Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
(Álvaro de Campos)

23 comments

  1. Poesia de profunda beleza.
    Vou dormir com o impacto dela sobre o meu espírito, que por hora, permanece conturbado com fatos que escapam a nossa compreensão e sendo assim, precisava de um amparo, encontrado aqui no: “JMC”.
    Valeu por essa Marco Aurélio!
    Beleza de site!!

  2. Eu não poderia ter lido essa poesia em melhor momento. Parte do meu agora está contido nela e ver-me refletida em outra pessoa (ou em algo feito por outra pessoa) conforta, acalma.
    Um bom dia para você, Marco.
    Beijo!

  3. Do cacete! A última vez que eu tinha lido alguma coisa desse heterônimo do Fernando Pessoa faz uns dez anos. É o meu favorito, totalmente histérico…
    Um abraço, e “Não me peguem no braço!”
    Flávio

  4. Uma de minhas prediletas!
    Magnífica poesia do Pessoa, a outra de mesmo título também é muito boa…
    Mas ficou tão bravo assim por causa das flores? hehe
    Abraço!

  5. Fernando Pessoa, como Álvaro de Campos,Alberto Caeiro ou Ricardo Reis é imbatível.
    Prefiro Alvaro de Campos e Fernando Pessoa ele mesmo…
    Mas qualquer coisa feita por um deles é magnífico.

  6. Ninguém perguntou, mas o comecinho dessa música é a coisa mais sofrível do mundo. Tan tan, tan tan, tanananananam. Parece poperô de japonês. Se é que existe isso.

  7. Pessoa é muito foda… quem conhece de poesia sabe que esse cara é inigualável… e isso que essa ainda não é uma das melhores…

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