Débora e Baraque

(Juízes 4)

Adivinhem o que aconteceu depois que Eúde morreu?
— Hummmm… Enterraram Eúde!
Er… Sim. Enterraram Eúde, tá certo. E depois?
— Missa de sétimo dia!
Ai caralho… Deixa eu reformular a pergunta. Adivinhem o que aconteceu com o povo de Israel depois que Eúde morreu?
— …
O POVO VOLTOU A ADORAR OUTROS DEUSES, A SE MISTURAR COM OS CANANEUS, AQUILO DE SEMPRE, PORRA!
— Ah, é…
Humpf. Como castigo por sua infidelidade, Javé permitiu a Jabim, rei cananeu que governava a cidade de Hazor, que dominasse Israel. O que deve ter sido bem difícil porque, como vimos antes, Hazor havia sido totalmente destruída, e Jabim morto pelo próprio Josué. Bom, paciência. Se vocês querem verossimilhança, procurem outras leituras: a Bíblia é assim mesmo. Vamos, portanto, fazer de conta que Jabim não morreu e que Hazor continuava de pé. Pois bem, Jabim dominou Israel durante vinte anos, e maltratou muito o povo. Seu exército era impressionante, contando com novecentos carros de ferro e milhares de soldados comandados por um tal de Sísera.
Enquanto isso, Débora, mulher de Lapidote, era juíza em Israel. Não me perguntem como foi que uma mulher conseguiu atingir tal importância numa sociedade tão machista, porque eu não sei. O fato é que ela era respeitada. Débora sentava-se sob uma palmeira no caminho entre Ramá e Betel, e o povo vinha até ela para que julgasse questões. Tá, eu sei que não é lá um grande sistema jurídico, mas foi o que se pode arrumar na época.
Um dia, cansada da apatia do povo diante da opressão estrangeira, Débora mandou chamar um certo Baraque, filho de Abinoão (!!!) e morador de Quedes, cidade da tribo de Naftali.
— Ô, Debbie! Mandou me chamar, querida?
— Mandei sim…
— E em que posso servi-la, meu docinho de coco?
— Pra começar, tira a mão de mim. E se me chamar de docinho de coco outra vez, corto-lhe os bagos.
— Pô, Debbie, relaxa…
— Relaxa? RELAXA??? Israel há vinte anos sendo humilhado por esse filho-da-puta desse Jabim e você me fala pra RELAXAR???
— Tá vendo? Cê só pensa em política! Assim não dá, Debbie.
— Ah, cala a boca e me escuta. Seguinte: eu tava falando com o Javé hoje e…
— PORRA! CÊ FALA COM O JAVÉ???
— CLARO QUE EU FALO, CARALHO. Cê acha que eu virei juíza como? Dando a bunda???
— …
— Humpf. Então, Javé mandou dizer que é pra você juntar dez mil homens de Naftali e Zebulom e levar esse exército ali para o monte Tabor. Enquanto isso, Deus vai fazer com que Sísera venha com seus soldados para lutar contra você. E você vai sair ganhando.
— Pô, Debbie, num fode…
— CONFIE EM JAVÉ, ÍMPIO!
— Hum… Tá, eu confio. Vou lá juntar os caras pra lutar contra Sísera. Mas com uma condição…
— Qual?
— Você vai comigo…
— Ai, meu saco.
— Pô, Debbie! Vai ficar aí sentada embaixo dessa palmeira enquanto a gente se diverte?
— Tá bom. Eu vou com você. Só que você não vai receber as honras dessa vitória, porque Javé vai entregar a vida de Sísera nas mãos de uma mulher.
— De uma mulher??? Não inventa, Debbie! Você acha MESMO que pode matar o milico mais poderoso de toda a região?
— Veremos…
Os dois foram para Quedes, e Baraque tratou logo de convocar os homens para seu exército. Sísera ficou sabendo da insurreição que começava a se formar em Israel, e tratou logo de ir reprimi-la. Ao ver do alto da montanha aquela multidão de soldados, com carros de ferro e tudo, Baraque quase se cagou todo. Se Débora não estivesse ali com ele, teria ordenado meia-volta a seus soldados. Mas a juíza estava firme:
— Larga mão de ser bunda mole, Baraque! É hoje que o bicho vai pegar!
— O bicho vai pegar, estraçalhar, comer… Olha ali quanta gente, Debbie! Eles vão acabar com a gente!
— Confie em Javé, imbecil! E ME OBEDEÇA!
Sem muita alternativa, Baraque desceu do monte Tabor com seus homens, marchando devagarinho para aproveitar o resto de vida que ainda tinha. O improvável aconteceu, porém: os israelitas começaram a prevalecer sobre o exército de Sísera. Empolgado pela possibilidade de derrotar os cananeus, Baraque saiu em seu encalço. O exército inimigo debandava, com israelitas sedentos de sangue correndo atrás. Todos os soldados cananeus foram mortos pelos israelitas, com exceção do comandante Sísera que, tendo corrido até Harosete-Hagoim com Baraque nos seus calcanhares, conseguiu esconder-se numa tenda. A dona da tenda foi muito simpática com ele:
