O casamento de Sansão

(Juízes 14 e 15:1-8)

“E o Espírito do Senhor veio sobre Fulano”, “Então o Espírito de Deus se apossou de Beltrano” — fórmulas assim são recorrentes na Bíblia e, como vimos no capítulo em que Jefté derrotou os amonitas, geralmente significam que Fulano (ou Beltrano) ficou muito doido de repente. Parece-se, aliás, com o que dizem muitos serial killers: “As vozes me obrigaram”, “Deus mandou”, “O Diabo pediu com muito jeitinho e eu não tinha como recusar, sabe como é…”.
Pois muito bem, o menino Sansão cresceu e Javé ia com a cara dele. Um dia, quando estava no campo entre Zora e Estaol, na tribo de Dã, pela primeira vez ele sentiu que O Espírito de Deus o dirigia. Então, assim dirigido, desceu até a cidade de Timna e ali viu uma moça filistéia. Sansão ficou encantado por ela, e voltou correndo para casa:
— Pai! Mãe! Vi uma garota lá em Timna e me apaixonei por ela. Falem com os pais da menina, quero me casar.
— Er… Uma moça israelita, filho?
— Não. Filistéia.
— Ah, faça-me o favor! Com tanta mulher dando sopa aqui em Israel você foi se enrabichar logo por uma vagabunda filistéia. Sansão, aquele povo sequer é circuncidado!
— Mãe, que mentalidade atrasada! Não adianta vocês irem contra: é daquela moça que eu gosto, e vou me casar com ela, vocês aprovando ou não.
Diante da obstinação de Sansão, os pais cederam, mesmo contrariados. Não sabiam que essa loucura do filho era, na verdade, parte do plano de Javé para libertar Israel do jugo filisteu. Então a família pegou o caminho para Timna.
Quando estavam quase chegando, já passando entre as plantações de uva de Timna, um leão veio rugindo para cima de Sansão. Ele, dominado pelo Espírito de Deus, enfrentou o bicho com as mãos nuas e o rasgou ao meio, como se fosse um cabrito. Seus pais, que iam mais à frente, não viram nada, e ele achou melhor não contar o que acontecera.
Chegaram a Timna, Sansão foi conversar com a moça e gostou mais ainda dela. Os dois gostavam das mesmas músicas, haviam lido os mesmos livros, tinham hobbies parecidos. Nada de novo: quando se está apaixonado, tende-se a forçar a realidade para que um encontro fortuito pareça ter um significado maior, como se forças superiores manipulassem o tempo e o espaço para que se realizasse o encontro de duas almas gêmeas. Mas são palavras nascidas de um coração amargo: Sansão, pelo contrário, sentia-se arrebatado pela moça, e poucos dias depois voltou a Timna para casar-se com ela. Ficaram um tempo naquela conversinha doce e boba de casal por um tempo. Então ele lembrou-se do leão que matara dias antes, e resolveu ir ver como estava. Foi até o local onde havia matado o bicho, e ficou espantado ao ver que um enxame de abelhas havia feito sua colméia na carcaça do leão. Pegou um favo e saiu comendo pela estrada. Tendo encontrado seus pais, ofereceu mel a eles, sem no entanto dizer onde o havia encontrado.
Bom, mas Sansão e seus pais estavam em Timna para tratar de assuntos sérios, não para se lambuzarem de mel: Manoá foi à casa dos pais da moça para formalizar o pedido. Enquanto isso, Sansão fazia sua festa de despedida de solteiro. Os filisteus, sabendo da festa, levaram trinta rapazes da mesma faixa etária para participarem. Lá pelas tantas, todo mundo muito louco (não que o Espírito de Deus se movesse sobre eles, era manguaça mesmo), Sansão subiu numa mesa e todos fizeram silêncio para escutarem o discurso do noivo:
— Escutem, filisteus. Eu tenho uma adivinhação para vocês, quero ver se são inteligentes. Vou dar trinta túnicas de linho puro e trinta mantos a vocês, se conseguirem resolver minha charada antes do final dos sete dias da festa de casamento. Se não acertarem, porém, cada um de vocês me dará uma túnica e um manto. E aí, topam?
— Manda a charada, Sansão!
— Tá, lá vai:

