O terceiro discurso de Moisés

(Deuteronômio 29 e 30)

Parece que depois de um discurso extremamente longo como foi o segundo, o velho profeta pegou gosto pelo negócio, ganhou segurança, adquiriu técnicas de oratória e usou tudo isso em sua pièce de résistance que é este terceiro discurso, o último e mais curto de todos, mas também o mais bonito.
Moisés começa seu pronunciamento relembrando mais uma vez a saída do Egito. A diferença é que dessa vez ele enfatiza os milagres que iniciaram o Êxodo, dizendo que os israelitas viram tudo mas não tinham capacidade de compreender. Ele chega até a dizer que em 40 anos de jornada pelo deserto as roupas e sapatos dos hebreus não se desgastaram, mais um milagre de Javé. Outro milagre de Javé foi matar israelitas às centenas a cada bobagem que os caras faziam, mas Moisés preferiu calar-se a respeito dessa vez.
A lembrança dos milagres e da incapacidade humana de compreender os atos divinos serve como gancho para a segunda parte do discurso que trata de — adivinhem? — obediência. Moisés fala sobre as terras por onde passaram nesses 40 anos e sobre os deuses bizarros adorados em cada uma delas (não fala do deus bizarro dos israelitas, no entanto). Conclama Israel à fidelidade a seu deus, Javé. Traça um quadro pavoroso do futuro de Israel em caso de desobediência, falando da terra outrora próspera coberta de sal e enxofre, para que nada nela cresça, e do povo levado cativo e espalhado por todo lugar. O resumo de tudo isso está no final do capítulo 29: “Há coisas que não sabemos, e elas pertencem a Javé; mas o que ele revelou, isto é, a sua Lei, é para nós e para os nossos descendentes, para sempre. Ele fez isso a fim de que obedecêssemos a todas as suas leis”, tudo devidamente gaguejado, é claro.
Nem a maldição é para sempre, entretanto: se depois de desobedecer à lei divina e em conseqüência sofrer o exílio, o povo de Israel demonstrar arrependimento real e sincero, Javé trará os israelitas mesmo dos cantos mais distantes da Terra de volta a Canaã. Judeus e cristãos acreditam que esta profecia tenha começado a se cumprir em 1948, quando da criação do Estado de Israel; daí aquela confusão toda que lemos nos jornais todos os dias.
Moisés encerra seu discurso com belas imagens e de forma grandiosa: diz que os mandamentos que ele entrega ao povo não são difíceis de entender nem de cumprir. Não estão no céu, nem do outro lado do mar, então ninguém tem a desculpa de dizer que são inacessíveis, pelo contrário, estão à mão de todos, guardados no coração dos israelitas e até pregados nos umbrais das portas de suas casas (*). Ele reafirma que a escolha entre o bem e o mal, a vida e a morte, cabe ao povo de Israel. Exorta o povo à obediência e ao amor a deus, para que viva muitos anos na terra prometida aos patriarcas. Não, não estou falando de José Bonifácio, caralho. Os patriarcas a que ele se refere são Abraão, Isaque e Jacó, e eu espero que vocês ainda se lembrem desses personagens.

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(*) – “…nos umbrais das portas de suas casas”: em Deuteronômio 6:9 e 11:20 (ambas as passagens localizadas no meio do segundo discurso), Moisés diz que, para lembrar sempre dos mandamentos, os israelitas devem escrevê-los no batente de suas portas. Não sei se a intenção dele era literal, mas acabou se tornando: quem já entrou na casa de um judeu, ou numa loja ou fábrica pertencente a um judeu, deve ter notado no alto do batente das portas um pequeno objeto cilíndrico feito de vidro ou madeira. Trata-se da Mezuzá, um invólucro contendo pergaminhos com duas passagens da Torá em hebraico: Deuteronômio 6:4-9, denominada Shemá, e que trata da unicidade de deus e do dever dos israelitas de obedecê-lo, e Deuteronômio 11:12-21, o Vehaiá, que fala sobre as recompensas para a obediência e os castigos para a desobediência.

(Fonte: “Mezuzá: nossa proteção divina“, do site Beit Chabad – Sua referência judaica na Internet)

5 comments

  1. A morte de moises tem que ser um acontecimento com TV e as porra.
    Ae, vô apoiar a campanha votando e botando a parada no meu novo blog. Nem perca seu tempo de ir lá ler por enquanto pq praticamente não escrevi nada a não ser um primeiro post desengonçado. Um grande abraço. E só quero saber o q tu vai fazer com as 19.000 pratas do ibest. 😀

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