do finado sacerdote Aitube, não?
— Sim, senhor.
— Ah, eu sabia. Conheci seu pai, um bom homem. E queria conversar com você, Aimeleque. E queria que você me ouvisse com atenção. Pode ser?
— Claro, majestade, claro.
— Muito bem, muito bem! Pois o negócio é o seguinte: passarinho me contou que você andou conspirando contra mim.
— Como é que…
— Não, não, deixa eu terminar: você e Davi, filho de Jessé, andaram mancomunados. Você deu a ele mantimentos e uma espada muito especial, e fez por ele uma consulta a Deus. É mentira, Aimeleque?
— Não. Sim. Digo. Veja bem, majestade. Veja bem. Que eu soubesse, Davi era o homem mais honrado de todo o reino. Digo, fora da família real, é claro, que idéia. Ele precisava de comida, então dei uns pães pra ele. Tudo pão velho, sabe? Dei a espada de Golias também, é verdade. Mas, puxa, o que eu ia fazer com uma espada? Eu, sacerdote? Agora, um homem de confiança do rei passa pelo Tabernáculo, pede comida e uma arma, como é que eu vou recusar. O senhor percebe? Não faria o mesmo no meu lugar?
— Hum. E a consulta?
— Consulta? Ah, claro. A consulta. Aquela consulta. Ué, é praxe a gente consultar a vontade de Deus sempre que pedem. Tem nada de mais. Nada de mais! Só uma consultazinha de rotina, coisa pouca!
— Sei, sei. Aimeleque?
— Sim, majestade?
— Estou aqui pensando. Acho que você vai morrer.
— COMO?
— É. Vai morrer. Você e toda sua família. É, acho que é a melhor saída. Nada pessoal, você não me leve a mal, por favor.
— MAS PELO AMOR DE DEUS, MAJESTADE!
— Oras, não faça disso um episódio mais constrangedor do que já é. HOMENS! Matem os sacerdotes!
No entanto, algo aconteceu para enfurecer mais ainda ao rei: seus soldados se recusavam a matar os sacerdotes de Javé. O receio era justificável: embora o Deus israelita não se manifestasse mais como antigamente, não custava nada lembrar das histórias da época em que sua ira estava no auge, e tomar certas cautelas que, assim como caldo de galinha e dinheiro no bolso, não fariam mal a ninguém.
Vendo que os homens de Saul se recusavam a cumprir uma ordem do rei, Aimeleque sentiu um alívio imenso. Não durou muito, porém. Saul, como creio que já foi dito, era louco mas de bobo não tinha nada. Percebendo quem ali estava doidinho para cumprir uma ordem sua, não importava qual fosse, repetiu a ordem, dessa vez para a pessoa certa:
— DOEGUE! Mate os sacerdotes.
Feliz da vida, Doegue pegou sua espada e degolou Aimeleque e toda sua família, oitenta e cinco homens ao todo. Não contente com isso, e querendo dar ao rei uma demonstração inquestionável de sua lealdade, juntou alguns homens e foi até Nobe, cidade dos sacerdotes, matando ali tudo o que respirasse. Um doce, esse tal Doegue.
Um dos filhos de Aimeleque, porém, conseguiu escapar da carnificina, e correu para juntar-se a Davi no bosque de Herete. Contou a ele sobre o massacre dos sacerdotes, e pediu proteção.
— Isso que você está me contando é muito sério, Abiatar — era esse o nome do rapaz. — Eu tenho culpa do que aconteceu. Devia ter visto Doegue no Tabernáculo quando estive lá, e matado o filho da puta. Mas agora é tarde para lamentar. O que importa é que agora estamos do mesmo lado: as mesmas pessoas que desejam minha morte agora desejam também a sua. Fique aqui comigo, e estará a salvo.
Abiatar foi só um dos que se juntaram a Davi: seu grupo aumentava a cada dia que passava. No entanto, tendo o filho de Aimeleque consigo, Davi tinha um trunfo sobre Saul: agora o único representante da religião oficial estava a seu lado, o que seria crucial em breve.

10 comments

  1. também não entendi porque os caras não deram uns cascudos no Doegue, já que os soldados não iam reagir mesmo. Tudo bem que eles eram sacerdotes, e até provem o contrário, eram da paz, mas daí a se deixar degolar… sei não. há algo estranho no ar.

  2. Desde sempre esses edomeus eram almadiçoados !
    Ohh racinha feladaputa o mais famoso Herodes o Grande foi o mais famoso promovendo periodicamente massacres para evitar levantes, uma coisa meiga !

  3. Um dos filhos do sacerdote escapou da chacina, né? Ai, que clichetesco… Pra um texto escrito sob inspiração divina, bem que poderia ser mais original.
    Ah, claro que me refiro ao texto bíblico original, nada contra sua versão – antes que me considerem uma herege aqui no seu templo… 🙂

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