“Do que come saiu comida,
e do forte saiu doçura”

— HEIN???
— É isso aí. Vocês têm os sete dias da festa para me trazerem a resposta.
Passaram-se três dias e eles ainda não tinham idéia da resposta. No quarto dia, foram falar com a noiva:
— Seguinte, dona: dá um jeito de descobrir a resposta da adivinhação do seu noivo, ou então nós vamos botar fogo na casa, com você e toda a família dentro. Vocês só nos convidaram para poderem nos roubar, né? Pois não tentem ser mais espertos do que nós.
A moça, assustada, resolveu fazer o que fazem todas as mulheres quando querem algo de seus homens, e rápido: começou a chorar.
— Você não me ama! Não, você me odeia!
— Queisso, mulher? Endoidou? É o Espírito de Deus?
— Você sabe muito bem o que é!
— Er… Não, não sei.
— Se você não sabe, eu é que não vou dizer!
— Ah. Tá bom, então. Me chama quando estiver se sentindo melhor…
— MONSTRO INSENSÍVEL!
— Ai meu caralho… O que te deu, mulher?
— VOCÊ ME ODEIA!
— Não odeio não, mas se você continuar com frescura eu posso começar…
— Frescura? FRESCURA??? Você propôs uma adivinhação aos seus amigos e não me falou a resposta!
— HEIN??? Ih… Primeiro: não são meus amigos, são filisteus. Segundo: nem para os meus pais eu falei a resposta, vou falar para você? Terceiro: ISSO LÁ É MOTIVO PRA ARMAR ESSA CENA TODA???
— SEM CORAÇÃO!
A mulher chorou durante os dias restantes da festa. Ao sétimo dia, não agüentando mais tamanha chateação, Sansão contou-lhe qual era a resposta da charada. Ela foi correndo contar aos rapazes filisteus, os quais vieram falar com Sansão.
— Sansão, nós temos a resposta da sua charada!
— É mesmo? E qual é?
— Bom, é uma charada meio besta essa sua, mas lá vai a resposta:

“Que coisa é mais doce que o mel?
E o que é mais forte do que o leão?”