— Ô, tadinho! Correndo dos israelitas, é? Que malvados! Pode entrar, meu querido, vou proteger você — e o escondeu sob uma coberta.
Acontece que essa mulher, chamada Jael, era esposa de Héber, o queneu. Até aí tudo bem, porque a família do rei Jabim até se dava bem com os queneus. Só havia um detalhe: esse Héber era descendente de Jetro, o qual, caso vocês não se lembrem, era sogro de Moisés. Preciso nem falar de que lado sua família estava nessa guerra. Sísera, no entanto, não sabia de nada disso, e sentia-se aliviado:
— Muito obrigado, minha querida, muito obrigado! Ah, malditos israelitas… Vim correndo desde o rio Quisom até aqui, perseguido por eles.
— Puxa!
— Pois é! Tô morrendo de sede. Será que a senhora não poderia me dar um pouco d’água?
— Olha, eu tenho leite aqui nesse odre.
— Serve… Ah, muito obrigado! Olha, eu vou dormir um pouco, estou muito cansado. Se alguém perguntar, você não me viu, tá bom?
— Pode ficar sossegado.
— Obrigado. Muito, muito obrigado. Serei eternamente grato à senhora.
— Que é isso! Deixa pra lá.
Sísera foi dormir muito feliz, e logo pegou num sono pesado. Quando viu que o comandante cananeu já roncava alto, Jael pegou uma estaca da tenda e um martelo. Aproximou-se devagarinho de onde ele dormia e — PÁ! — cravou-lhe a estaca na testa. A estaca atravessou a cabeça e penetrou na terra do outro lado.
— O cara morreu?
Não, ficou com uma dor de cabeça do cão. E Jael não tinha nem Neosaldina em casa.
— Ah bom…
CLARO QUE MORREU, CÁSPITA! E Jael, esse doce de mulher, saiu da tenda e viu Baraque se aproximando. Ele veio falar com ela.
— Ô dona! A senhora por acaso não terá visto um comandante passando por aqui?
— Vi sim, e sei onde ele está. Quer que eu te mostre?
— Claro! Arrá, devia ter apostado com a Debbie! Agora vou matar esse mequetrefe.
— Hum… Olha, acho que não — Jael afastou o véu da tenda para que Baraque entrasse, e ele viu Sísera morto ali, pregado ao chão pela cabeça.
— MEU DEUS! Quem fez essa barbaridade??? Que coisa horrível, o pobre homem devia estar dormindo! Que covardia!
— Er… Fui eu.
— Você? MAS VOCÊ É SÓ UMA MULHER!
— Só uma mulher? SÓ UMA MULHER??? Pois saiba, meu caro, que não há nada que um homem possa fazer que uma mulher também não possa! Está chegando ao fim a manutenção desse status quo ultrapassado, com os homens sempre em posição dominante e as mulheres subservientes e humilhadas o tempo todo! As mulheres estão se conscientizando cada vez mais do papel chave que desempenham na sociedade e…
— Tá, tá! Porra, já me basta a Débora fazendo esse discurso todo dia. Bom, obrigado pelos serviços prestados, Dona…
— Jael.
— Dona Jael. Vou ver se a gente consegue providenciar uma medalha pra senhora.
— Muito obrigado.
Com isso, encerrou-se a batalha e os homens de Jabim foram humilhados. Depois de terem seu comandante assassinado por uma mulher desarmada, os cananeus ficaram desmotivados, e em pouco tempo a vitória de Israel foi completa. Não conseguindo conter sua alegria, Débora e Baraque convocaram o povo e deram um show. Preparem-se, portanto, para mais uma musiquinha do Velho Testamento. Mas só no próximo capítulo.

12 comments

  1. Errata: Por acaso não seria desarmada neste trecho?
    “seu comandante assassinado por uma mulher desaramada”
    Que desaramada deve ser uma pessoa sem um arame, sei lá.

  2. Nossa, não vejo nenhum problema nos palavrões… Aliás, acho que o Marcurélio escreve até pouco palavrão. Acho que os palavrões conseguem expressar bem os sentimentos, a entonação, ainda mais de forma escrita…

  3. “Assim diz o Senhor: terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia…” Romanos 9:14.
    não brinque com as coisas de Deus rapaz, você tem talento prá contar histórias! use seu dom para edificar pessoas e não zombar da Palavra de Deus. Cuidado, Deus é amor, mas também é juízo.

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