— PUTA QUE PARIU! Se vocês não lavrassem a terra com minha novilha, jamais saberiam a resposta.
— Que porra é essa? Outra charada???
— Nah. Tô dizendo que se vocês não tivessem conversado com minha mulher, não saberiam a resposta nem fodendo. Grandes filhos da puta vocês são, e ela também.
Então o Espírito de Deus se apossou de Sansão, que foi até Ascalom e ali matou trinta homens bem vestidos que encontrou no caminho. Tirou suas roupas e levou aos filisteus como pagamento da aposta. Depois voltou para a casa de seu pai, emputecido como nunca (era esquentado, o Sansão, ainda mais quando o Espírito de… Bom, vocês sabem). Com o sumiço do genro, o pai da noiva resolveu dá-la em casamento ao padrinho.
O tempo passou, Sansão esfriou a cabeça e, na época da colheita do trigo, achou que era tempo de voltar a Timna e fazer as pazes com a mulher e sua família. Para isso, levou um cabrito de presente. Foi falar com o pai da moça:
— E aí, sogrão, beleza? Trouxe esse cabrito aqui pra vocês, olha só que bichão! E queria… Bom, o senhor sabe… Queria cumprir meus deveres de esposo.
— Como?
— Não, não: eu como. Vou ali no quarto da sua filha, tá bom? Daqui a pouco eu volto aí pra gente tomar uma cerveja e conversar.
— No quarto da minha filha? De jeito nenhum!
— Er… Não sei se o senhor está lembrado, mas eu sou o MARIDO dela. Tenho esse direito, ou melhor, essa obrigação!
— Não, Sansão, nada disso. Veja bem: você sumiu aquele dia, saiu batendo a porta e pisando forte, achei que você odiasse minha filha. O que você queria que eu pensasse, oras?
— Tá, eu sei. Sou esquentado às vezes, isso me atrapalha bastante. Mas vou ver se entro numa terapia agora, se começo a fazer ioga, balé, sei lá. Vou melhorar, prometo. Só que agora eu PRECISO ir até o quarto da sua filha. Tô na seca, sogrão. Você é homem, entende minha situação…
— Entendo, claro que entendo. Mas acontece que eu, pensando que você tinha rejeitado minha filha, dei-a em casamento ao seu amigo.
— COMO É QUE É???
— Ei, Sansão, fique calmo… Ela tem uma irmã mais nova, ainda mais bonita que ela. Se você quiser…
— EU QUERO É PORRA NENHUMA! EU TÔ MUITO PUTO COM VOCÊ, COM SUA FILHA E COM TODA ESSA TERRA DE MERDA QUE É A FILISTIA! E TÔ SENTINDO O ESPÍRITO DE DEUS CHEGANDO! CÊ VAI VER SÓ!
Saiu da casa do sogro furibundo e foi para o campo, onde capturou trezentas raposas. Amarrou-as duas as duas pelos rabos, prendendo a cada dupla uma tocha acesa, e soltou as raposas nas plantações de trigo dos filisteus. O fogo queimou o trigo já colhido, o trigo por colher, e ainda por cima as oliveiras. Ao verem o tamanho do prejuízo, e sabendo que Sansão o causara por ter sido contrariado pelo pai de sua noiva, os filisteus foram e queimaram vivos a moça, seu pai e toda a família. Sansão, o rei do autocontrole e da arte zen, conseguiu ficar mais puto ainda:
— EU NÃO VOU DESCANSAR ENQUANTO NÃO ACABAR COM ESSA RAÇA MALDITA!
Nesse mesmo dia ele matou muitos filisteus, e depois refugiou-se numa caverna que ficava em Etã. E esse foi só o começo dos problemas para os filisteus, como veremos mais adiante.

15 comments

  1. Eu ainda tô tentando entender o paralelo entre rasgar um leão e rasgar um cabrito ao meio. O máximo que eu já consegui foi arrancar a cabeça de uma galinha, quando eu tinha 10 anos.

  2. ANIMAAAAAAALLL!!!
    “Psycho Killer, Qu’est-ce que c’est?”
    E o cara fazia tudo com as mãos nuas… e um sanguinário-facínora-putinho-estressadinho-sáico-lunático-homicida, esse verdadeiro exemplo de pessoa é um herói bíblico?
    Massa… vou ter uma conversinha séria com o sr. Karol Wojtla ali e já volto.

  3. Cara, você é mesmo hilário. Esse paralelo da manifestação do “espírito do filho de deus” com as maluquices da época que a gente é obrigado a ouvir nas igrejas. Só não entendi, ainda, como é que alguém que ironiza tudo isso tenha tanto conhecimento da bíblia. Eu, por exemplo, não consigo ler porque não acredito em nada daquilo. Bom, deveria ser o contrário, porque aí poderia criticar. Mas nem isso.

  4. Putz, essa sua versão é bem mais interessante que a original. Eu queria ter lido a bíblia, mas já estou satisfeito com a sua história.
    Agora, desculpe a minha ignorância, mas eu não sei pq você usa o nome Javé?

  5. E aí, beleza? Meu, da hora o que vc escreveu. Muito louco mesmo. Acho que nunca passei tanto tempo no mesmo blog lendo. E acho que nunca lerei por tanto tempo uma história bíblica. Acho que vc deveria escrever mais vezes esses remakes bíblicos. Parabéns…

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